A atmosfera etérea é proporcionada pela fusão entre a suavidade da electrónica, a batida do Trip-Hop e a voz de Alison Goldfrapp, plena de sedução. Não sendo um campeão de vendas, marcou o ano 2000 e representa bem a passagem do milénio, com as hesitações constantes entre a segurança do passado e a incerteza do mundo global futuro.
Projecto 200 anos de música. A ideia é simples. Ao longo de duzentas entradas, o Piano na Floresta vai listar duzentas obras musicais, uma por cada ano, iniciando a contagem decrescente a partir do ano 2000. Se tudo correr conforme planeado, será possível identificar um disco ou uma obra composta em cada um dos anos no intervalo entre o ano 1800 e o ano 2000. Não há limitações de género musical. A qualidade e a reputação da obra não constituem critério de escolha, embora se entenda que ela é, de algum modo, representativa do ano em questão.
A ideia é simples. Ao longo de duzentas entradas, o Piano na Floresta vai listar duzentas obras musicais, uma por cada ano, iniciando a contagem decrescente a partir do ano 2000. Se tudo correr conforme planeado, será possível identificar um disco ou uma obra composta em cada um dos anos no intervalo entre o ano 1800 e o ano 2000. Não há limitações de género musical. A qualidade e a reputação da obra não constituem critério de escolha, embora se entenda que ela é, de algum modo, representativa do ano em questão.
É sempre um prazer ser surpreendido. Ontem à noite, no Theatro Circo, Coco Rosie fizeram exactamente isso. A apresentação do 3º álbum, o sucessor de Noah's Ark, com o estranho título "The Adventures of Ghosthorse and Stillborn", foi coroada de sucesso, ainda que se verifique uma ligeira alteração na direcção musical da banda. A música é definida no sítio My Space como "Chinese Pop, Acappella, Drum and Bass", mas estes epítetos são demasiado redutores para tanta diversidade musical. As vozes de Sierra e Bianca oscilam entre o lírico e o "cana rachada", mas sempre de uma doçura comovente.
A combinação de instrumentos é invulgar. Para além dos convencionais piano e guitarra acústica, tudo o resto são formas excêntricas, deliciosamente excêntricas, de fazer música. Uma harpa, um telefone de brinquedo, vários samplers de animais e uma extraordinária "beatbox humana", ou seja, um MC que substitui a caixa de ritmos electrónica. Uma das principais diferenças em palco reside na projecção de filmes surrealistas ao longo de todo o concerto, com uma estética muito semelhante a "The Grandmother", a infâme curta-metragem do início da carreira de David Lynch. O conjunto da instalação - música, poesia e filme - demonstram uma criatividade e uma irreverência apaixonante. Confesso-me rendido.
Aqui fica Tekno Love Song, uma das minhas favoritas:
Todos nós já vimos filmes maus, daqueles em que nos arrependemos profundamente de ter entrado no cinema ou no clube de vídeo. No entanto, poucos assistimos a filmes maus por opção.
Plan 9 - From Outer Space é um filme tão mau, tão mau... que é bom! O narrador do filme oscila entre o kitsch e o creepy. Os discos voadores são pratos de cozinha suspensos por fios (pouco) transparentes. Os mortos vivos, erguidos do túmulo, imitam os movimentos de alguém a mexer-se numa sala completamente às escuras. Os extra-terrestres parecem demasiado... terrestres. Os efeitos sonoros assemelham-se à ventania que assobia nas esquinas dos edifícios. A interpretação de Bela Lugosi é demasiado breve para ultrapassar a deliciosa mediocridade em que o filme decorre.
Plan 9 é uma caldeirada hilariante, servida por aquele que muitos classificaram como o pior realizador de todos os tempos: Edward Wood Jr.
Persona é provavelmente um dos filmes mais "difíceis" que já vi. Para além da surreal sequência de abertura, que mistura uma crucifixão, uma tarântula, um pénis erecto, uma ovelha a ser abatida, excertos de filmes mudos e vários corpos inertes/mortos em camas de hospital, o filme é trespassado por uma aura misteriosa e demencial. Bergman não é um cineasta fácil. Já o sabia. Mas Persona é, de entre os objectos cinematográficos do autor, o mais intrigante.
