quinta-feira, julho 19, 2007
Adivinha
Em que filme polémico, baseado na obra Die Traumnovelle do escritor austríaco Arthur Schnitzler, é que se pode ouvir o tema a tocar ali ao lado intitulado Valsa 2 da Jazz Suite Nº2 composta por Dmitri Shotakovich?
quarta-feira, julho 18, 2007
sábado, julho 14, 2007
quarta-feira, julho 11, 2007
Momentos
Esgotei os adjectivos para descrever os Arcade Fire. A orquestra louca de Montréal demonstra que nem numa daquelas aparições estereotipadas para televisão estamos seguros... Que o digam as cordas e a guitarra de Win Butler!
sábado, julho 07, 2007
20. OK Computer (1997) - Radiohead

A listagem dos 20 melhores discos da minha vida chega hoje ao fim. Ao longo de 20 entradas, apresentei, critiquei e, na maioria das vezes, elogiei obras discográficas de grande valor pessoal e sentimental. Muitas vezes, estes trabalhos marcaram a minha existência em virtude de um "alinhamento perfeito das estrelas". Alguns eram muito conhecidos e idolatrados, outros obras que pouco venderam e passaram despercebidas à generalidade do público consumidor de música.
Nada como um dos melhores discos dos anos 90 para fechar com chave de ouro. Para verem a dimensão da qualidade da obra, os críticos habitualmente forretas da Pitchfork perderam a cabeça e atribuiram a nota perfeita (10.0) ao álbum.
Confesso que o meu amor pelos Radiohead era muito limitado até ao momento em que lançaram OK Computer. Tinham uma cançãozinha de 4 acordes - Creep - que se recusavam a tocar em concerto por que, afirmavam, era a única que o público queria ouvir... manias!
As referências ao stress quotidiano, à alienação dos yuppies na vida empresarial, o trabalho obsessivo e destituído de sentido são os temas dominantes das letras escritas por Thom Yorke. A famosa dedicatória a Bill Gates do tema Paranoid Android parece confirmar a repulsa pela orientação materialista e consumista do mundo actual.
A obra é por muitos considerada como o primeiro disco anti-globalização, se é que tal faz algum sentido... Paranoid Android é uma das selecções do You Tube para este post. De notar as tiradas geniais como: "Ambition makes you look pretty ugly / Kicking and squealing gucci little piggy"
Ou:
"That's it, sir
You're leaving
The crackle of pigskin
The dust and the screaming
The yuppies networking
The panic, the vomit
The panic, the vomit
God loves his children,
God loves his children, yeah!"
O disco é extremamente "cinematográfico". Canções como Subterranean Homesick Alien ou Lucky demonstram este lado de OK Computer e indicam uma versatilidade até então desconhecida na banda. O melhor exemplo desta vertente "banda sonora" é Exit Music (for a film):
Num disco tão perfeito, é difícil identificar as melhores faixas. Musicalmente, as minhas preferências vão para Exit Music, Lucky, No Surprises e Let Down. Paranoid Android é um invulgar caso de brilhantismo poético e musical e, para mim, a melhor música dos anos 90. Curiosamente, tem também uma duração invulgar para um tema single, com mais de 6 minutos e meio, e uma complexidade de estrutura e composição rara para uma banda rock. A intensidade das faixas de OK Computer é ainda mais vincada ao vivo, como o demonstra o vídeo de Airbag, retirado de uma actuação no programa de Jools Holland. Sublinhe-se a fantástica tirada irónica "In a fast german car / I'm amazed that I survived / An airbag saved my life"
sexta-feira, julho 06, 2007
As Angústias de um Professor estão de volta...
Ao fim de quase dois anos, o blog Angústias de um Professor, qual fénix se ergue, para narrar o quotidiano do Homem, do profissional e do mundo irrequieto em que vivemos. Dizem que não há amor como o primeiro... e o Angústias foi o meu primeiro blog e aquele em que coloquei todo o meu empenho.
