sábado, março 31, 2007

2. The Velvet Underground & Nico (1967)


Os anos 60 marcam um dos períodos mais marcantes e experimentais da história da música rock. É nesta altura que aparecem as obras-primas dos Beatles (Sgt. Pepper's e White Album), Rolling Stones (Aftermath e Their Satanic Majesties Request) e Beach Boys (Pet Sounds), que influenciaram milhares de músicos e bandas que surgiram posteriormente. Contudo, quando nos referimos à “produtividade” (influência por número de discos vendidos), é para os Velvet Underground de Lou Reed, John Cale, Sterling Morrison e Maureen Tucker que temos de olhar. Rezam os mitos que o primeiro disco da banda, The Velvet Underground & Nico, vendeu apenas 1000 exemplares, mas cada pessoa que o comprou formou uma banda. De entre os nomes que reclamam a herança dos Velvet contam-se David Bowie, Joy Division, Laurie Anderson, Talking Heads, Bauhaus e, mais recentemente, Yo La Tengo, Antony & The Johnsons e Interpol, entre muitos outros.

A Nova York dos anos 60 era aberta à experimentação. Um grupo alargado de jovens músicos, artistas plásticos, realizadores e diletantes reuniam-se nas instalações da Factory debaixo a direcção de Andy Warhol para testar os limites da produção artística. Deste movimento desordenado e de base experimental nasceram os Velvet Undergound. O seu primeiro disco é revolucionário. Uma sugestão para gozo pleno da experiência auditiva: Ouçam-no do início ao final dos seus 48 minutos e 24 segundos tendo em mente que é contemporâneo de coisas como “All you need is love” ou “San Francisco”. Está tão para lá das velhas fórmulas da música popular que é demasiado rico para se apreender todo o seu conteúdo e valor numa única audição.

Nico, uma vocalista alemã apresentada pomposamente como “chanteuse”, canta o doce I’ll be your mirror, o inebriante All tomorrow’s parties e o conhecidíssimo Femme Fatale. Uma voz profunda, grave, quase intemporal, interpreta os temas mais calmos do disco, mas nem por isso menos imprevisíveis. Lou Reed é o responsável pelos restantes temas cantados. No domínio dos estupefacientes destacam-se I’m waiting for the man, sobre a ansiedade de um drogado à espera do passador, e Heroin, um relato musicalmente hipnótico sobre a utilização da droga. A infame Venus in furs é sobre cabedal e sado-masoquismo e Black angel’s death song sobre ocultismo. A obra termina com o estranhíssimo European Son, uma hino psicadélico com um registo próximo dos 8 minutos.

A banda quebra todas as barreiras temáticas (drogas, homossexualidade, travestismo, sado-masoquismo) e faz com os instrumentos coisas que nunca ninguém se tinha atrevido a fazer. A viola-d’arco de John Cale é tocada de forma distorcida, hipnótica e, por vezes, a aproximar-se da cacofonia. Aparece aqui a primeira utilização sistemática de drones no domínio da música rock. A capa é da autoria de Andy Warhol, que acumula a responsabilidade da produção do disco.

sexta-feira, março 30, 2007

1. Disintegration (1989) - The Cure

Este é o primeiro de vinte posts sobre os discos da minha vida. Iniciei a publicação de alguns destes textos no Angústias de um Professor, mas nunca cheguei a termina-la por falta de tempo e vontade. Renovo agora a intenção de escrever sobre os 20 discos de música pop/rock/alternativa que mais me marcaram e que melhor representam a minha extensa colecção. A ordem de publicação dos posts é arbitrária, mas os posts encontram-se numerados para facilitar a organização. Sempre que possível incluirei música a acompanhar o post.
Desde a longa entrada instrumental de Plain Song que se percebia que Disintegration (1989) dos The Cure não ia ser um disco igual aos outros. Inebriante, hipnótica e orquestral, a música em Disintegration é única e o culminar apoteótico de uma década cheia de equívocos e contrastes na música pop-rock - a década de oitenta.
Um belo dia, tinha eu 18 anos, ouvi este disco pela primeira vez. Robert Smith canta o Amor na sua vertente mais triste: a saudade, o arrependimento, a depressão, o amor não correspondido, o ciúme e o sentimento de posse. Muito pouco é optimismo em Disintegration e, no entanto... tem tanto para oferecer. Nunca mais fui o mesmo. A minha inocência sofreu um rude golpe, perante o realismo da separação, do sofrimento, do abandono e da solidão revelados pela poesia de Robert Smith.
Musicalmente, a utilização dos teclados é subtil, de modo a criar uma atmosfera melancólica, um textura densa, quase irrespirável. A música vale como um todo, sem espaço para demonstrações de virtuosismo individual dos elementos da banda, o que constitui um ponto forte deste álbum, e faz com que as letras extremamente pessoais e, paradoxalmente, universais, sejam realçadas na voz melancólica, agastada, revoltada, de Robert Smith.
São mais de 70 minutos de música, incluindo dois verdadeiros épicos (The Same Deep Water As You Are e Disintegration, tema-título). Embora o álbum tenha ficado conhecido pelos seus temas mais comerciais (Pictures of You, Lullaby e Love Song), as verdadeiras pérolas são Plain Song, Closedown, Prayers For Rain e o já referido Disintegration.
Não há muitos discos que ainda coloco no leitor de cds com o mesmo prazer que colocava nas primeiras audições. Disintegration é um deles. Há momentos importantes da minha vida vividos ao som destas músicas e que são delas inseparáveis. Tal só foi possível devido a uma coincidência espantosa de música, letra e vida. Disintegration é vida! A separação cantada de uma maneira dolorosa, como quase todas as separações o são.
Closedown
"I'm running out of time
I'm out of step and
Closing down and
Never sleep for wanting hours
The empty hours of greed
And uselessly
Always the need
To feel again the real belief
Of something more than mockery
If only I could
Fill my heart with love"
Publiquei este texto originalmente aqui.