Elizabeth Vogler (Liv Ullmann), uma actriz que interpreta o papel de Elektra numa peça deixa subitamente de falar e é internada num hospital. Alma (Bibi Andersson) é a enfermeira encarregue de cuidar de Elizabeth, acabando ambas por se instalarem numa casa de praia da directora do hospital. Ao longo do seu contacto, a enfermeira fala com Elizabeth como se ela fosse sua interlocutora e revela-lhe as suas experiência sexuais precoces e um aborto ocorrido na sequência de uma relação com um homem casado, entre outros sentimentos e emoções.
Após meses sem que Elizabeth pronuncie uma palavra, Alma oferece-se para depositar no correio a correspondência pessoal da actriz. Movida pela curiosidade, acaba por ler a carta dirigida à administradora, na qual Elizabeth afirma estudar em detalhe o comportamento da enfermeira. A partir deste momento, a personagem de Alma transfigura-se por completo, passando a expressar o seu ódio e desprezo pela actriz.
O aspecto mais complexo do filme reside no facto de, sobretudo após a leitura da carta, as personalidades de Elizabeth e Alma se confundirem, ao ponto de confundir o espectador sobre quem exerce a actividade profissional e quem é a paciente (um fenómeno designado de transferência em psicanálise). Mais do que isso, uma interpretação alternativa sugere que as duas personagens são uma só pessoa, sendo Elizabeth a pessoa "interior" e Alma a sua versão "exterior" ou "revelada". Várias cenas ao longo do filme contribuem para algum fundamento desta explicação.
Para mais informação e "interpretações alternativas" sobre Persona, aconselha-se a leitura do longo artigo em inglês na Wikipedia.
No passado dia 9 de Abril comemoraram-se 143 anos do fim da Guerra Civil Americana, tantos quantos nos separaram, no dia 14 de Abril, do assassinato do Presidente Abraham Lincoln. Foi com alguma dose de coragem que cometi a proeza de ver, sem interrupções, a versão original e integral (duração superior a 3 horas) de “O Nascimento de uma Nação” (The Birth of a Nation) (1915) de Douglas W. Griffith.
O filme encontra-se dividido em duas partes, iniciando-se com o dealbar da Guerra Civil, retratando o assassinato do Presidente Lincoln e culminando com o período da Reconstrução no pós-guerra. A história das famílias Cameron (do Sul) e Stoneman (do Norte) é contada sob a perspectiva da primeira, pelo que o filme está embebido de um racismo quase omnipresente, visível nos textos e nas representações caricatas nos negros, quase sempre associados a comportamento patetas e destituídos de significado racional. Nesse aspecto, o filme é quase obsceno para os dias de hoje, mas não deixa de ser um documento histórico, sobretudo no modo como retrata a visão transmitida pelos brancos colonizadores e pró-esclavagistas no tempo em que a acção decorre e mesmo no momento em que a obra foi realizada.
The Birth of a Nation é igualmente famoso pelo tratamento nobre que dá à Ku Klux Klan, retratando a organização como defensora da ordem e da democracia, contra a anarquia representada pela atribuição do poder aos negros no pós-Guerra Civil. No entanto, esta organização racista e segregacionista viria a ser responsável, ao longo dos seus mais de cem anos de existência, por centenas de episódios criminosos contra os negros do sul dos Estados Unidos.
Os meios utilizados são notáveis: 5000 cenas diferentes, 1357 planos individuais, 18000 actores e figurantes, 3000 cavalos e 7 meses de produção. Para compreenderem quão extraordinários são estes números, lembrem-se que o filme é considerado o primeiro grande épico do cinema mudo e foi realizado apenas três anos após o afundamento do Titanic! As notas da edição realçam igualmente que nenhum outro filme se pode gabar de um esforço tão gigantesco, sobretudo na actualidade, em que os meios digitais dispensam cada vez mais a presença do elemento humano nas cenas mais grandiosas.