Não há razões objectivas para esta decisão, mas as conversas com o Pedro, os emails da Gala e os comentários simpáticos (e manifestamente exagerados) de ex-alunos, que conheceram o Angústias de um Professor nos seus tempos áureos de mais de uma centena de visitantes diários, tornaram-me nostálgico.
Regresso com um novo template e cheio de ideias e opiniões. Vamos ver se o tempo e o stress profissional permitem a regularidade de entradas que desejo.
Entretanto, Um Piano na Floresta continua como blog especializado em música. Por falar nisso, já viram a listagem e crítica realizada aos 20 discos da minha vida? Já só falta o vigésimo disco... está a chegar!!!
Não há razões objectivas para esta decisão, mas as conversas com o Pedro, os emails da Gala e os comentários simpáticos (e manifestamente exagerados) de ex-alunos, que conheceram o Angústias de um Professor nos seus tempos áureos de mais de uma centena de visitantes diários, tornaram-me nostálgico.
Regresso com um novo template e cheio de ideias e opiniões. Vamos ver se o tempo e o stress profissional permitem a regularidade de entradas que desejo.
Entretanto, Um Piano na Floresta continua como blog especializado em música. Por falar nisso, já viram a listagem e crítica realizada aos 20 discos da minha vida? Já só falta o vigésimo disco... está a chegar!!!
domingo, julho 01, 2007
Carla Bozulich @ Plano B

Carla Bozulich actua esta quinta-feira, dia 5 de Julho, no Plano B no Porto e, no dia seguinte, na Galeria Zé dos Bois em Lisboa. Só se o trabalho apertar muito é que não irei...
Carla Bozulich pertence à excelente editora canadiana Constellation Records, que edita alguns dos músicos mais criativos e irreverentes da onda pós-rock. Embora Evangelista seja o seu disco de estreia na Constellation, Carla está longe de ser uma principante nestas andanças, tendo pertencido à banda Geraldine Fibbers. (Para confirmar os preconceitos do portugueses sobre a ignorância dos americanos, este site indica Porto e Lisboa como sendo "Spain"...)
Há uns tempos atrás considerei Evangelista como o 9º melhor álbum do ano e, na altura, escrevi:
"Ok. Carla Bozulich não é exactamente uma Diamanda Galas, mas aproxima-se de uma P.J. Harvey muito zangada. Evangelista é uma estreia absolutamente surpreendente. Nunca tinha ouvido falar desta mulher até ter ouvido Evangelista I, o primeiro tema do disco. Posso garantir que fiquei arrepiado de medo. Sim, puro e não adulterado medo! A entrada deste cd é um tema com mais de 9 minutos em que Bozulich grita furiosamente as letras do tema por meio de samples, loops e uma secção de cordas composta por violino, viola, violoncelo e contrabaixo tocados de forma muito pouco ortodoxa. A acrescentar a toda esta cacofonia alucinante há ainda um discurso do Elder Otis Jones, pregando no distante ano de 1936. As coisas acalmam bastante depois deste início fulgurante, mas por esta altura já Carla Bozulich tinha ganho entrada directa para a tabela dos 10 melhores do ano. Steal Away é uma ode pungente e How to Survive Being Hit by Lightning um clássico instantâneo. Curiosamente, o cd termina com Evangelista II, uma versão muito mais soft do primeiro tema."
Para saber mais sobre Carla Bozulich visitem o seu site no My Space.
quinta-feira, junho 28, 2007
19. Bring On the Night (1986) - Sting

Para quem conhece bem este blog, esta deve parecer uma estranha escolha. Para alguns poderá ser demasiado comercial; para outros, apenas um apeadeiro na carreira de Sting. Para mim, tem um significado muito especial: foi o primeiro disco de música verdadeiramente boa que gostei, ou melhor, aprendi a gostar. Confusos? Eu explico.
Quando tinha 16 anos, só ouvia música má: Wham!, Duran Duran, Modern Talking, Kim Wilde, A-ha, entre muitos outros pimbas anglo-saxónicos. Este Bring On the Night foi uma revolução para os meus ouvidos. Na altura, os meus amigos gostavam de música muito mais comercial e ligeira, pelo que a repetida audição deste disco não lhes passava pela cabeça. Mas, o que é que faz de Bring On the Night um disco especial?
