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terça-feira, abril 22, 2008

The Birth of a Nation (1915) - D. W. Griffith

No passado dia 9 de Abril comemoraram-se 143 anos do fim da Guerra Civil Americana, tantos quantos nos separaram, no dia 14 de Abril, do assassinato do Presidente Abraham Lincoln. Foi com alguma dose de coragem que cometi a proeza de ver, sem interrupções, a versão original e integral (duração superior a 3 horas) de “O Nascimento de uma Nação” (The Birth of a Nation) (1915) de Douglas W. Griffith.

O filme encontra-se dividido em duas partes, iniciando-se com o dealbar da Guerra Civil, retratando o assassinato do Presidente Lincoln e culminando com o período da Reconstrução no pós-guerra. A história das famílias Cameron (do Sul) e Stoneman (do Norte) é contada sob a perspectiva da primeira, pelo que o filme está embebido de um racismo quase omnipresente, visível nos textos e nas representações caricatas nos negros, quase sempre associados a comportamento patetas e destituídos de significado racional. Nesse aspecto, o filme é quase obsceno para os dias de hoje, mas não deixa de ser um documento histórico, sobretudo no modo como retrata a visão transmitida pelos brancos colonizadores e pró-esclavagistas no tempo em que a acção decorre e mesmo no momento em que a obra foi realizada.

The Birth of a Nation é igualmente famoso pelo tratamento nobre que dá à Ku Klux Klan, retratando a organização como defensora da ordem e da democracia, contra a anarquia representada pela atribuição do poder aos negros no pós-Guerra Civil. No entanto, esta organização racista e segregacionista viria a ser responsável, ao longo dos seus mais de cem anos de existência, por centenas de episódios criminosos contra os negros do sul dos Estados Unidos.

Os meios utilizados são notáveis: 5000 cenas diferentes, 1357 planos individuais, 18000 actores e figurantes, 3000 cavalos e 7 meses de produção. Para compreenderem quão extraordinários são estes números, lembrem-se que o filme é considerado o primeiro grande épico do cinema mudo e foi realizado apenas três anos após o afundamento do Titanic! As notas da edição realçam igualmente que nenhum outro filme se pode gabar de um esforço tão gigantesco, sobretudo na actualidade, em que os meios digitais dispensam cada vez mais a presença do elemento humano nas cenas mais grandiosas.

Apesar das observações sobre a qualidade dos actores do cinema mudo serem, como é lógico, altamente subjectivas, não posso deixar de destacar a encantadora Lillian Gish. As suas expressões ternas e arrebatadas ainda hoje apaixonam e, correndo o risco de parecer ridículo, sinto-me enfeitiçado pelo seu desempenho. Tanto assim que já adquiri mais um par de filmes em que Lillian Gish é a actriz principal, também estes mudos e a preto-e-branco. O poder dos clássicos!

domingo, fevereiro 17, 2008

Belo Mundo

Depois de 36 anos de vida e mais de um milhar de filmes, posso afirmar que já não fico impressionado com a maioria dos filmes que vejo. Não tendo sequer especial apreciação por romances históricos, foi com alguma surpresa que constatei que ainda me surpreendo com o trabalho de alguns realizadores.

A história inicia-se em 1607, com a chegada de três embarcações inglesas à costa da Virginia para iniciar a colonização daquela parte do continente americano e na expectativa de descobrir a passagem por ocidente para as Índias Orientais. O grupo de pouco mais de uma centena de colonizadores depara-se imediatamente com doenças e fome que dizimam quase por completo os habitantes do Forte de Jamestown. A relação entre os índios e os colonos é cheia de tensões e incompreensões, mas, apesar disso, é a amizade que se desenvolve entre a Princesa Pocahontas (filha do chefe da Tribo) e o capitão John Smith que permite que os colonos sejam salvos pelos mantimentos fornecidos pelos índios durante o longo e duro Inverno do primeiro ano. O resto do filme incide sobretudo na adaptação de Pocahontas ao modo de vida dos ingleses, bem como o seu casamento e constituição de família com John Rolfe.

O que mais me impressionou no filme foi a fidelidade da recriação histórica. Os índios das tribos Powhatan e Algonquin da Virginia são mesmo representados por descendentes de índios, as suas pinturas, cortes de cabelo e vestes são fiéis às dessas tribos, as embarcações inglesas são verdadeiras (emprestadas por um museu), as armas são reproduções fiéis utilizando os materiais usados naquele tempo, as construções das tendas e do forte obedecem à "tecnologia" da época e a linguagem e os rituais índios reflectem a cultura transmitida por via da tradição oral.