quinta-feira, março 29, 2007

Paternidade: a doce ironia do destino

O nome deste blog é Um Piano na Floresta. Não deixa de ser irónico que, a partir de hoje, a única actividade que falta para a minha realização como homem seja plantar uma árvore.

sábado, março 24, 2007

Repulsa (1965) by Roman Polanski

Este foi o filme do fim-de-semana. Um clássico de terror.

Londres. Anos 60. Polanski filma Deneuve. Os pesadelos da puritana Carol (Deneuve) conduzem-na à loucura, numa espiral de comportamentos e reacções cada vez mais bizarras e destituídas de sentido. Em última análise, a realidade imita o pesadelo e Carol acaba por sofrer o abuso dos homens que procura evitar fechando-se no seu apartamento e em si mesma.

O filme começa com aquelas pequenas manias. A escova de dentes de alguém no nosso copo enoja-nos, o toque de um estranho afecta-nos, um olhar mais penetrante incomoda-nos. Mas até as atitudes mais simples do dia-a-dia representam uma dose de loucura latente. Repulsa é sinistro desde o início, mas converte-se numa obra de puro medo à medida que Polanski distorce situações do quotidiano tornando-as aterradoras.

O filme é subliminar em muitos aspectos. A componente freudiana é dominante. Uma racha num passeio aparenta um púbis, a navalha aberta sugere um falo em erecção e até o mais estreito corredor sugere uma vagina. A forma como Polanski dirige é brilhante e invulgar. A câmara filma por trás dos actores, como se estes estivessem constantemente a serem perseguidos, sob ameaça e alvo de voyeurismo, um tema dominante na obra do realizador.

terça-feira, março 13, 2007

Little Annie em Serralves: impressões


Na sua última incarnação, Little Annie apresentou-se ao vivo no Auditório do Museu de Serralves no Porto acompanhada por Paul Wallfisch ao piano. Se a presença em palco e a interacção com o público são pouco convencionais, já os sentimentos presentes nas canções do seu último disco – Songs from the Coal Mine Canary – são extremamente familiares. Nas letras das canções, Little Annie descreve relações turbulentas, pessoas inconstantes e ambientes voláteis, minados pelo álcool e outras dependências físicas e psicológicas. Se os textos são intensamente autobiográficos, e temos todas as razões para pensar que o são, então o espectáculo de palco é uma espécie de catarse que liberta e alivia. A cantora atira-se ao chão, rebola-se, levanta-se e corre, tira os sapatos, elogia a suavidade do chão de madeira, volta a calçar os sapatos e queixa-se dos tacões; é uma montanha russa de emoções. O público vibra e aplaude entusiasticamente entre os temas, mas respeita cada interpretação com um silêncio quase religioso. Trata-se de uma lutadora que utiliza o humor mordaz e o sarcasmo para lidar com os reveses da existência. “This song was written a few husbands ago”, diz ela no início de um tema antigo.


Nos seus longos monólogos em palco, Little Annie explica o contexto em que nasceu o tema seguinte e o estado de alma que presidiu à sua criação. Esses monólogos, que com um público mais atrevido seriam diálogos, constituem um aspecto pouco convencional do espectáculo, e aproximam a intérprete da assistência numa comunhão intensa de sentimentos.

Os momentos altos do concerto foram os temas Good Ship Nasty Queen, Absynthtee-ism e Sit On Down. Destacaram-se ainda Strangelove (que é conhecida entre nós por ser “aquela música do novo anúncio da Levis”) e as excelentes versões de “Private Dancer” (Tina Turner), “I Still Haven’t Found What I’m Looking For” (U2) e “If You Go Away” (Jacques Brel/Scott Walker). Noventa minutos após o início, o concerto termina, mas Little Annie já deixa saudades...

sexta-feira, março 02, 2007

Annie Anxiety em Serralves

Hoje à noite, a Diva apresenta ao vivo em Serralves o seu mais recente Songs from a Coal Mine Canary. Um concerto que se espera seja memorável.

quarta-feira, fevereiro 07, 2007

A Sul de Nenhum Norte

Uma palavra: Bukowski. A primeira vez que se lê é surpreendente, quase chocante. O estilo é fácil, directo e rude. Vou mais longe: é como ler Henri Miller sem aquele sexo todo ou uma versão literária de Feios, Porcos e Maus de Ettore Scola. Dir-se-ia que Charles Bukowski passou demasiado tempo da sua vida a limpar latrinas e a sua obra é parte dos escritos das portas de casa de banho. Mas tal seria injusto, dada a capacidade para descrever, de forma visceral, a vida decadente, a dependência alcoólica e a ausência de valores que atravessam toda a sua obra.