Sting tinha já uma longa carreira na música pop-rock quando editou este álbum feito de versões da sua antiga banda - The Police - misturadas com originais seus. Até aqui nada de novo. Mas Sting adoptou uma perspectiva revisionista. Pegou em todos aqueles temas pop e transformou-os em versões de fusão com o jazz. Não o fez sozinho. Teve a ajuda de verdadeiros "monstros" da história do jazz, como sejam Branford Marsalis (tocou com Art Blakey, Dizzie Gillespie, Miles Davis e Wynton Marsalis), Omar Hakim (baterista dos Weather Report), Darryl Jones (baixista de Miles Davis) e Kenny Kirkland (teclista de Dizzie Gillespie e Wynton Marsalis). Nas vozes, o disco conta ainda com Janice Pendarvis, que havia trabalhado com Philip Glass, Laurie Anderson, Robert Flack e Peter Tosh, e Dolette McDonald, que colaborou com os Police, Talking Heads e Laurie Anderson.
Sem surpresa, o disco é uma fabulosa demonstração como temas de estúdio podem ser recriados ao vivo num formato integralmente diferente. As versões remisturadas de One World/Love is the Seventh Wave e Bring on the Night/When the World is Running Down são testemunhos da capacidade criativa e irreverente de Sting, demonstrando uma invulgar humildade, que segundo consta não é nada típica do músico-professor. Os solos de saxofone de Marsalis e os solos de piano de Kirkland, infelizmente desaparecido em 1998, tornam o disco um verdadeiro "must have" para apreciadores de jazz.
O meu gosto por este disco transformou-me num pária entre os meus amigos mais chegados. "Lá vem este com o jazz", costumavam dizer. Essa segregação valeu a pena. O inconformismo demonstrado na altura viria a alargar-se para muitas outras áreas da música, confirmando que "não se deve negar à partida uma ciência que se desconhece..."
Bring On the Night, em versão abreviada (o original tem 11 minutos e 42 segundos), pode ser escutado aqui. Os saudosistas podem comparar esta versão jazz, com o original "reggae-pop" dos Police, também disponível no You Tube.
sexta-feira, junho 22, 2007
São João com Philip Glass

No âmbito das celebrações do seu septuagésimo aniversário, Philip Glass traz a digressão Solo Piano ao Theatro Circo, em Braga, dia 24 de Junho, pelas 22 horas. Embora os seus trabalhos para piano a solo não sejam os meus preferidos, esta é uma oportunidade única, talvez a última, para ver Glass ao vivo a interpretar os seus próprios temas. Para ouvir alguns dos momentos mais representativos da carreira do músico americano passem pelo sítio oficial: Philip Glass.
Esperemos que o público de Braga seja mais compreensivo do que o de Springfield... hehehehe!!!
terça-feira, junho 19, 2007
18. Ende Neu (1996) - Einstürzende Neubauten

O primeiro automóvel que comprei, em 1995, foi um usado: um Alfa Romeo 33 1.5 de cor preta e a gasolina. Lembro-me do entusiasmo com que fui orgulhoso proprietário, durante uns 4 anos, de um carro que tinha um péssimo cadastro de segurança passiva e bebia gasolina como um viajante que encontra um oásis no deserto bebe água. Era um carro com muitos defeitos, mas tinha sido adquirido com o esforço do meu trabalho e possuia uma característica que desculpava todos os outros defeitos: nenhum motor soa igual ao de um Alfa Romeo. A publicidade dizia que era um "Cuore Sportivo" e o motor do Alfa era isso mesmo, o meu coração mecânico.