Por tudo isto, o filme é extraordinário, mas há alguns aspectos que o tornam ainda mais belo. A realização de Terrence Malick é prodigiosa. Para além de uma mise-en-scène excelente, a forma cuidada como a câmara é operada, os planos muito demorados, sem pressa de avançar para a cena seguinte, e a fotografia fantástica, tornam o filme um colírio para os olhos e para a alma de quem vê, isto apesar da visão algo negra dos seres humanos que perpassa grande parte da história. Conheço quem tenha achado o filme monótono, mas julgo que essa crítica se deve ao facto de não estarmos habituados a ver filmes comerciais americanos com um tratamento tão cuidado da imagem e da realização.

domingo, setembro 16, 2007

" Eu era como lixo que atraía moscas, em vez de uma flor desejada por borboletas e abelhas." Charles Bukowski in Ham on Rye (1982)


Uma palavra: Bukowski. A primeira vez que se lê é surpreendente, quase chocante. O estilo é fácil, directo e rude. Vou mais longe: é como ler Henri Miller sem aquele sexo todo ou uma versão literária de Feios, Porcos e Maus de Ettore Scola. Dir-se-ia que Charles Bukowski passou demasiado tempo da sua vida a limpar latrinas e a sua obra é parte dos escritos das portas de casa de banho. Mas tal seria injusto, dada a capacidade para descrever, de forma visceral, a vida decadente, a dependência alcoólica e a ausência de valores que atravessam toda a sua obra.

O meu primeiro contacto com Charles Bukowski foi com Correios (Post Office, 1971). Nenhuma obra literária fez mais para arruinar a reputação dos carteiros na América do que este pedaço de literatura da sarjeta. Bukowski sublinha todos os preconceitos que temos a respeito dos carteiros: o ódio mortal entre esta classe profissional e a raça canina, a tendência para saltarem para a cama de donas de casa carentes, o desrespeito pela autoridade dos superiores e o tratamento desprezível prestado aos e pelos utentes. Tudo isto aparece descrito de forma extremamente colorida nesta novela de ler e chorar por mais. Confesso que, inicialmente, ainda senti alguma piedade pela pobreza moral do carteiro Henri Chinaski, mas todos os pruridos e simpatia desaparecem ao fim de meia centena de páginas de acontecimentos delirantes e quase inenarráveis.

A segunda experiência foi com A Sul de Nenhum Norte (South of No North, 1973), no original), mas foi mais recentemente, com Ham On Rye (1982) que percebi que grande parte da obra de Bukowski gira em torno desse personagem com muito de marginal e autobiográfico (Henri Chinaski). Contudo, nesta obra de 1982, o leitor sente alguma simpatia por Chinaski, quase sempre descrito como um pária, um adolescente desprezado socialmente que deseja viver como um eremita (cf. O episódio do gigantesco ataque de acne que dura quase um ano e o isola por completo dos colegas de liceu). Existem vários personagens desprezíveis nesta obra, mas por Chinaski sentimos alguma simpatia, pelo menos enquanto adolescente. Diria que Chinaski é uma espécie de Adrian Mole para adultos, com borbulhas e tudo. Todavia, a adolescência amarga desemboca num adulto alcoólico, beligerante e completamente sem rumo.

Agora, na minha estadia em Chicago, aproveitei para adquirir Factotum (1975) e Hot Water Music (1983). O mesmo estilo delirante, a mesma decadência das personagens e uma descrição politicamente incorrecta de sexo com uma prostituta de fazer rir até às lágrimas. O conhecido Matt Dillon interpreta Henri Chinaski na versão para cinema de Factotum (2005), contracenando com Lili Taylor, Marisa Tomei, Fisher Stevens e Karen Young.

domingo, agosto 05, 2007

Qual a banda sonora?

Al Bowlly interpreta o tema de fundo deste blog, "Guilty", que surge integrado numa banda sonora extremamente popular de um filme lançado em 2001. Dois temas interpretados pelo mesmo cantor - "Midnight, the Stars and You" e "It's All Forgotten Now" - haviam sido igualmente utilizados numa obra-prima de terror da década de 80.