Apesar das observações sobre a qualidade dos actores do cinema mudo serem, como é lógico, altamente subjectivas, não posso deixar de destacar a encantadora Lillian Gish. As suas expressões ternas e arrebatadas ainda hoje apaixonam e, correndo o risco de parecer ridículo, sinto-me enfeitiçado pelo seu desempenho. Tanto assim que já adquiri mais um par de filmes em que Lillian Gish é a actriz principal, também estes mudos e a preto-e-branco. O poder dos clássicos!
Não sei como é possível este disco ter-me passado ao lado. Diário Mali é uma colaboração de Ludovico Einaudi, um pianista italiano e do guitarrista Ballaké Sissoko, originário do Mali. Interpretações brilhantes, explorando diversos géneros músicais através do diálogo constante entre a guitarra acústica e o piano, transportam-nos mentalmente para as paisagens africanas dos nossos sonhos e dos nossos filmes predilectos.
Altamente recomendado para amantes, sonhadores e outros exploradores.
Depois de 36 anos de vida e mais de um milhar de filmes, posso afirmar que já não fico impressionado com a maioria dos filmes que vejo. Não tendo sequer especial apreciação por romances históricos, foi com alguma surpresa que constatei que ainda me surpreendo com o trabalho de alguns realizadores.
A história inicia-se em 1607, com a chegada de três embarcações inglesas à costa da Virginia para iniciar a colonização daquela parte do continente americano e na expectativa de descobrir a passagem por ocidente para as Índias Orientais. O grupo de pouco mais de uma centena de colonizadores depara-se imediatamente com doenças e fome que dizimam quase por completo os habitantes do Forte de Jamestown. A relação entre os índios e os colonos é cheia de tensões e incompreensões, mas, apesar disso, é a amizade que se desenvolve entre a Princesa Pocahontas (filha do chefe da Tribo) e o capitão John Smith que permite que os colonos sejam salvos pelos mantimentos fornecidos pelos índios durante o longo e duro Inverno do primeiro ano. O resto do filme incide sobretudo na adaptação de Pocahontas ao modo de vida dos ingleses, bem como o seu casamento e constituição de família com John Rolfe.
O que mais me impressionou no filme foi a fidelidade da recriação histórica. Os índios das tribos Powhatan e Algonquin da Virginia são mesmo representados por descendentes de índios, as suas pinturas, cortes de cabelo e vestes são fiéis às dessas tribos, as embarcações inglesas são verdadeiras (emprestadas por um museu), as armas são reproduções fiéis utilizando os materiais usados naquele tempo, as construções das tendas e do forte obedecem à "tecnologia" da época e a linguagem e os rituais índios reflectem a cultura transmitida por via da tradição oral.
Por tudo isto, o filme é extraordinário, mas há alguns aspectos que o tornam ainda mais belo. A realização de Terrence Malick é prodigiosa. Para além de uma mise-en-scène excelente, a forma cuidada como a câmara é operada, os planos muito demorados, sem pressa de avançar para a cena seguinte, e a fotografia fantástica, tornam o filme um colírio para os olhos e para a alma de quem vê, isto apesar da visão algo negra dos seres humanos que perpassa grande parte da história. Conheço quem tenha achado o filme monótono, mas julgo que essa crítica se deve ao facto de não estarmos habituados a ver filmes comerciais americanos com um tratamento tão cuidado da imagem e da realização.
Se um dia ganhar o Euromilhões, compro um original de Edward Hopper. A representação da luz, a nostalgia de uma América passada e o ambiente misterioso que transmitem os seus quadros... fascinam-me.
Como podem depreender pelo nome do blogue, o piano é o meu instrumento musical favorito. No contexto da chamada música clássica, o piano tem um conjunto variado de utilizações. Em primeiro lugar, pode ser utilizado individualmente, em sonatas (como em Beethoven, Brahms, Schubert, Prokofiev, etc.), nocturnos (Chopin, Fauré, Poulenc, etc.), prelúdios (Chopin, Rachmaninov) canções sem palavras (Mendelssohn) ou outras peças avulsas (Bartok, Grieg, Sibelius). O piano é também usado em conjunto com outro(s) instrumento(s), como é o caso das sonatas para violino e piano, quintetos (Schubert, Rimsky-Korsakov) ou sextetos (Glinka).