Por isso, não admira que quando saiu Ende Neu (1996) dos Einstürzende Neubauten tenha estabelecido uma ligação muito especial com este disco. Eu explico: o tema NNNAAAMMM (acrónimo para New No New Age Advanced Ambient Motor Music Machine) conta com a participação especial de um motor de Alfa Romeo que, no mínimo, dá um carácter inovador à secção de percussão da banda. Em abono da verdade, diga-se que este tema conta com mais alguns contributos revolucionários: um berbequim eléctrico Bosch, um compressor a vapor Bauknecht, um caterpillar Case 2004, entre outros protagonistas menos conhecidos. O mais extraordinário é que tudo soa razoavelmente melódico, e até comercial, sobretudo se comparado com os primeiros dez anos da carreira dos Einstürzende Neubauten. Para os mais versados em música contemporânea alemã terem uma ideia, NNNAAAMMM é uma espécie de Kraftwerk no final do milénio, tingido com música concreta à la Karl-Heinz Stockhausen. Impossível não gostar!
Tal como a música de Nick Cave se tornou mais acessível com o passar dos anos, também Blixa Bargeld, vocalista dos EN e membro dos Bad Seeds, modificou a sonoridade da banda, provavelmente de forma involuntária, tornando-a mais audível. A prova disso mesmo é que há, neste álbum, excelentes temas, com um formato relativamente convencional e capazes de atrair uma audiência mais alargada. Aproveito para recomendar The Garden, Die Explosion Im Festspielhaus e, claro, Stella Maris. Esta última foi escolhida no You Tube para representar esta obra e mistura dois temas que me são extremamente queridos: o Amor e as viagens. Especialmente recomendado para aqueles cujo pensamento possui asas...
quarta-feira, junho 13, 2007
17. The Lamb Lies Down on Broadway (1975) - Genesis

Em Itália, o 17 é o número do azar, mas, no país em forma de bota, os Genesis de Peter Gabriel nunca tiveram outra coisa senão sorte. Desde a sua formação, no longínquo ano de 1968, os italianos desenvolveram uma relação priviligiada com a banda e esta retribuia dizendo que "quando nos queremos sentir bem, vamos para Itália". Esta relação especial com o público italiano corresponde a "um fenómeno de culto".
Em 1975, os Genesis já não eram apenas um fenómeno de culto quando lançaram aquele que viria a ser considerado, por todos os verdadeiros fãs, como o melhor disco de sempre da banda. Curiosamente, ou talvez não, eram vistos como uma banda para público masculino. Os temas não eram românticos, Peter Gabriel não era um sex-symbol e vestia roupas excêntricas em palco, de forma que nem a sua cara era visível, e na música predominavam os instrumentais e/ou as letras com significado obscuro.
Por tudo isto, lançar um duplo álbum de originais era uma manobra editorial que requeria alguma coragem e uma grande dose de auto-confiança. The Lamb Lies Down on Broadway, ou simplesmente The Lamb, revelou-se um disco invulgar por várias razões. Por um lado, é um disco que conta uma história. Não uma história lamechas do género de Tommy dos The Who ou um conto paranóico à moda de The Wall dos Pink Floyd, mas sim uma narrativa surreal, repleta de referências oníricas, satíricas e mitológicas. A história é suficientemente complexa para despertar a curiosidade a desconhecidos.
The Lamb é também um acto de coragem porque não pisca os olhos aos tops. É uma obra sem compromissos comerciais e, por essa razão, faz mais sentido quando ouvida integralmente e na sequência em que foi criada. Alterna temas longos (In the Cage, The Lamia ou The Colony of Slippermen) com suaves momentos de transição instrumental (Hairless Heart, Silent Sorrow in Empty Boats, e The Ravine). Sublinham-se ainda saudáveis doses de experimentalismo (The Waiting Room), surrealismo (Carpet Crawlers, The Chamber of 32 Doors) e teatralidade (The Colony of Slippermen). Como se toda esta diversidade não fosse já por si cativante, há ainda algumas canções de formato mais tradicional como Counting Out Time, Lilywhite Lilith e Back in N.Y.C., esta última tendo sido alvo de uma versão por Jeff Buckley e editada no álbum póstumo Sketches for my Sweetheart the Drunk.