Quais os dois filmes em que os temas de Al Bowlly, nascido a 7 de Janeiro de 1899 em Lourenço Marques (território português, portanto), aparecem?

quinta-feira, julho 19, 2007

Adivinha

Em que filme polémico, baseado na obra Die Traumnovelle do escritor austríaco Arthur Schnitzler, é que se pode ouvir o tema a tocar ali ao lado intitulado Valsa 2 da Jazz Suite Nº2 composta por Dmitri Shotakovich?

sábado, abril 21, 2007

8. Mellon Collie and the Infinite Sadness (1995) - Smashing Pumpkins

Um disco memorável! Uma obra-prima inigualável! Mellon Collie and the Infinite Sadness é um título perfeito para descrever 28 temas e duas horas de música sempre surpreendente e poesia inspiradíssima. Este duplo álbum encontra-se dividido em duas partes: Dawn to Dusk e Twilight to Starlight. A produção de Flood, Alan Moulder e Billy Corgan é quase perfeita. A arte gráfica é lindíssima e inspira-se em George Meliés. Os animais e seres inanimados representados ganham personalidade e comportamentos humanos e fazem-nos sorrir.

Os Smashing Pumpkins passam por 30 anos de influências e sonoridades distintas. O grunge de Chicago está aqui mais diluído do que no disco anterior, Siamese Dream, e misturado com canções de amor de influência beatliana e épicos à la Pink Floyd, mas tudo temperado com uma apreciável dose de irreverência e inconformismo.

O duplo álbum inicia-se com Mellon Collie and the Infinite Sadness um instrumental de piano a solo que bem podia ser a banda sonora deste blog. É Billy Corgan que faz tudo: vocalista, compositor, produtor, multi-instrumentista e génio musical que liderou os Pumpkins durante os seus mais de 10 anos de existência. Os grandes êxitos comerciais deste disco aparecem no primeiro cd: Tonight, Tonight, Zero e Bullet With Buttefly Wings. Dois épicos inesquecíveis (Porcelina of the Vast Oceans e Thru the Eyes of Ruby) rompem com a rigidez da canção pop-rock de 3 ou 4 minutos e apresentam-se como poemas sinfónicos do rock. Duas melodias românticas, Beautiful e By Starlight, povoavam os meus amores dos vinte e poucos anos.

As letras caracterizam-se por tópicos tão diversificados como a fúria e alienação social (“Despite all my rage I am still just a rat in a cage”), o nihilismo (“Emptiness is loneliness, loneliness is cleanliness, cleanliness is godliness and god is empty just like me”), o voyeurismo (“I know I’m silly cause I’m hanging in this tree in the hopes that she will catch a glimpse of me”) ou a manipulação emocional (“wrap me up in always, and drag me in with maybes; your innocence is treasure, your innocence is death your innocence is all I have”).

Doze anos passados desde a saída deste trabalho, ainda é um disco que ouço com regularidade e que não perdeu o impacto inicial. A vertente maníaco-depressiva da obra não é, provavelmente, para todos, pois oscila entre temas muito melódicos e belos (Galapogos, Cupid de Locke ou By Starlight) e a violência sonora ao nível do melhor grunge alguma vez feito (Fuck you (an ode to no one), Tales of a scorched earth ou X.Y.Z.)

Depois do auge, a carreira dos Smashing Pumpkins seria sempre a descer...

sábado, março 24, 2007

Repulsa (1965) by Roman Polanski

Este foi o filme do fim-de-semana. Um clássico de terror.

Londres. Anos 60. Polanski filma Deneuve. Os pesadelos da puritana Carol (Deneuve) conduzem-na à loucura, numa espiral de comportamentos e reacções cada vez mais bizarras e destituídas de sentido. Em última análise, a realidade imita o pesadelo e Carol acaba por sofrer o abuso dos homens que procura evitar fechando-se no seu apartamento e em si mesma.

O filme começa com aquelas pequenas manias. A escova de dentes de alguém no nosso copo enoja-nos, o toque de um estranho afecta-nos, um olhar mais penetrante incomoda-nos. Mas até as atitudes mais simples do dia-a-dia representam uma dose de loucura latente. Repulsa é sinistro desde o início, mas converte-se numa obra de puro medo à medida que Polanski distorce situações do quotidiano tornando-as aterradoras.