O meu primeiro contacto com Charles Bukowski foi com Correios (Post Office, 1971), no original). Nenhuma obra literária fez mais para arruinar a reputação dos carteiros na América como este pedaço de literatura da sarjeta. Bukowski sublinha todos os preconceitos que temos a respeito dos carteiros: o ódio mortal entre esta classe profissional e a raça canina, a tendência para saltarem para a cama de donas de casa carentes, o desrespeito pela autoridade dos superiores e o tratamento desprezível prestado aos utentes. Tudo isto aparece descrito de forma extremamente colorida nesta novela de ler e chorar por mais. Confesso que, inicialmente, ainda senti alguma piedade pela pobreza moral do carteiro Henri Chinaski, mas todos os pruridos e simpatia desaparecem ao fim de meia centena de páginas de acontecimentos delirantes e quase inenarráveis.

A segunda experiência foi com A Sul de Nenhum Norte (South of No North (1973), no original), mas foi mais recentemente, com Ham On Rye (desconheço se existe tradução portuguesa) que percebi que grande parte da obra de Bukowski gira em torno desse personagem com muito marginal e autobiográfico (Henri Chinaski). Contudo, nesta obra de 1982, o leitor sente alguma simpatia por Chinaski, quase sempre descrito como um pária, um adolescente desprezado socialmente que deseja viver como um eremita (cf. O episódio do gigantesco ataque de acne que dura quase um ano e o isola por completo dos colegas de liceu). Existem vários personagens desprezíveis nesta obra, mas por Chinaski sentimos alguma simpatia, pelo menos enquanto adolescente. Diria que Chinaski é uma espécie de Adrian Mole para adultos, com borbulhas e tudo. Todavia, a adolescência amarga desemboca num adulto alcoólico, beligerante e completamente à deriva.

quinta-feira, fevereiro 01, 2007

Death Valley National Park

Já aqui relatei vários momentos da viagem do Verão passado. Deixo-vos agora um ponto alto da viagem: a incursão na California atravessando o Death Valley National Park.
Na minha mente o local era cheio de mistério. Desde que vi pela primeira vez o filme Zabriskie Point de Michelangelo Antonioni que o Vale da Morte faz parte do meu imaginário. Um jovem revolucionário empenha-se até ao limite na contestação à guerra do Vietname, ignorando estrategicamente a incoerência de cometer um assassinato para levar a cabo os seus objectivos pacifistas. O filme tem uma fotografia muito bem conseguida e a música dos Pink Floyd, na sua era mais psicadélica, ajudou a torná-lo inesquecível.
Com alguma persuasão, lá consegui convencer a Ana a alinhar num desvio à nossa rota para uma experiência absolutamente original. Dizer que o Vale da Morte é um local inóspito é pouco, dada a temperatura sufocante (acima dos 45ºC) e a quase total ausência de humidade.
Badwater Basin (226 pés, ou 85,5 metros, abaixo do nível do mar) arrasa com o optimismo de qualquer turista mais entusiasta e constituiu um dos pontos altos, passe a ironia, desta viagem. Sol escaldante, luz natural ofuscante, inexistência de sombra, quase total ausência de água e uma proporção gigantesca de sal tornam o ponto mais baixo do Continente Americano um dos lugares mais desoladores à face da Terra. A abundância de sal gera igualmente inúmeras miragens, convencendo o nosso cérebro da presença de água onde nenhuma existe. O oásis da fotografia seguinte é que não é uma miragem. Trata-se de um hotel de cinco estrelas em Furnace Creek, a sede do Parque Nacional do Vale da Morte e provavelmente o único local do parque em que podemos encontrar algum conforto e alívio da fornalha no exterior.


No Vale da Morte encontramos ainda este local sui generis: o campo de Golfe do Diabo. O sal cristalizado depositado e talhado pelo vento e pela chuva fornece à paisagem este aspecto rugoso em constante alteração. Como nos alterta o aviso: Cuidado! Caminhar no Campo de Golfe do Diabo é muito difícil. Uma queda pode resultar em cortes dolorosos e até em ossos partidos.






sexta-feira, janeiro 12, 2007

Aparelho Voador a Baixa Altitude

Sou orgulhoso proprietário de uma dúzia de livros de James G. Ballard. Estranhamente, tudo começou com Crash, essa novela auto-erótica que David Cronenberg adaptou ao cinema há mais de uma década. Fiquei tão impressionado com o filme, que decidi ir ler o livro, de 1972. A palavra choque não é suficiente para descrever o conteúdo do romance, que articula sexo, tecnologia e parafilias diversas numa mistura explosiva e francamente vanguardista para a época. (Comparado com Crash, “O Último Tango em Paris”, o suposto filme-choque de 1972, é uma fantasia para crianças.) Mas os méritos de Ballard não se esgotam em Crash; na verdade, a capacidade do autor para despertar a imaginação e fazê-la voar é bem mais evidente em obras como O Mundo de Cristal, Olá América ou Running Wild (não editado em português). Os mais recentes e conhecidos em Portugal – Noites de Cocaína e Gente do Milénio – acabam por ser, em minha opinião, obras menores de um autor que também publicou curtos contos de ficção científica com algum impacto literário.