Apesar dos aspectos notáveis de toda esta obra, não há gravações em vídeo ou filme, o que ajudou a torná-la mítica. No You Tube, local de eleição para procurar gravações raras, todas as interpretações de músicas deste álbum com a formação original dos Genesis alternam películas de filme original com imagens fotográficas dos mesmos concertos desta digressão. Um exemplo destes documentos cinematográficos precários é a selecção que escolhi para aqui, uma interpretação teatral de Peter Gabriel em In the Cage:
A excentricidade de Peter Gabriel era tão grande que, por vezes, usava máscaras que dificultavam a interpretação dos temas, como é notório nesta rara interpretação de The Colony of Slippermen:
Para aqueles que são pouco dados a achados arqueológicos per se e preferem ver como aparentavam os Genesis com Peter Gabriel, nada como apreciar uma gravação para televisão do tema Musical Box realizada em 1972 e que é hoje um verdadeiro clássico. Se tiverem paciência para ouvir a interpretação integral, reparem nas mudanças de ritmo e melodia. O tema começa quase como uma caixa de música, mas chega a atingir momentos daquilo que um crítico recente chamou proto-grunge. Quase diria que Peter Gabriel é... lindo! As suas letras falam de Nat King Cole, infantários, croquet e caixas de música. Phil Collins é o hippie da bateria, Michael Rutherford quase invisível no baixo, e os dois génios musicais da banda em todo o seu esplendor: Tony Banks nas teclas e Steve Hackett, um guitarrista com formação clássica, na guitarra solo. O vídeo e a banda podem aparentar datados, mas há aqui contributos que irão influenciar diversos movimentos musicais dos anos 80 e 90.
quinta-feira, junho 07, 2007
16. The Good Son (1990) - Nick Cave & The Bad Seeds

Ouvi Nick Cave pela primeira vez com 18 anos. Não foi nos The Boys Next Door a cantar "I've been contemplating suicide..."(Nota: primeira banda de Nick Cave, quando este tinha 16 anos); também não foi a gritar desalmadamente nos Birthday Party; nem sequer era Nick a suplicar From Her to Eternity no filme de Wim Wenders "As Asas do Desejo". Nada disso. A primeira vez que ouvi Nick Cave foi a cantar em português o tema Foi Na Cruz, do álbum The Good Son. Desde aí nunca mais deixei de gostar de Nick Cave, da sua poesia, da sua música e da sua personalidade, isto apesar de algumas desilusões ao longo dos anos, como foi o caso de Nocturama, que é, sem dificuldade, o pior disco alguma vez editado pelo homem.
Em The Good Son, Nick Cave assume uma postura menos revoltada, quase soft, relativamente liberta de drogas e, influenciado pelo seu namoro com a estilista brasileira Viviane Carneiro, compõe o já mencionado Foi Na Cruz, baseado na canção tradicional brasileira de inspiração religiosa. Mas as canções que ficam para a história são sobretudo as baladas The Ship Song e Lucy, num registo melódico até aqui quase desconhecido para os fãs de Nick. Pessoalmente, e numa veia mais depressiva, nada supera The Weeping Song, que se tornou a minha canção favorita deste disco e uma das minhas predilectas de toda a carreira de Nick com os Bad Seeds. Para recordarem este tema, deixo-vos com o seu vídeo-clip entre o genial e o kitsch...
sexta-feira, junho 01, 2007
segunda-feira, maio 28, 2007
15. Funeral (2004) - Arcade Fire

Este é, para já, o melhor disco do século XXI. Lançado a 14 de Setembro de 2004 na América do Norte, só chegou ao conhecimento da generalidade do público na Europa em meados de 2005. E foi quase uma revolução musical!
A obra toma o nome Funeral, a partir da estranha coincidência de nove familiares dos seis membros principais da banda terem falecido na altura em que o disco estava a ser gravado no mítico Hotel2Tango, em Montréal, ao longo de um par de Invernos inclementes, como só os de Montréal sabem sê-lo.
