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sábado, janeiro 02, 2010

No Rescaldo da Cimeira de Copenhaga...

...Nada como uma visão desencantada da ecologia. Rushing to Paradise, do recentemente falecido J.G. Ballard, é um exemplo acabado de como as melhores intenções de alguns em defesa do ambiente, podem ser distorcidas por uma liderança demente e redundar num apocalipse tropical. Ou de como a tentativa de proteger o albatroz de testes nucleares franceses numa ilha remota do Pacífico Sul termina numa espécie de campo de extermínio no paraíso.

sábado, janeiro 19, 2008

Vícios

"Many a good man has been put under the bridge by a woman"

Henry Chinaski in Women by Charles Bukowski

domingo, setembro 16, 2007

" Eu era como lixo que atraía moscas, em vez de uma flor desejada por borboletas e abelhas." Charles Bukowski in Ham on Rye (1982)


Uma palavra: Bukowski. A primeira vez que se lê é surpreendente, quase chocante. O estilo é fácil, directo e rude. Vou mais longe: é como ler Henri Miller sem aquele sexo todo ou uma versão literária de Feios, Porcos e Maus de Ettore Scola. Dir-se-ia que Charles Bukowski passou demasiado tempo da sua vida a limpar latrinas e a sua obra é parte dos escritos das portas de casa de banho. Mas tal seria injusto, dada a capacidade para descrever, de forma visceral, a vida decadente, a dependência alcoólica e a ausência de valores que atravessam toda a sua obra.

O meu primeiro contacto com Charles Bukowski foi com Correios (Post Office, 1971). Nenhuma obra literária fez mais para arruinar a reputação dos carteiros na América do que este pedaço de literatura da sarjeta. Bukowski sublinha todos os preconceitos que temos a respeito dos carteiros: o ódio mortal entre esta classe profissional e a raça canina, a tendência para saltarem para a cama de donas de casa carentes, o desrespeito pela autoridade dos superiores e o tratamento desprezível prestado aos e pelos utentes. Tudo isto aparece descrito de forma extremamente colorida nesta novela de ler e chorar por mais. Confesso que, inicialmente, ainda senti alguma piedade pela pobreza moral do carteiro Henri Chinaski, mas todos os pruridos e simpatia desaparecem ao fim de meia centena de páginas de acontecimentos delirantes e quase inenarráveis.

A segunda experiência foi com A Sul de Nenhum Norte (South of No North, 1973), no original), mas foi mais recentemente, com Ham On Rye (1982) que percebi que grande parte da obra de Bukowski gira em torno desse personagem com muito de marginal e autobiográfico (Henri Chinaski). Contudo, nesta obra de 1982, o leitor sente alguma simpatia por Chinaski, quase sempre descrito como um pária, um adolescente desprezado socialmente que deseja viver como um eremita (cf. O episódio do gigantesco ataque de acne que dura quase um ano e o isola por completo dos colegas de liceu). Existem vários personagens desprezíveis nesta obra, mas por Chinaski sentimos alguma simpatia, pelo menos enquanto adolescente. Diria que Chinaski é uma espécie de Adrian Mole para adultos, com borbulhas e tudo. Todavia, a adolescência amarga desemboca num adulto alcoólico, beligerante e completamente sem rumo.

Agora, na minha estadia em Chicago, aproveitei para adquirir Factotum (1975) e Hot Water Music (1983). O mesmo estilo delirante, a mesma decadência das personagens e uma descrição politicamente incorrecta de sexo com uma prostituta de fazer rir até às lágrimas. O conhecido Matt Dillon interpreta Henri Chinaski na versão para cinema de Factotum (2005), contracenando com Lili Taylor, Marisa Tomei, Fisher Stevens e Karen Young.

quinta-feira, julho 19, 2007

Adivinha

Em que filme polémico, baseado na obra Die Traumnovelle do escritor austríaco Arthur Schnitzler, é que se pode ouvir o tema a tocar ali ao lado intitulado Valsa 2 da Jazz Suite Nº2 composta por Dmitri Shotakovich?

quarta-feira, fevereiro 07, 2007

A Sul de Nenhum Norte

Uma palavra: Bukowski. A primeira vez que se lê é surpreendente, quase chocante. O estilo é fácil, directo e rude. Vou mais longe: é como ler Henri Miller sem aquele sexo todo ou uma versão literária de Feios, Porcos e Maus de Ettore Scola. Dir-se-ia que Charles Bukowski passou demasiado tempo da sua vida a limpar latrinas e a sua obra é parte dos escritos das portas de casa de banho. Mas tal seria injusto, dada a capacidade para descrever, de forma visceral, a vida decadente, a dependência alcoólica e a ausência de valores que atravessam toda a sua obra.

