Todos nós já vimos filmes maus, daqueles em que nos arrependemos profundamente de ter entrado no cinema ou no clube de vídeo. No entanto, poucos assistimos a filmes maus por opção.
Plan 9 - From Outer Space é um filme tão mau, tão mau... que é bom! O narrador do filme oscila entre o kitsch e o creepy. Os discos voadores são pratos de cozinha suspensos por fios (pouco) transparentes. Os mortos vivos, erguidos do túmulo, imitam os movimentos de alguém a mexer-se numa sala completamente às escuras. Os extra-terrestres parecem demasiado... terrestres. Os efeitos sonoros assemelham-se à ventania que assobia nas esquinas dos edifícios. A interpretação de Bela Lugosi é demasiado breve para ultrapassar a deliciosa mediocridade em que o filme decorre.
Plan 9 é uma caldeirada hilariante, servida por aquele que muitos classificaram como o pior realizador de todos os tempos: Edward Wood Jr.
Persona é provavelmente um dos filmes mais "difíceis" que já vi. Para além da surreal sequência de abertura, que mistura uma crucifixão, uma tarântula, um pénis erecto, uma ovelha a ser abatida, excertos de filmes mudos e vários corpos inertes/mortos em camas de hospital, o filme é trespassado por uma aura misteriosa e demencial. Bergman não é um cineasta fácil. Já o sabia. Mas Persona é, de entre os objectos cinematográficos do autor, o mais intrigante.
Elizabeth Vogler (Liv Ullmann), uma actriz que interpreta o papel de Elektra numa peça deixa subitamente de falar e é internada num hospital. Alma (Bibi Andersson) é a enfermeira encarregue de cuidar de Elizabeth, acabando ambas por se instalarem numa casa de praia da directora do hospital. Ao longo do seu contacto, a enfermeira fala com Elizabeth como se ela fosse sua interlocutora e revela-lhe as suas experiência sexuais precoces e um aborto ocorrido na sequência de uma relação com um homem casado, entre outros sentimentos e emoções.
Após meses sem que Elizabeth pronuncie uma palavra, Alma oferece-se para depositar no correio a correspondência pessoal da actriz. Movida pela curiosidade, acaba por ler a carta dirigida à administradora, na qual Elizabeth afirma estudar em detalhe o comportamento da enfermeira. A partir deste momento, a personagem de Alma transfigura-se por completo, passando a expressar o seu ódio e desprezo pela actriz.
O aspecto mais complexo do filme reside no facto de, sobretudo após a leitura da carta, as personalidades de Elizabeth e Alma se confundirem, ao ponto de confundir o espectador sobre quem exerce a actividade profissional e quem é a paciente (um fenómeno designado de transferência em psicanálise). Mais do que isso, uma interpretação alternativa sugere que as duas personagens são uma só pessoa, sendo Elizabeth a pessoa "interior" e Alma a sua versão "exterior" ou "revelada". Várias cenas ao longo do filme contribuem para algum fundamento desta explicação.
Para mais informação e "interpretações alternativas" sobre Persona, aconselha-se a leitura do longo artigo em inglês na Wikipedia.
No que toca a obscuros objectos de desejo, La Valée de Barbet Schroeder é ainda mais difícil de encontrar do que More, o primeiro filme destas crónicas. Desta vez, os hippies de Schroeder viajam até à longínqua e francamente desconhecida Papua Nova Guiné e encontram a mulher de um diplomata francês, Viviane, obcecada pelas penas das exóticas aves-do-paraíso e com demasiado tempo para gastar. À boa maneira francesa, Viviane toma um dos rapazes como amante e, juntamente com os restantes hippies, embarca numa viagem à procura das ditas penas e do vale "obscurecido pelas nuvens" (Obscured by Clouds é o título do álbum dos Pink Floyd que contém a banda sonora deste filme). Ao longo do seu percurso pelo interior da Nova Guiné deparam-se com tribos indígenas que contactam pela primeira vez com a civilização ocidental e com o "homem branco". Ignorando a Papua Nova Guiné enquanto país, senti-me motivado, após a visualização do filme, a procurar mais informação sobre esta nação do sudeste asiático. O mito do "bom selvagem" é o tema filosófico, mas num ambiente tão excêntrico quanto misterioso, o que fica é a componente quase documental de alguns momentos. Durante largos períodos do filme somos confrontados com um relato quase antropológico da tribo dos Kambouga, sugerindo claramente uma nostalgia do movimento hippie pelo Homem pré-contaminação da civilização ocidental. No entanto, o realismo regressa ao relato quando Olivier, acometido por um momento de lucidez, recorda Viviane que também na tribo há regras de comportamento rígidas, obediência cega ao tabu e exploração laboral e sexual das mulheres, que tornam a vivência muito menos romântica da que é sugerida pelo mito do "bom selvagem". Muito menos directo do que More, La Valée provoca no espectador uma sensação mais reconfortante, talvez pela absoluta serenidade que trespassa toda a obra, demonstrada pela total ausência de violência física ou verbal.