Nesta última categoria encontra-se o último livro de Ballard que li – Aparelho Voador a Baixa Altitude (1976) – centrado no tema da aeronáutica e no qual Ballard explora, uma vez mais, o seu talento inigualável para pintar paisagens futuristas, praticamente desprovidas de seres humanos, mas com a maioria das infra-estruturas e equipamentos que a civilização construiu ao longo do século XX a permanecerem intactos. Os poucos seres humanos deambulam nestes cenários surreais à procura de um sentido para a sua existência, e, invariavelmente, encontram-no em actividades relacionadas com um dos mais antigos sonhos da humanidade: voar.

terça-feira, janeiro 09, 2007

Um povo, duas mentalidades

Saído de Alcântara, um grupo de indivíduos ciente das suas capacidades, e com um espírito assente no esforço, organização e disciplina foi dar uma lição de vontade e ambição ao Estádio do Dragão. Não houve grande alarido antes do jogo. Ninguém falou do Atlético Clube de Portugal (actualmente 4º classificado da Série D da 2ªDivisão B), um clube com alguma tradição de Primeira Divisão e que havia eliminado o Futebol Clube do Porto na longínqua época de 1945/46, no tempo da “bola quadrada”. No final do jogo de ontem, a história repetiu-se, e as declarações serenas de jogadores, treinador e presidente do clube foram simplesmente admiráveis: conscientes do dever cumprido, mas sem assumirem qualquer estatuto heróico bacoco.

Da Bairrada, mais concretamente de Oliveira do Bairro (actual 4º classificado da Série C da 2ªDivisão B), saiu um grupo de anjinhos, confessos adeptos do Benfica, que levaram a máquina fotográfica digital ao Estádio da Luz e, segundo um dos seus membros confessou frente às câmaras de televisão, “encheu o cartão e conseguiu uma camisola do Petit”. Estes parolos representam o pior do povo português: provincianismo, falta de ambição e disciplina, deslumbramento, espírito “deixa andar” e uma total subserviência perante os adversários.

Conclusão:
1. O Atlético Clube de Portugal escreveu mais uma brilhante página na sua história e, daqui por mais 60 anos, quando o destino (e o sorteio da Taça de Portugal) ditar novo confronto com o Futebol Clube do Porto, o feito da equipa de 2007 há-de ser recordado e os seus atletas alvo de homenagem.
2. Os pategos de Oliveira do Bairro têm uma camisola do Petit lá em casa para mostrar aos amigos, mas a história do futebol não guardará nem uma nota de rodapé para a copiosa derrota por 5 a 0 frente ao Sport Lisboa e Benfica.

sexta-feira, dezembro 22, 2006

Os Melhores de 2006

Aqui fica a minha lista dos melhores do ano de 2006. Junto aos melhores temas de cada álbum, deixo links para o You Tube para quem desejar conhecer o género musical. Este post deu um trabalhão a fazer, por isso... aproveitem! Feliz Ano de 2007!

1. Black Ships Ate the Sky – Current 93


Nem sempre quantidade é sinónimo de qualidade, mas aqui estão os melhores 75 minutos do ano de 2006. David Tibet: poeta, compositor, pregador, génio visionário por trás dessa jangada de criatividade chamada Current 93 convidou um grupo numeroso de amigos para trabalhar consigo nesta obra, que resulta de um sonho intenso preconizando o apocalipse e a segunda vinda de Cristo à terra. Dito assim parece pretensioso, mas vejam os nomes que gravitam em torno de Tibet: Marc Almond, Antony, Bonnie ‘Prince’ Billy, Ben Chasny, Shirley Collins, Baby Dee, Michael Cashmore, Pantaleimon, Clodagh Simonds, entre muitos outros. Há vários momentos brilhantes ao longo deste disco, dominado pela guitarra acústica e pela poesia de Tibet, e que pode ser inserido na categoria fluida do folk alternativo. Destacam-se as oito (!) versões da mesma canção – Idumaea – cantadas por oito dos nomes mencionados, mas que são totalmente distintas entre si, convencendo-nos de que se tratam de temas efectivamente diferentes. As palavras que aqui escrevo não fazem justiça à dimensão da obra, quer às nuances musicais, quer à riqueza poética. Depois de uma carreira com mais de 30 discos originais, repleta de obras-primas, como Thunder Perfect Mind, All the Pretty Little Horses ou Sleep Has His House, os Current 93 lançam mais um disco genial, que desafia qualificação, e complica ainda mais a tarefa de determinar qual o melhor momento da carreira da banda.