O filme é subliminar em muitos aspectos. A componente freudiana é dominante. Uma racha num passeio aparenta um púbis, a navalha aberta sugere um falo em erecção e até o mais estreito corredor sugere uma vagina. A forma como Polanski dirige é brilhante e invulgar. A câmara filma por trás dos actores, como se estes estivessem constantemente a serem perseguidos, sob ameaça e alvo de voyeurismo, um tema dominante na obra do realizador.

quarta-feira, novembro 08, 2006

O Diabo Veste Prada


O Diabo Veste Prada é um filmezinho interessante. Mereceria umas três estrelas em cinco possíveis pela brilhante Meryl Streep, pelo guarda-roupa, pelos Manolo Blanick e pelos Jimmy Choo e, claro, por New York. Como todos sabem, Meryl Streep é uma actriz do outro mundo e neste filme tem um par de momentos inesquecíveis em que me fez lembrar outro "monstro" do cinema: Bette Davies em All About Eve.

Mas Streep não tem culpa do argumento impregnado de um moralismo bacôco de O Diabo Veste Prada. Alguém no seu devido juízo recusaria uma ascensão meteórica no mundo da moda por uma questão de princípios, ainda por cima duvidosos? A personagem de Andrea (Andy) está cheia de equívocos. Durante 90% do filme está longe de demonstrar conflitos interiores profundos sobre a sua ascensão profissional. Mais do que isso, parece deliciar-se com os pequenos sucessos que vai obtendo no dia-a-dia. Por essa razão, o final parece-me completamente inconsistente com o retrato da personagem que é construído ao longo da película.

A mensagem final - uma certa superioridade moral de Andy - é absolutamente execrável. Alguém que tenha uma profissão minimamente competitiva sabe que muito frequentemente é inevitável concorrermos contra pessoas de quem gostamos. A minha própria carreira é disso exemplo. Neste momento, os quadros de vagas do meu departamento estão preenchidos, pelo que a única forma de uma vaga ser libertada é alguém reformar-se, despedir-se ou morrer. Qualquer uma destas situações é bastante improvável. Dado este número limitado de vagas, o mais provável é que eu próprio tenha de concorrer, imagine-se, com o meu padrinho de casamento por uma delas. Muito possivelmente, o Luís e a Rosa também competirão entre si, mas não estou a ver nenhum de nós assoberbado por dramas existenciais ou pseudo-complexos de culpa.

quinta-feira, abril 06, 2006

Cronenberg goes Tarantino


Paradoxo: Como é que um filme tão bom pode ser tão difícil de visionar?
Para além da violência física que trespassa o filme, é a violência psicológica que mais impressiona. No filme de Cronenberg, a segunda é uma consequência inevitável da primeira e é provavelmente isso que nos deixa impotentes. Ver aquela família a desmoronar e saber que a situação é incontornável revela requintes de sadismo por parte do autor, mas transforma um filme violento num tratado de racionalidade.

Anda por aí muito crítico a afirmar que este é um Cronenberg inconfundível. Conhecendo alguma coisa do realizador canadiano, posso dizer que este NÃO é um Cronenberg típico. Desde os tempos de Coma e Videodrome, até aos geniais A Mosca e Irmãos Inseparáveis, a obra de Cronenberg sempre lidou com a relação entre a tecnologia e os seres humanos, ou melhor, com a forma como estes se fundem, por vezes literalmente(!), com aquela. Ora esta ideia estrutural presente naquelas quatro obras, está ausente de Uma História de Violência. O que subsiste é o drama humano com diferentes contornos, mas que culmina na sua forma mais pura e primordial: o fraticídio.

quinta-feira, março 09, 2006

Capote


Vejo muito cinema, mas raramente escrevo sobre filmes. É preciso ficar muito deslumbrado/indignado/perturbado para sentir motivação a escrever. Vi Capote e fiquei incomodado. Não tanto pelos desempenhos dos actores e realizador do filme, mas pela mensagem moralmente dúbia que passa. Qual a legitimidade de um escritor para contar uma história sobre um assassino, explorando os detalhes mais íntimos da sua demência? Será que, ao cometer um crime tão hediondo, o assassino perde o direito à sua personalidade de modo a satisfazer a curiosidade mórbida de um escritor e dos seus leitores sedentos de escândalo e sangue? O recente caso do canibal de Rothenburg, no qual o tribunal deu razão ao criminoso (e queixoso), proibindo a exibição do filme, parece indicar que não.

PS: Capote era um indivíduo cheio de idiossincrasias, como aparece demonstrado ao longo do filme, mas a composição feita por Philip Seymour Hoffman é brilhante.