Não duvidem: estamos perante uma obra fantástica, para apreciar do primeiro ao último tema. Mas, como noutros casos, há sempre alguns temas que se destacam por serem mais "radiofónicos". A voz de Win Butler domina a maioria dos temas e está também associada aos melhores. Tunnels é um crescendo musical magnífico a marcar a entrada, Power Out faz lembrar uns New Order muito, mas mesmo muito, zangados ("Ice has covered up my parents hands don't have any dreams don't have any plans" e "I went up into the night, I went out to pick a fight with anyone"). Wake up é um verdadeiro hino ao crescimento, sublinhando que a maturidade tem um preço, geralmente associado com maior cinismo e desconfiança ("I guess we'll just have to adjust").
Nascida no Haiti, a charmosa Régine Chassagne dedica a canção homónima ao país do qual é natural. A sua voz é estranha... desafinada, diriam alguns, e provavelmente com razão. E, no entanto, a sua presença em palco é espontânea, apaixonante e única. Qual o coração masculino mais empedernido que não se derrete perante os seus lamentos sobre as horríveis "nuits de Duvalier"?
quinta-feira, maio 24, 2007
14. Dummy (1994) - Portishead

A figura franzina de voz frágil é Beth Gibbons, mas a mensagem transmitida é poderosa. Dummy foi um disco que me marcou pela capacidade dos músicos em abdicarem da estrutura tradicional de uma "banda pop-rock" e apostarem no sampling, nos loops e no scratch para produzirem uma sonoridade original associada a temáticas intemporais, como o amor, o sonho, a verdade e a vida. Embora o disco tenha sido editado em 1994, foi só entre 1998 e 2001 que o ouvi centenas de vezes, uma por cada tarde que passava na Epitome Coffee House, em Tallahassee, a estudar para o meu doutoramento. Naquele local, caracterizado pela irreverência e inconformismo de um bando de não-alinhados na cultura americana dominante, era habitual ouvir Dead Can Dance, Blues Traveller ou Björk. Os Portishead também faziam parte do lote de escolhas do barista/dj de circunstância.
Os Portishead são um duo de Bristol, Inglaterra, e representam o apogeu de um género musical que ficou conhecido como trip-hop e que integra igualmente os Massive Attack e Tricky, só para mencionar os mais conhecidos. Editaram apenas dois trabalhos originais e um cd ao vivo no Roseland Ballroom de NYC com os melhores temas acompanhados por uma orquestra. Dummy é o seu primeiro trabalho e podem ouvir It Could Be Sweet no plug-in ali ao lado e a minha favorita, Wandering Star, no You Tube:
quarta-feira, maio 23, 2007
quarta-feira, maio 16, 2007
13. Dark Side of the Moon (1973) - Pink Floyd

Tinha 15 anos. Foi numa tarde de semana em que não tive aulas e fui para casa de um amigo chamado Rui que o ouvi a primeira vez. Certamente influenciado pelo pai, Rui era fã de ficção científica, o que explica termos visto 2001-Odisseia no Espaço vezes sem conta. O filme é, ainda hoje, um dos meus favoritos de sempre, pelas questões que coloca sobre a natureza humana e sobre os condicionamentos provocados pela tecnologia, mas a crítica fica para outra entrada. Aqui vai falar-se de Dark Side, que aborda alguns dos mesmos tópicos e que escutamos inúmeras vezes.
O disco é, a todos os títulos, invulgar. Lançado em 1973, é o primeiro mega-sucesso dos Pink Floyd, que já tinham editado 7 discos anteriormente, "menos convencionais", com uma sonoridade críptica e psicadélica. Estranhamente, Dark Side of the Moon tornou-se um sucesso de forma lenta e persistente: esteve mais de 700 (setecentas!!!) semanas (14 anos!!!) classificado no Billboard 200, top americano de vendas. (Apesar disso, não é o disco mais vendido de todos os tempos.) Este facto chegaria para tornar o disco mítico, mas há mais, muito mais.