Melhores frases: “Soon as from earth I go / What will become of me? / Eternal happiness or woe / Must then my fortune be / Waked by the trumpet’s sound / I from my grave shall rise / And see the Judge with glory crowned / And see the flaming skies

Melhores temas: Sunset (The Death of Thumbelina), Idumaea (versão acapella de Antony), Idumaea (versão Baby Dee) (http://www.youtube.com/watch?v=0XOz9CtFy0s) e Black Ships Were Sinking Into Idumaea.

Editora: Durtro Jnana 2112CD

2. Songs from the Coal Mine Canary – Little Annie

Conheci Little Annie Anxiety pelas suas colaborações com David Tibet e os seus Current 93, mas desde cedo percebi que a sua voz estava talhada para momentos memoráveis. Songs from the Coal Mine Canary é uma viagem autobiográfica pela decadência física, psíquica e moral das quais só o Amor pode libertar. A voz abagaçada de Little Annie é acompanhada pelo som do piano e de cordas com melodias suaves, passando pelos blues, pelo jazz e pelo cabaret. A colaboração de Antony ao nível da composição é extraordinária e transforma este disco numa magnífica surpresa de 2006.

Melhores frases: “You can’t sing the blues while drinking milk”; “I have cruised my way down sex street / With the gorgeous and the vain / And I freshened up my makeup / On the boulevard of pain”

Melhores temas: The Good Ship Nasty Queen, Absynthtee-ism e Sit On Down. Annie canta igualmente The Rapture (http://www.youtube.com/watch?v=lio239PqdRk), de Antony & The Johnsons.

Editora: Durtro Jnana 1967CD

3. In the Maybe World – Lisa Germano

Ao fim de meia dúzia de cds a solo, Lisa Germano tem aqui um momento alto na sua carreira. A mudança de editora parece ter resultado em pleno. Na independente 4AD Lisa era uma estrela menor, ao passo que na pequena Young God Records de Michael Gira (ex-Swans) é o maior nome da casa. O piano domina a sonoridade de todo o disco, ainda que, por vezes, as melodias afectuosas sejam acompanhadas pela guitarra de Johnny Marr (ex-Smiths) e pelo baixo de Sebastian Steinberg. Uma das facetas que mais aprecio em Lisa Germano é a sua capacidade para cantar músicas sobre temas perturbadores com a maior candura do mundo. O contraste entre a dureza das letras e a beleza da voz e da música encontra aqui a sua máxima expressão.

Melhores frases: “Narcissistic little fairy / Why do I feel dead / Who was that stupid ogre / Messing with my head”

Melhores temas: Too Much Space (http://www.youtube.com/watch?v=9PSR72--GI8), Into Oblivion e In the Land of Fairies.

Editora: Young God Records CD YG 32

4. Live at Town Hall – Eels (Live with Strings)

Este é o melhor cd ao vivo do ano de 2006. Depois de seis álbuns de originais, Mark Oliver Everett, génio criativo e líder da banda The Eels recria um conjunto de 22 temas com a ajuda de uma secção de cordas e uma capacidade de improviso assinalável. O que mais me toca na música da banda é a voz carregada de sentimento de Everett, que nos transmite todas as emoções associadas aos temas, maioritariamente autobiográficos, que compõem a carreira dos Eels. A versão de Flyswatter, um tema originalmente gravado para o trabalho Daisies of the Galaxy, é surpreendente, com influências da música concreta contemporânea. A forma como este tema desagua no hit Novocaine for the Soul é também notável, tornando este álbum um verdadeiro must!

Melhores frases: It’s a motherfucker / Being here without you; Have you ever made love to a beautiful girl / made you feel like it’s not such a bad world / hey man now you’re really living

Melhores temas: Flyswatter, Bus Stop Boxer (http://www.youtube.com/watch?v=xVTI1IozwtA) e I'm Going To Stop Pretending That I Didn't Break Your Heart.

Editora: Vagrant Records

5. Let’s Get Out of This Country – Camera Obscura

Em 1984, Lloyd Cole escreveu uma canção com o presunçoso título Are You Ready to Be Heartbroken?. Em 2006, Tracyanne Campbell responde com “Lloyd, I’m ready to be heartbroken / I can’t see further than my own nose at the moment”. Esta singela pérola de humor entre escoceses inicia o melhor cd de música pop de 2006. A frescura da música, a beleza arrebatadora da secção de cordas e a voz inocente de Tracyanne Campbell conjugam-se para produzir a obra mais “comercial” desta listagem. A popularidade dos Camera Obscura começa a atingir proporções interessantes, ameaçando destronar o estatuto de culto dos Belle and Sebastian.