O meu primeiro contacto com Charles Bukowski foi com Correios (Post Office, 1971), no original). Nenhuma obra literária fez mais para arruinar a reputação dos carteiros na América como este pedaço de literatura da sarjeta. Bukowski sublinha todos os preconceitos que temos a respeito dos carteiros: o ódio mortal entre esta classe profissional e a raça canina, a tendência para saltarem para a cama de donas de casa carentes, o desrespeito pela autoridade dos superiores e o tratamento desprezível prestado aos utentes. Tudo isto aparece descrito de forma extremamente colorida nesta novela de ler e chorar por mais. Confesso que, inicialmente, ainda senti alguma piedade pela pobreza moral do carteiro Henri Chinaski, mas todos os pruridos e simpatia desaparecem ao fim de meia centena de páginas de acontecimentos delirantes e quase inenarráveis.

A segunda experiência foi com A Sul de Nenhum Norte (South of No North (1973), no original), mas foi mais recentemente, com Ham On Rye (desconheço se existe tradução portuguesa) que percebi que grande parte da obra de Bukowski gira em torno desse personagem com muito marginal e autobiográfico (Henri Chinaski). Contudo, nesta obra de 1982, o leitor sente alguma simpatia por Chinaski, quase sempre descrito como um pária, um adolescente desprezado socialmente que deseja viver como um eremita (cf. O episódio do gigantesco ataque de acne que dura quase um ano e o isola por completo dos colegas de liceu). Existem vários personagens desprezíveis nesta obra, mas por Chinaski sentimos alguma simpatia, pelo menos enquanto adolescente. Diria que Chinaski é uma espécie de Adrian Mole para adultos, com borbulhas e tudo. Todavia, a adolescência amarga desemboca num adulto alcoólico, beligerante e completamente à deriva.

sexta-feira, janeiro 12, 2007

Aparelho Voador a Baixa Altitude

Sou orgulhoso proprietário de uma dúzia de livros de James G. Ballard. Estranhamente, tudo começou com Crash, essa novela auto-erótica que David Cronenberg adaptou ao cinema há mais de uma década. Fiquei tão impressionado com o filme, que decidi ir ler o livro, de 1972. A palavra choque não é suficiente para descrever o conteúdo do romance, que articula sexo, tecnologia e parafilias diversas numa mistura explosiva e francamente vanguardista para a época. (Comparado com Crash, “O Último Tango em Paris”, o suposto filme-choque de 1972, é uma fantasia para crianças.) Mas os méritos de Ballard não se esgotam em Crash; na verdade, a capacidade do autor para despertar a imaginação e fazê-la voar é bem mais evidente em obras como O Mundo de Cristal, Olá América ou Running Wild (não editado em português). Os mais recentes e conhecidos em Portugal – Noites de Cocaína e Gente do Milénio – acabam por ser, em minha opinião, obras menores de um autor que também publicou curtos contos de ficção científica com algum impacto literário.

Nesta última categoria encontra-se o último livro de Ballard que li – Aparelho Voador a Baixa Altitude (1976) – centrado no tema da aeronáutica e no qual Ballard explora, uma vez mais, o seu talento inigualável para pintar paisagens futuristas, praticamente desprovidas de seres humanos, mas com a maioria das infra-estruturas e equipamentos que a civilização construiu ao longo do século XX a permanecerem intactos. Os poucos seres humanos deambulam nestes cenários surreais à procura de um sentido para a sua existência, e, invariavelmente, encontram-no em actividades relacionadas com um dos mais antigos sonhos da humanidade: voar.

segunda-feira, setembro 25, 2006

Middlesex


Já alguma vez sentiram saudades de um livro? Acabei de ler Middlesex no sábado e já sinto saudades dos personagens e do enredo. Este é um trabalho notável, não só pelo tema insólito que retrata, mas sobretudo pelo relato da longa sequência de eventos que conduz à revelação de um terrível segredo familiar. Com esta obra, Eugenides venceu merecidamente o prémio Pulitzer de 2003 para melhor obra de ficção.