Já apelidei muitas edições musicais de "obra-prima", mas provavelmente a nenhuma outra a expressão se adapta melhor do que a Dark Side. É o primeiro disco gravado em som quadrifónico, o que torna a audição nas aparelhagens de som "último modelo" uma delícia e a única capaz de proporcionar a verdadeira apreciação do detalhe sonoro. Produzido por Alan Parsons e pelos Floyd, Dark Side é pura e simplesmente perfeito, em termos de letra, música e produção. As únicas críticas que ouvi a este disco é que é demasiado perfeito, fazendo com que se perca o encanto, a improvisação e alguma "aspereza" de produção que caracteriza habitualmente a criação artística e musical. Mas o perfeccionismo também pode ser uma vertente relevante da arte e aqui revela-se em todo o seu esplendor.
Tal como sobre outros discos memoráveis se contam certos mitos, também de Dark Side se diz que deve ser ouvido com uma experiência visual. Se colocarmos o disco e o filme O Feiticeiro de Oz simultaneamente, as coincidências são espantosas, quase se podendo dizer que o primeiro constitui a banda sonora do segundo. Eu próprio já fiz essa experiência e fiquei surpreendido. Se a experiência for acompanhada por "substâncias", digamos, favoráveis à abertura do corpo e do espírito, o prazer pode ser infinitamente superior. E mais não digo...
Quanto à música propriamente dita, toca ininterruptamente em cada um dos lados do vinil. Desde a primeira batida cardíaca até à última, experimentamos todas as sensações que um ser humano conhece, desde que nasce até à sua morte. Mas as letras centram-se fundamentalmente:
No stress da vida quotidiana em Breathe:
"Run, rabbit run.
Dig that hole, forget the sun,
And when at last the work is done
Don't sit down it's time to dig another one."
e em Time:
"So you run and you run to catch up with the sun but it's sinking
Racing around to come up behind you again.
The sun is the same in a relative way but you're older,
Shorter of breath and one day closer to death."
Na ganância, em Money:
"Money, it's a crime.
Share it fairly but don't take a slice of my pie.
Money, so they say
Is the root of all evil today.
But if you ask for a raise it's no surprise that they're
giving none away."
E na alienação, em Brain Damage:
"The lunatic is in my head.
The lunatic is in my head
You raise the blade, you make the change
You re-arrange me 'til I'm sane.
You lock the door
And throw away the key
There's someone in my head but it's not me."
O disco termina de uma forma nihilista, com a frase:
"There is no dark side of the moon really. Matter of fact it's all dark."
Até a batida cardíaca se extinguir por completo...
Podem ler mais curiosidades sobre The Dark Side of the Moon aqui.
O final glorioso do álbum pode ser escutado neste "film-clip" kitsch acompanhado por imagens de algumas figuras dominantes da época como Nixon, Arafat ou o eterno Fidel Castro e milhares de discos de vinil a explodirem.
sábado, maio 12, 2007
12. Aion (1990) - Dead Can Dance

Na lista dos 20 discos da minha vida, este é um dos mais excêntricos. Os Dead Can Dance são frequentemente associados com um estilo musical conhecido como dark wave, que é manifestamente redutor para o alcance e diversidade da música praticada por este duo global: Lisa Gerrard vive na Austrália e Brendan Perry na Irlanda, encontrando-se ocasionalmente para gravar. A combinação da voz celestial e onírica de Lisa com a voz sinistra e etérea de Brendan, associada a uma grande quantidade de instrumentos acústicos e electrónicos converteu os Dead Can Dance numa das bandas mais amadas em todo o mundo, quer pelos críticos musicais, quer pelo público em geral.
Em Aion (1990), os Dead Can Dance transportam-nos para tempos antigos e música imemorial. Saltarello é uma dança instrumental de um compositor italiano anónimo do século XIV; The Song of Sybil é uma versão de um tema tradicional da Catalunha com raízes no século XVI; e a canção mais intensa é Fortune Presents Gifts Not According to the Book, com poema de Luis de Góngora, poeta e dramaturgo espanhol do final do século XVI conhecido pela corrente literária que gerou: o gongorismo. Toda a sonoridade é mística e misteriosa, com evidentes ligações ao folclore celta, às danças tradicionais italianas, ao canto gregoriano e à música barroca, com paisagens remotas a servirem de inspiração a toda a composição.