Melhores frases: “Let’s get out of this country / I’ll admit I am bored with me / I drowned my sorrows and slept around / When not in body at least in mind”

Melhores temas: Lloyd, I´m Ready to Be Heartbroken (http://www.youtube.com/watch?v=XTa_RQC8ZxA), Come Back Margaret e Let’s Get Out of This Country (http://www.youtube.com/watch?v=3t4xldu9fXQ).

Editora: Elefant ER-1123 CD

6. The Drift – Scott Walker

Numa outra incarnação, Scott Walker foi estrela pop nos anos 60, liderando os Walker Brothers e enfrentando uma legião de fãs histéricas à la Beatles. Nos anos 70 prosseguiu uma carreira a solo preenchida por versões de temas de Jacques Brel cantadas em inglês e por excelente música da sua autoria enquanto cantor-compositor. Em meados dos anos 70, a qualidade da sua música degradou-se e Scott Walker desapareceu enquanto músico criativo. Depois disso, apenas dois álbuns se destacam: Tilt (1995) e The Drift (2006). The Drift é um disco estranhíssimo, assente na voz sinistra, quase apocalíptica, de Walker, na instrumentação errática e nos efeitos sonoros caricatos (homens a descer escadas, burros a zurrar, crianças a gritar, entre outros). É uma obra difícil de ouvir de princípio a fim, mas aqueles que o conseguem são recompensados pela sensação de ouvirem algo verdadeiramente original e criativo.

Melhores frases: “Has absence ever sounded so eloquent so sad I doubt it?” “Polish the fork and stick the fork in him”; “I’ll punch a donkey in the streets of Galway!” “A chilling exploration of erotic consumption”

Melhores temas: Jesse (http://www.youtube.com/watch?v=GYyOkQUyJZM), Cue e Buzzers.

Editora: 4AD, cad 2603 cd

7. He Poos Clouds – Final Fantasy

Este é o disco mais elitista do ano. A última vez que ouvi uma fusão quase perfeita entre a música de câmara e o rock foi no “velhinho” cd dos Rasputina “How We Quit the Forest” (1998), no qual um trio de violoncelistas demolia todos os preconceitos sobre a utilização deste instrumento na música rock. Essa sensação de choque e surpresa voltou com o primeiro disco dos Final Fantasy. Owen Pallett, membro dos conhecidíssimos Arcade Fire e líder dos Final Fantasy é um génio: cria as letras, compõe as músicas e faz os arranjos para o quarteto de cordas que o acompanha na maioria dos temas. No meio de inúmeras pérolas poéticas, destaca-se esta: “A taut wire, her father’s evil empire / Jenna dreams of being physically able / To behead herself at the dinning room table”. Owen Pallett é a juventude inquieta pela força da caneta.

Melhores frases: “Now his massive genitals refuse to co-operate / And no amount of therapy can hope to save his marriage”

Melhores temas: This Lamb Sells Condos (http://www.youtube.com/watch?v=U1kL568eg1w), I’m Afraid of Japan e The Pooka Sings

Editora: Tomlab 69 cd

8. Nisht Azoy – Black Ox Orkestar



Oriundos de Montreal, Canadá, os Black Ox Orkestar são um colectivo de músicos fortemente influenciado pelas tradições das canções folk judaicas. Todo o trabalho é dominado pelos instrumentais, entrecortados por algumas porções cantadas em hebraico, com as respectivas traduções em inglês e francês disponíveis num folheto que acompanha o cd. Em alguns temas, os ritmos endiabrados do trompete e da percussão transportam-nos para os cenários delirantes dos filmes de Kusturica. O mercado discográfico dominado pelas multinacionais dificulta a divulgação generalizada de música que mistura a tradição com a vanguarda, como é o caso dos Black Ox Orkestar. Os exemplares à venda em Portugal são escassos, pelo que o download ilegal será a solução da maioria dos leitores que se quiseram aventurar nestas sonoridades exóticas da Europa de Leste/Médio Oriente.

Melhores temas: Ratsekr Grec, Tsvey Taybelakh e Dobriden.

Editora: Constellation Records CST038

9. Evangelista – Carla Bozulich


Ok. Carla Bozulich não é exactamente uma Diamanda Galas, mas aproxima-se de uma P.J. Harvey muito zangada. Evangelista é uma estreia absolutamente surpreendente. Nunca tinha ouvido falar desta mulher até ter ouvido Evangelista I, o primeiro tema do disco. Posso garantir que fiquei arrepiado de medo. Sim, puro e não adulterado medo! A entrada deste cd é um tema com mais de 9 minutos em que Bozulich grita furiosamente as letras do tema por meio de samples, loops e uma secção de cordas composta por violino, viola, violoncelo e contrabaixo tocados de forma muito pouco ortodoxa. A acrescentar a toda esta cacofonia alucinante há ainda um discurso do Elder Otis Jones, pregando no distante ano de 1936. As coisas acalmam bastante depois deste início fulgurante, mas por esta altura já Carla Bozulich tinha ganho entrada directa para a tabela dos 10 melhores do ano. Steal Away é uma ode pungente e How to Survive Being Hit by Lightning um clássico instantâneo. Curiosamente, o cd termina com uma versão muito mais soft do primeiro tema.