Antes de Eraserhead(1977), houve The Grandmother, uma curta metragem em que David Lynch experimenta pela primeira vez com as temáticas que apareceriam de modo mais consolidado em Eraserhead.
O filme combina animação com acção real e retrata um rapazinho incontinente que é tratado com desprezo e violência pelos pais e planta uma semente na sua cama a partir da qual se desenvolve um útero que, eventualmente, dá à luz uma mulher: a avó do título do filme. Em contraste com a relação com os pais, o rapaz recebe carinho, atenção e compreensão da avó, que nasce, literalmente, para dar amor à criança.
O ambiente é sinistro, marcado pelo constraste entre a pele muito branca das personagens e o fundo escuro no qual se movem. Em termos substantivos, trata-se de uma sucessão de metáforas sobre o nascimento, a sexualidade e a morte, filmadas de modo bizarro e grotesco e sem qualquer diálogo. Apenas música, ruídos, grunhidos, assobios e outros sons incompreensíveis que, apesar disso, constituem um notável esforço amador no domínio da sonoplastia e contribuem para tornar o filme mais inteligível.
Há momentos desconcertantes para o cinéfilo que espera uma trama linear e escorreita. É certo que talvez não se deva esperar isso de Lynch, pelo menos de um Lynch tão jovem, mas ainda assim The Grandmother tem um argumento suficientemente compreensível para merecer o estatuto de filme de culto e intrigar os mais curiosos sobre este marco do cinema marginal.
O primeiro filme do realizador franco-alemão Barbet Schroeder retrata a descida ao abismo de um jovem alemão que se apaixona por uma americana com vasta experiência no mundo da droga. Stefan viaja à boleia para Paris, onde conhece Estelle Miller que o convence a passar o Verão consigo em Ibiza. Aqui, na pequena ilha de Formentera onde todos se conhecem, Stefan experimenta vários tipos de drogas, partindo dos inocentes charros, para as anfetaminas, passando pelo LSD e acabando dependente do cavalo (heroína).
O filme surge na ressaca do movimento hippie, do flower power e do Verão do Amor, assumindo uma surpreendente postura crítica do consumo de drogas. O argumento é simples, quase diria amadoresco, e os actores têm desempenhos relativamente fracos, ainda que Mimsy Farmer (Estelle) vista, de forma convincente, a pele de anjo negro. Um dos principais méritos do filme reside na forma como trata o tema da toxicodependência, em contracorrente com o optimismo prevalecente durante grande parte dos anos 60. Nesse sentido, pode ser considerado um percursor, fraco, é certo, de Trainspotting, ou de relatos como os de Christiane F. ou Sid & Nancy.
A banda sonora foi composta integralmente pelos Pink Floyd e constitui outro ponto alto do filme. A música alterna longas sequências psicadélicas (Quicksilver) com interlúdios que contextualizam a acção (Party Sequence ou A Spanish Piece) Os temas mais marcantes são Cirrus Minor, Crying Song e Cymbaline (com voz de Roger Waters e não de David Gilmour, como acontece no álbum original). A paisagem sonora é acompanhada por uma excelente fotografia das paisagens sublimes de Ibiza (pôr-do-sol, mar, falésias, etc.). Não fosse o tema sério, tratado de forma realista, quase diria que se trata de um óptimo filme de Verão, mas provavelmente o contraste entre a vitalidade da paisagem e a decadência das personagens não é casual.
PS: Não deixa de ser curioso o facto de, tanto no cinema como na vida real, os relatos de casais de toxicodependentes atribuírem à mulher o papel de víbora (Sid Vicious & Nancy Spungen, Kurt Cobain & Courtney Love, Estelle & Stefan em More).