A capa do disco é um detalhe do "Jardim das Delícias" de Hieronymus Bosch é a cereja em cima de um bolo muito bem recheado. Outros discos excelentes dos Dead Can Dance são Within the Realm of a Dying Sun (1987), Into the Labyrinth (1993) e Toward the Within (ao vivo) (1994). O ecletismo do duo pode ser constatado nas influências do Médio Oriente que perpassam Rakim, o tema de abertura de Toward the Within:
sexta-feira, maio 11, 2007
11. The Doors (1967) - The Doors

Adivinha: Para além de sermos do signo Sagitário, o que é que eu (Fernando Piano) e o Jim Morrison (vocalista dos Doors) temos em comum?
Ouvi este disco pela primeira vez quando tinha 18 anos de vida e era facilmente impressionável. Para além da energia que transpira por todos os poros, o disco marcou-me pela mudança paradigmática que provocou na música rock: era possível encontrar nas trevas, na revolta e no incorformismo, uma alternativa à luz, às flores, aos hippies e ao sol da California dos Beach Boys. Até este disco, os meus ouvidos escutavam maioriamente música pop comercial, mas foi com os Doors que dei os primeiros passos na escuridão...
Os solos de teclas de Ray Manzarek, a guitarra blues de Robby Krieger, a bateria de John Densmore e a voz intensa/alucinada/sussurada do deus sexual Jim Morrison tranformaram o que seria uma banda de blues rock vulgar num inesquecível portento musical. Deste disco em particular diz-se que demorou apenas 6 dias a gravar, o que ilustra bem o génio explosivo e criativo da banda, que ainda viria a gravar outro (Strange Days) durante o ano de 1967. Mas o que mais impressiona no primeiro álbum dos Doors é a riqueza da composição musical associada à inspiração poética de Jim. Se é verdade que a poesia de Jim Morrison nunca recebeu o acolhimento da crítica que o seu autor desejava, também não é menos verdade que foram os seus melhores escritos que acabaram musicados.
Os temas mais fortes do disco são o hit Light My Fire, o teatral Alabama Song (Whiskey Bar), a balada Crystal Ships, a batida infecciosa de Break On Through e o épico edipiano The End. Para recordarem o fabuloso The End:
terça-feira, maio 08, 2007
10. Tindersticks II (1995) - Tindersticks

A minha relação com esta obra é especial. Foi de coração apaixonado que os conheci e de coração partido que os vi ao vivo pela primeira vez no Coliseu do Porto, em 1997, num dos concertos mais memoráveis da minha vida.
Quando saiu Tindersticks II, o segundo disco de originais da banda, não conhecia Tindersticks I, mas a música encantou-me desde o primeiro acorde. A voz sedutora de Stuart Staples, a mistura dos instrumentos tradicionais do rock tocados de forma gentil e uma secção de cordas quase sempre arrebatada transformou a face da música alternativa. Quase arrisco que, pelo menos em Portugal, o conceito de música “alternativa” se tornou uma moda com os Tindersticks, em particular quando o álbum “Curtains” chegou aos primeiros lugares do top nacional e a banda encheu os Coliseus.
Apesar da sedução comercial exercida por Curtains, é com Tindersticks II que a banda atinge o seu zénite. São 70 minutos de música perfeita, letras de um sarcasmo romântico inigualável e um alinhamento memorável, incluindo Tiny Tears, She's Gone, Another Night In, e o fabuloso My Sister, com uma prosa trágico-cómica de primeira apanha. A introdução pontual de instrumentos pouco vulgares no horizonte rock, como sejam o trombone, o violoncelo e o serrote (!) proporcionam momentos musicais surpreendentes que constituem uma delícia sonora para os ouvidos mais sensíveis.
Outro dos momentos mais intenso de Tindersticks II é Travelling Light, um dueto com Carla Togerson (vocalista dos Walkabouts) que podem ver e ouvir aqui:
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