Melhores temas: Evangelista I, Steal Away, How to Survive Being Hit By Lightning e Pissing (http://www.youtube.com/watch?v=TCuVmV5RWEU.

Editora: Constellation Records CST041

10. Fear is On Our Side – I Love You But I’ve Chosen Darkness

Pegue-se em duas ou três boas colheitas de pop-rock britânico dos anos 80 – The Chameleons, The Sound e Echo & The Bunnymen – junte-se uns pózinhos de Interpol e uma capa de cd enigmática, e temos os I Love You But I’ve Chosen Darkness. Os sons desta banda de nome enigmático fazem lembrar as velhas cidades inglesas debilitadas pela industrialização, mas a sua proveniência é a cidade de Austin, conhecida pela cultura musical alternativa alimentada pela Universidade do Texas.

Melhores temas: The Ghost, According to Plan (http://www.youtube.com/watch?v=tw1T9sQ5gBU) e Today
Editora: Secretly Canadian SC123


quinta-feira, dezembro 21, 2006

Os Piores e os Assim-Assim de 2006

Antes da lista final dos 10 melhores cds de 2006, deixo-vos com "os outros"; aqueles cds que comprei, mas que estão longe de satisfazer ouvidos mais exigentes. Esta lista inclui:

1. As desilusões: aqueles artistas que fizeram obras de grande qualidade no passado, mas que enveredaram pelo caminho do facilitismo e/ou sucesso fácil, produzindo trabalhos abaixo ou, nalguns casos, francamente abaixo do nível anterior.
Os Mojave 3 já fizeram música pop-rock quase perfeita, mas Puzzles Like You é um disco acomodado e desinspirado. É a primeira obra medíocre de Rachel Goswell, Neil Halstead e Ian McCutcheon, e não posso deixar de sentir saudades dos primeiros dois trabalhos dos Mojave 3 ou dos fabulosos Slowdive.
Os Lambchop são um caso mais preocupante. A banda tem um passado de excelência, mas uma certa obsolescência começou a instalar-se desde o anterior AwCmon/NoyouCmon. O título do último - Damaged - é uma estranha premonição do fim da carreira da banda de Kurt Wagner.
Quanto a Peter Murphy, depois de ter dividido crítica e fans com o anterior Dust (que pessoalmente considero fabuloso), apresenta agora uma obra menor e que, felizmente, quase passou despercebida. Depois de uma obra demasiado centrada num rock desinspirado, já não sei o que posso esperar da próxima...

a. Puzzles Like You - Mojave 3
















b. Damaged - Lambchop












c. Unshattered - Peter Murphy













2. Os assim-assim: cds que têm qualidade, mas não a suficiente para aceder ao top 10. Depois de assinar em 2005 um cd a rondar a perfeição, era difícil pedir algo melhor feito com extras e versões desse tempo passado em estúdio. The Avalanche é, apesar disso, um bom trabalho e que demonstra que, mesmo nos restos, Sufjan é brilhante.
Os Legendary Pink Dots têm mais de 20 anos de carreira e, quando assim é, a novidade começa a ser escassa. No entanto, os LPD são representantes de um estilo musical invulgar, que mistura sons electrónicos alternativos com letras que descrevem cenários fantásticos e "do outro mundo". É um disco difícil, mas os LPD nunca foram uma banda fácil...
Enquanto cantor-compositor, Josh Rouse segue a linha do melhor da velha guarda (de Joni Mitchell a Leonard Cohen) e Subtítulo demonstra que Rouse continua em forma. As suaves melodias, a instrumentação delicada e as letras que cantam o amor e as suas angústias permanecem no ouvido e garantem a audição continuada sem enfado.
Isobel Campbell (dos Belle and Sebastian) e Mark Lanegan (dos Screaming Trees) formaram uma invulgar parceria musical, a fazer lembrar os duetos dos anos 60 de Lee Hazlewood com Nancy Sinatra. Qualquer coisa entre o cowboy saloon e o bordel, entre a voz delicodoce de Isobel e a voz rouca e carregada de whiskey de Mark. Se houvesse um décimo primeiro classificado...
Em Montréal vive a mais inspirada geração de músicos do chamado pós-rock. Eric Chenaux faz parte desse colectivo alternativo e apresenta aqui um cd de estreia a prometer muito. Temas desconcertantes, adornados com violino e banjo (!), para além dos tradicionais, numa banda que estende as sonoridades da editora Constellation Records para novas paragens.
Por último, Jessica Bailiff editou Feels Like Home, que mantém a linha já demonstrada nos dois trabalhos anteriores. Muito centrado na voz e guitarra eléctrica, este disco tem o mérito de ser curto, directo e simples, evitando arranjos excessivos que prejudicariam a mensagem da autora. Uma carreira para continuar a acompanhar na editora Kranky Records de Chicago.

a. The Avalanche - Sufjan Stevens












b. Your Children Placate You From Premature Graves - Legendary Pink Dots













c. Subtítulo - Josh Rouse














d. Ballad of the Broken Seas - Isobel Campbell & Mark Lanegan












e. Dull Lights - Eric Chenaux















f. Feels Like Home - Jessica Bailiff




quinta-feira, dezembro 14, 2006

Qual o melhor cd de 2006?