Mas, para mim, a utilização mais magnífica e genial do piano é no contexto dos concertos para piano e orquestra. Quase todos os grandes compositores produziram obras deste tipo, incluindo Beethoven, Tchaikovsky, Brahms, Chopin e Liszt entre os românticos ou Rachmaninov, Shostakovitch, Ravel ou Gershwin entre os pós-românticos.
De todos os concertos para piano e orquestra já compostos, nenhum atingiu a notoriedade do Concerto para Piano e Orquestra Nº3 em Ré menor, Op. 30 de Sergei Rachmaninov. Perdoe-se-me a comparação, mas o estatuto deste concerto assemelha-se a um tema de música rock, tal a controvérsia gerada. Entre os amantes do cinema, a peça é conhecida por ser o célebre tema de "Shine", um filme que conta a história dramática do pianista David Helfgott, um génio autista maltratado pelo pai e cujo grande desafio é interpretar ao piano o dito concerto.
Porém, o principal motivo para o estatuto da peça é o facto de ser considerada "impossível de tocar". Não será exactamente assim, mas digamos que nem todas as interpretações que podem encontrar em cd obedecem à partitura original escrita por Rachmaninoff, em particular pela não inclusão da cadenza Ossia, que nem o próprio compositor-pianista conseguia tocar. Para piorar as coisas, as composições para piano da autoria do compositor russo são conhecidas por exigirem mãos grandes (!), devido à quantidade de teclas abrangidas pelos acordes. Esta exigência coloca um obstáculo imediato às mulheres intérpretes e explica, em parte, as variações relativamente à partitura original. Ainda assim, estão disponíveis no You Tube interpretações brilhantes de Olga Kern e Martha Argerich, provavelmente a melhor pianista de sempre. A polémica é adensada pelo facto de Rachmaninov, ele próprio pianista, ter afirmado que a sua interpretação do tema por si composto estava longe de ser satisfatória, sobretudo após ter ficado maravilhado ao assistir à interpretação de Vladimir Horowitz em 1930.
No You Tube, esta situação dá origem a discussões acaloradas, por vezes a raiar o insulto, sobre quem é o melhor intérprete deste concerto. A coisa é tão doentia que, um internauta mais empenhado disponibilizou 12 interpretações não identificadas do início do 3º andamento, para que os defensores de uma particular interpretação pudessem testar os seus conhecimentos. Demorou mais de um mês para que todas as interpretações fossem correctamente identificadas.
A audição repetida 12 vezes de cerca de um minuto e meio é um pouco obsessiva e pode deixar-vos tontos, mas um ouvido treinado, que assumo não ter, detecta diferenças evidentes entre interpretações: diferenças de ritmo, notas mal dadas (mais frequente do que se pensa), determinação no ataque ao instrumento (um dos pianistas intérpretes é acusado de carniceiro num dos comentários) e, no limite, variação no grau de paixão colocado na interpretação.
Como é pouco provável que vocês queiram fazer o teste, deixo-vos com os links para o You Tube e a lista das 12 interpretações do Rach 3: 1-Alexis Weissenberg 2-Emil Gilels 3-Van Cliburn 4-Vladimir Horowitz 5-Martha Argerich 6-Arcadi Volodos 7-David Helfgott 8-Zoltán Kocsis 9-Vladimir Ashkenazy 10-Andrei Gavrilov 11-Jorge Bolet 12-Bart Berman De todas as interpretações disponíveis no mercado, sou proprietário de apenas duas: Martha Argerich e André Watts (não está na lista).
A toponímia portuguesa é, todos o sabemos, hilariante. Portugal é o único país do mundo em que se pode ir da Pica (Fafe) à Coina (perto de Setúbal) e parar em Venda de Raparigas (próximo de Leiria) para descansar.