Apesar da sua dimensão (530 páginas), ou se calhar por causa dela, a obra de Jeffrey Eugenides é de “ler e chorar por mais”. Eugenides escreveu apenas dois livros, ganhando reputação de forma instantânea com o seu As Virgens Suicidas, mais tarde adaptado ao cinema por Sofia Coppola. Middlesex é um livro que também implora ser transformado em filme, mas talvez pelo pai de Sofia, já que relata a saga de uma família de imigrantes gregos na América.

O que torna Middlesex uma peça literária única é o seu tema. A personagem principal, Calliope, nasce e é criada até aos 14 anos como rapariga; apenas com a chegada da puberdade se descobre a incrível verdade: Calliope é hermafrodita; exteriormente (quase) aparenta ser mulher, mas interiormente é homem, possuindo testículos que nunca chegaram a descer e, também por essa razão, não permitiram uma identificação atempada do sexo da criança.

O tom do enredo oscila entre uma comédia e uma tragédia grega, com momentos de soap opera americana. Uma delícia!

quarta-feira, junho 07, 2006

Um Livro à Quarta III

Ontem foi o sexto dia do sexto mês do sexto ano do novo milénio. Não sendo exactamente um crente nas profecias do Livro do Apocalipse, abordei o dia com alguma cautela, isto apesar de estar convencido que, se a Besta nasceu ontem, ainda temos de esperar uns anitos até começar a fazer asneiras. Por outro lado, abrir as páginas dos jornais ou ligar a televisão no horário das notícias é prova suficiente que a Besta não nasceu ontem e sempre por cá andou; o formato é que varia. Para outros, mais mediáticos, a Besta já foi bestial, mas agora é simplesmente uma besta quadrada, como se poderá constatar pelo post anterior.

Seja como for, a velha luta entre o Bem e o Mal sempre me fascinou e mergulhei nela numa das recentes inclusões na mesa-de-cabeceira. O livro é Além (1891) de Joris Karl Huymans e tem preenchido algumas noites de insónia.

Além (2006; Lisboa: Assírio & Alvim) foi escrito numa linguagem directa, por vezes chocante, destinada a seduzir o leitor, envolvendo-o com suavidade, para depois o apunhalar, arrancando-lhe as entranhas e atirando o corpo para a valeta. O autor apresenta um escritor francês, de nome Durtal, na Paris dos finais do século XIX, que, através de uma pesquisa histórica intensiva, se propõe escrever uma obra sobre Gilles de Rais, um pedófilo, contemporâneo de Joana d’Arc, que assassinou centenas de crianças na Bretanha do início do século XV, associando-se a rituais satânicos praticados por membros transviados do clero, que rezam missas negras como vingança pela rejeição ou insucesso na vida religiosa dita “normal”. Apesar de repugnante, todos estes parecem apenas coloridos relatos da Idade Média, até que Durtal descobre que a sua Paris tem mais semelhanças com a Idade Média do que julgava possível…

O livro de Huysmans tem várias preciosidades. Escolhi algumas passagens para o vosso deleite.

“A realidade, é bem certo, não perdoa que a desprezem; vinga-se metendo o sonho ao fundo, espezinhando-o, atirando-o em farrapos para um monte de lama!” (p.199)

“Vê as máquinas, o jogo dos pistões nos cilindros: são Romeus de aço dentro de Julietas de ferro fundido. As expressões humanas em nada diferem do vaivém das nossas máquinas.” (p.205)

“Além disso, os edifícios que emergem deste charco caótico de telhados, a Notre-Dame, a Sainte-Chapelle, Saint-Séverin, Saint-Étienne-du-Mont, a torre Saint-Jacques, ficam afogados na deplorável massa dos monumentos mais novos. De forma nenhuma estou interessado em contemplar ao mesmo tempo a Ópera, esse espécime de arte para caixeiras bem vestidas, o arco de ponte chamado do Triunfo, e o candelabro que é a Torre Eiffel!” (pp.244-5)

Na contracapa:

"Em 1891, Além foi considerado uma grande audácia e multiplicou-se na tiragem até às dezenas de milhares. Como um desses malabaristas que mantêm vários objectos no ar, Huysmans concentrou temas de várias frentes no seu romance, todos a maior ou menor distância de uma mesma luta: a que confronta dois poderes, do Bem e do Mal, a que opõe desde a Idade Média a igreja de Roma e o seu reverso satânico. Há, como ilustração de tudo isto, a história de Gilles de Rais, monstruoso pedófilo dos tempos de Joana d'Arc, a história da promiscuidade das mais altas figuras da Igreja com os praticantes da magia, o relato de uma missa negra em Paris, uma aventura em lençóis um tanto frios mas sem o véu de nenhum disfarce sobre a sua sexualidade malsã. Mas também o escritor J.-K. Huysmans num ponto alto da sua obra. O que fez André Breton manifestar-se, nas primeiras páginas de Nadja, como grande devedor de um seu ensinamento: saber levar «ao extremo essa discriminação necessária, vital, entre o elo de tão frágil aparência que pode ser-nos do máximo socorro, e o aparelho vertiginoso das forças que se conjuram para meter-nos ao fundo»."

segunda-feira, maio 01, 2006

Mês novo, alma nova

Depois de um mês de Abril preenchido com muito, muito trabalho, estou de regresso. Nada de locais exóticos: apenas uma conferência em Coimbra e umas reuniões em Lisboa; mas a preparação de tudo isto foi demorada e impediu-me de dedicar atenção ao blog. Agora que entra Maio, talvez seja possível arranjar tempo para mais actividades de lazer...

Começo por mudar de livro de cabeceira. O curtíssimo conto do escritor russo Nikolai Gógol, Diário de um Louco, que podem ler aqui, vai ocupar o próximo par de noites. Obrigado Assírio & Alvim!

Musicalmente, ando voltado para os clássicos americanos contemporâneos que podem conhecer melhor a partir da lista ali ao lado, mas nada que impeça a audição do génio mais ou menos desconhecido do cantor, compositor e violinista Andrew Bird. Fica a tocar Sovay para amostra...

quarta-feira, fevereiro 01, 2006

Um Livro à Quarta II



O livro de hoje é especial. Perdoem-me a descarada manobra de auto-promoção, mas este foi organizado por mim (sim, eu sou o António F. Tavares...) e estará brevemente disponível numa Fnac perto de si...

Este volume foi editado tendo como principal objectivo celebrar os 25 anos da Licenciatura de Administração Pública da Universidade do Minho, criado por Resolução do Senado Universitário no início dos anos 80. O livro "Estudo e Ensino da Administração Pública em Portugal" procura, como o próprio nome indica, reunir contributos sobre a evolução do ensino e da investigação na área de Administração Pública enquanto disciplina académica. Para isso, conta com a participação dos Professores J.A. Oliveira Rocha, Joaquim Filipe Araújo, Sílvia M. Mendes e Pedro J. Camões, para além de mim próprio, todos da Universidade do Minho, bem como do Professor João Faria Bilhim, Presidente do Conselho Directivo do Instituto de Ciências Sociais e Políticas da Universidade Técnica de Lisboa e do Professor Rui de Figueiredo Marcos, Vice-Coordenador do Curso de Administração Pública da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra.

A nota introdutória é do Professor Lúcio Craveiro da Silva, Reitor da Universidade do Minho na altura em que o curso de Licenciatura em Administração Pública foi criado. O prefácio é do Professor Marcelo Rebelo de Sousa, que gentilmente aceitou contribuir com o seu prestígio para o enriquecimento desta obra. Aproveito para agradecer publicamente a todos a colaboração na edição deste volume.

quarta-feira, janeiro 25, 2006

Um Livro à Quarta I

É quase quinta-feira, mas ainda vou a tempo de sugerir este livro:
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Já escrevi sobre ele, há algum tempo atrás, no meu blog anterior. Aqui fica o pequeno texto de enquadramento da obra...