2006 foi um ano de colheita musical excelente. A 15 dias do final do ano está aberta a caça ao melhor cd de 2006. Sugestões aguardam-se. A lista do Piano estará disponível até ao dia de Natal.

quarta-feira, dezembro 13, 2006

35 Anos às 12h40m

Completo hoje 35 anos de existência. Como é tradição cá no blog, deixo-vos com uma fotografia minha durante 24 horas. Espero que gostem desta "rica prenda"...

terça-feira, dezembro 12, 2006

Las Vegas

(Excalibur by night)

Não sendo um dos hotéis da moda, como o Bellagio, o Excalibur apresenta preços convidativos para a qualidade de serviço prestado. Quem vem a Las Vegas sem uma mentalização prévia apanha o choque da sua vida. A cidade é inebriante, louca, luminosa e alucinante. Os hotéis variam entre o imponente e o kitsch, o grandioso e o decadente, mas há uma magia no ar que torna a cidade, e as suas quase 200.000 camas para turistas, uma atracção irresistível para os viajantes mais cosmopolitas.
(Show de luz e som do Hotel Bellagio)

Longe vão os tempos em que o Flamingo, o Tropicana, o Riviera e o Frontier dominavam a paisagem de Las Vegas. Estes velhos hotéis, bonitos à sua maneira, aparecem agora diluídos na paisagem urbana, absorvidos pela megalomania do MGM Grand (um hotel com 5000 quartos!!!), Bellagio, New York, New York, Mandalay Bay ou Luxor.
(Las Vegas Boulevard)

Os vapores da cafeína do Starbucks em pleno Las Vegas Boulevard afectam-me, o Monte Carlo em frente causa-me inveja e a ostentação do Bellagio, com a boutique Armani no seu interior, recorda-me que não sou o José Mourinho e um sobretudo Armani, com 40 graus de temperatura lá fora, não vem nada a calhar.
(Um piano no Starbucks)

quarta-feira, novembro 29, 2006

Lisa Germano ao Vivo - Theatro Circo, Braga


Lisa Germano apresenta hoje à noite, pelas 23h59m (!!!), o seu mais recente trabalho - In the Maybe World - no Pequeno Auditório do Theatro Circo em Braga. Um espectáculo de culto a não perder para amantes de sons alternativos.
Capa de In the Maybe World

sexta-feira, novembro 17, 2006

Colorado City: A Poligamia entre os Mórmon

Mais uma crónica da viagem realizada em Agosto... desta vez sobre o suculento tema da Poligamia!

A longa faixa de terreno entre a fronteira do Utah e o Grand Canyon do Arizona é praticamente desprovida de população. Nesse pedaço de território esquecido situa-se a infame localidade de Colorado City, um dos últimos redutos de poligamia entre os Mórmon. Apesar de proibida oficialmente em 1890, a poligamia continua a ser praticada por grupos marginais (alguns diriam fundamentalistas) ligados à religião criada por Joseph Smith.

Colorado City é um lugar estranho, com ruas muito largas, demasiado largas para um localidade com apenas 6000 habitantes, e uma proporção anormal, para o contexto americano, de moradias com dois pisos. Manda a tradição que no rés-do-chão morem as mulheres com filhos e no piso superior, aquelas que ainda não os têm.

A localização estratégica de Colorado City, na fronteira entre o Utah e o Arizona, permitia que, sempre que as autoridades do Utah perseguiam os polígamos de forma mais acérrima, estes atravessassem a fronteira à procura de refúgio no estado vizinho, aproveitando o relativo mau relacionamento entre as autoridades respectivas. Quando estas começaram a colaborar, os homens de Colorado City foram obrigados a “dar corda aos sapatos” e abandonar os seus lares. Por essa razão, a proporção de mulheres e crianças é significativamente maior do que seria de esperar.

Contudo, o assunto da poligamia está longe de ser pacífico, já que as famílias argumentam que as práticas poligâmicas são voluntárias e que ninguém é obrigado a ser polígamo. Além disso, a prisão dos homens polígamos resulta no abandono de mulheres e filhos, o que é mais prejudicial para estes últimos do que seria a vivência numa sociedade poligâmica. Todavia, os actos dos próprios chefes de família acabam por dar razão aos que se opõem à poligamia. Num caso relatado num canal de televisão americano, um homem tomou para sua quarta esposa uma rapariga de apenas 13 anos, o que levanta de imediato preocupações com práticas de pedofilia. Como as comunidades poligâmicas tendem a ser extremamente fechadas, os pedidos de maior empenho nas investigações do Ministério Público no sentido de perseguir os polígamos não param. A polémica segue dentro de momentos…

A Slight Case of Paranoia

A entrevista de Santana Lopes com Judite de Sousa dava um excelente estudo de caso para a especialidade de Psiquiatria...