Tendo passado anos a lidar com as bases de dados dos municípios da Florida, posso afirmar que não somos assim tão imaginativos. É verdade que os nomes dos lugares americanos sofreram influências muito variadas, nomeadamente dos nativos americanos, dos escravos provenientes de África e dos próprios europeus, que exportaram os nomes das suas cidades para as novas cidades que surgiram na América durante a colonização.
Para além da conhecida Nova Amsterdão (Nova York), podemos encontrar inúmeros exemplos de nomes de cidades que se repetem na Europa e nos Estados Unidos. No estado da Geórgia podemos encontrar as cidades de Rome, Athens, Dublin e Macon. Viajando para o Ohio, no midwest Americano, temos uma amostra mais impressionante: Aberdeen, Amsterdam, Antwerp, Berlin, Bremen, Dresden, Geneva, Genoa, Hanover, Lisbon, London, Madeira, Manchester, Milan, Montpellier, Parma, Sardinia e Toledo. Estes nomes são, pelo menos em parte, resultado da nacionalidade dos colonos que se instalaram nestes locais, mas demonstram alguma falta de imaginação no baptizar dos municípios.
Na Florida, a toponímia é muito mais fascinante para nós ocidentais, em larga medida por influência das tribos de nativos americanos, em particular, Seminoles e Osceola. Essa influência é bem visível em nomes como Apalachicola, Apopka, Chattahoochee, Ocoee, Okeechobee, Opa-Locka, Pahokee, Palatka ou Tallahassee. A influência europeia é menos notada, tendo apenas identificado as localidades de Dover, Dundee, Naples, Oviedo e Venice.
Por último, alguns habitantes da Florida moram em locais tão inspiradores como Anna Maria, Aventura, Bagdad, Boca Raton, Cinco Bayou, Clarcona, Hypoluxo, Kissimmee, Tampa, Pensacola ou Wauchula. Outros municípios têm nomes simplesmente cómicos quando traduzidos: Marathon ("Maratona"), Holiday ("Férias"), Frostproof (literalmente "À prova de gelo"), Fruitland Park ("Parque da Terra das Frutas"), Niceville ("Terra Simpática") e Lazy Lake ("Lago Preguiçoso").
Claro que a minha cidade preferida da Florida é Tavares, apelido de alguém que os leitores bem conhecem.
O Pedro, a Cláudia e eu decidimos formar uma parceria bloguística sob o título Sofa Station. As razões para o nome variam segundo os participantes e só depois de concordarmos no nome é que percebemos os múltiplos significados da palavra "estação" em português.
O Sofa Station é um local de encontro de amigos que raramente se vêem, e por isso escolhem formato blog para trocarem ideias e manterem contacto entre si. Em português, a Estação do Sofá também é como as estações do ano: varia em termos de temperatura, clima e pressão atmosférica.
Para iniciar as hostilidades, escrevi uma entrada sobre a Lei nº37/2007, de 14 de Agosto, mais conhecida como "lei do tabaco". É o meu regresso às opiniões polémicas e temas fracturantes com o post Uma bacalhoada sem fumo, por favor. Já não escrevia assim desde o tempo do meu blog Angústias de um Professor...
Comecei a ouvir música erudita no berço. Afirmam os meus pais que eu chorava ao ouvir o célebre "Adagio em Sol menor" (ouvir) de Tomaso Albinoni a tocar no gira-discos. Não me lembro disso, é claro; mas recordo os discos de vinil que o meu pai tocava quando eu tinha 7 ou 8 anos. As valsas da família Strauss, as sonatas para piano de Beethoven, os études de Chopin e as aberturas de óperas de Rossini e Wagner. É destas raízes que desponta o meu amor pela música, tanto como ouvinte como coleccionador.
Hoje em dia, a minha colecção conta com três centenas de cds de música erudita, incluindo todos os sub-géneros: barroco, clássico, romântico, pós-romântico e contemporâneo. É difícil identificar os meus compositores favoritos (são tantos!). Destaco dois de cada género: Vivaldi e Bach (período barroco), Mozart e Krommer (período clássico), Beethoven e Wagner (período romântico), Sibelius e Rachmaninoff (período pós-romântico) e Glass e Pärt (período contemporâneo).