"A Casa dos Mil Andares de Jan Weiss revelou-se uma agradável surpresa e deitou por terra um equívoco em que laborei durante mais de uma década: 1984 de George Orwell é uma obra-prima, mas não é absolutamente original na concepção de um Big Brother. Ao ler A Casa dos Mil Andares, escrito em 1929, encontrei algumas semelhanças entre os dois romances de ficção distópica, a maior das quais, a existência de um tirano omnisciente que controla a vida de todos os seus concidadãos. Genial, sobretudo tendo em conta o ano em que foi escrito."

domingo, janeiro 15, 2006

Mirbeau: Prazer ou Tortura?

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O Jardim dos Suplícios é um livro maldito. Divide-se em duas partes, com conteúdos substantivos e literários extremamente distintos. Na primeira parte, Octave Mirbeau descreve a política francesa do século XIX, já no tempo da República, abundante em corrupção, favoritismo e incompetência. A segunda parte decorre algures na China, num contexto de selvajaria e barbárie.

O personagem principal, anónimo, relata o lema da educação que lhe deu seu pai: “Tirar qualquer coisa a alguém e guardá-la para si, é roubo… Tirar qualquer coisa a alguém e passá-la a outrem, em troca de tanto dinheiro quanto se puder, é comércio… O roubo é estúpido porque se contenta com um só lucro, muitas vezes perigoso, ao passo que o comércio comporta dois, garantidos…”

O seu protector político, Eugène Mortain, tem uma atitude semelhante no seu ramo de negócio - a política. Um diálogo entre ambos é qualquer coisa de caricato e esclarecedor:
"- Há na circunscrição que te escolhi uma questão que domina todas as outras: a beterraba… O resto não conta e é com o prefeito… Tu és um candidato puramente agrícola… mais ainda, exclusivamente beterrabista… Não o esqueças… Seja o que for que possa acontecer durante a luta, mantém-te inabalável nesta plataforma excelente…Sabes alguma coisa de beterraba?
- Palavra que não – respondi – sei apenas, como toda a gente, que dela se tira açúcar… o álcool.
- Bravo! Isso basta – aplaudiu o ministro com uma tranquilizadora e cordial autoridade… Explora até ao fundo esse conhecimento… Promete rendimentos fabulosos… adubos químicos extraordinários e gratuitos… caminhos-de-ferro, canais, estradas para a circulação desse interessante e patriótico legume… Anuncia desagravamentos de impostos, prémios aos cultivadores, direitos ferozes sobre as matérias concorrentes… tudo o que quiseres!... Nesta ordem de ideias tens carta branca e eu te ajudarei… Mas não te deixes arrastar para polémicas pessoais ou gerais que poderiam tornar-se perigosas para ti e, com a tua eleição, comprometer o prestígio da República… É que, aqui entre nós, meu velho – não te censuro nada, apenas verifico –, tens um passado incómodo."

Depois de perder a eleição, o personagem central é enviado em missão “científica” para o Ceilão, mas apaixona-se durante a viagem por Clara, uma aristocrata inglesa que o convence a ir viver com ela para a China. Daí que a segunda parte do livro decorra num ambiente mais exótico e fascinante. Porém, cedo se percebe que aquilo que inicialmente aparenta ser um paraíso terrestre, é, na verdade, o inferno.

O elemento central desta segunda parte é o Jardim dos Suplícios, parte integrante de uma prisão próxima do local em que ambos vivem. A descrição das torturas, dos instrumentos empregues e das expressões sádicas dos torturadores e carrascos é nauseante e revoltante. Curiosamente, todo este ambiente contrasta com a beleza das flores e árvores que crescem no jardim, e que Mirbeau descreve com uma precisão quase obsessiva. O jardim dos suplícios é um local belo e horrendo, as torturas mais infames são obras de arte, esculpidas com devoção por carcereiros dedicados e dementes. Se a escrita é extremamente cuidada e de fino recorte, o que ela retrata é absurdo, repugnante e abominável.

Por tudo isto, tenho um sentimento de ambivalência relativamente a esta obra. Embora a escrita tenha inegável qualidade, há certos conteúdos que são demasiado chocantes para merecer dispêndio de tempo. Além disso, falta um toque de genialidade à obra (presente, por exemplo, em Os Cantos de Maldoror de Lautreamont), pelo que não compensa enfrentar as dificuldades criadas pelo tema central exposto para obter daí o prazer associado à leitura. No final, o mais certo é um misto de náusea e surpresa. Não compensa o esforço.