Quanto às minhas peças favoritas, a escolha é uma tarefa "mastodôntica", mas aqui fica uma selecção abreviada, por período:
Período Barroco: Adagio em Sol menor - Tomaso Albinoni (arranjo de Remo Giazotto) Canon em Ré Maior - Johann Pachelbel (ouvir)
Período Clássico: Requiem - Wolfgang A. Mozart (ouvir excerto) Sinfonia nº39 - Wolfgang A. Mozart (ouvir Menuetto-3º andamento) Concerto para Piano e Orquestra nº 20 em Ré menor K.466 - Wolfgang A. Mozart (ouvir excerto do Allegro-1º andamento)
Período Romântico: Concerto para Trompete e Orquestra em Mi bemol Maior - Joseph Haydn (ouvir 3º andamento-Allegro) Concerto para Piano e Orquestra nº 5 em Mi bemol Maior, Op. 73 - Ludwig Van Beethoven (ouvir excerto Rondo. Allegro.-3º andamento) Sonata Nº 14 em Dó sustenido menor, Op. 27 nº2 "Moonlight" - Ludwig Van Beethoven (ouvir 3º andamento) Quinteto em Lá Maior, D. 667 "A Truta" - Franz Schubert (ouvir 4º andamento) Sheherazade (Suite Sinfónica), Op. 35 - Rimsky-Korsakov (ouvir excerto) Abertura da ópera William Tell - Giacomo Rossini (ouvir excerto) Abertura da ópera Tannhäuser - Richard Wagner (ouvir excerto) A Morte de Siegfried e Marcha Fúnebre (da ópera O Crepúsculo dos Deuses) - Richard Wagner (ouvir)
Período Pós-Romântico: Concerto para Piano e Orquestra nº 3 em Ré menor, Op. 30 - Sergei Rachmaninoff (ouvir excerto do 1º andamento) Concerto para Piano e Orquestra nº 3, Sz 119 - Béla Bartók (ouvir Allegretto-1º andamento) Concerto para Violino e Orquestra em Ré menor, Op. 47 - Jean Sibelius (ouvir Allegro Moderato-1º andamento) Prelude à l'aprés midi d'un faune - Claude Debussy (ouvir)
Período Contemporâneo: Sinfonia nº 3, Op.36 "Symphony of Sorrowful Songs" - Henryk Górecki (ouvir 3º andamento) Spiegel Im Spiegel - Arvo Pärt (ouvir) Fratres - Arvo Pärt (ouvir) Different Trains - Steve Reich (ouvir excerto) Short Ride in a Fast Machine - John Adams (ouvir) Metamorfoses - Philip Glass (ouvir Metamorfose 2)
Se a minha lista de cds causou algumas surpresas, a lista das 10 canções do ano também vai surpreender. Ao K. tenho a dizer que conheço pouco dos LCD Soundsystem e a lista só reflecte cds sobre os quais tenho opinião formada. Já relativamente aos Radiohead, digo ao Vasco que me parece mais do mesmo.
De todas as listas que vi publicadas na Internet em sites de música, muitas mencionam Panda Bear, Arcade Fire e Blonde Redhead. Poucas mencionam Bright Eyes e Andrew Bird. Todas ignoram Björk (uma tremenda injustiça!), Amiina (pelas semelhanças com Sigur Ròs) e Autumn Shade (por desconhecimento). Rufus Wainwright merece uma referência especial. Sendo este o seu quinto álbum, é também o mais brilhante. As orquestrações grandiosas, a emoção da voz e a paixão das letras justificam a minha escolha. O desprezo dos outros fica a dever-se, muito provavelmente, à atitude contestatária e quase anti-patriota de algumas canções ("Going to a town", por exemplo).
Aqui ficam as melhores do ano:
1. Antichrist Television Blues – Arcade Fire Se Bruce Springsteen escrevesse canções sobre religião soaria assim. Um poema gigante, em dimensão e conteúdo: críticas ao fanatismo religioso (evangélico, islâmico…), Torres Gémeas, exploração de crianças para fins religiosos (leia-se €€€€€ ou $$$$$$). Win Butler e os Arcade Fire, mestres do apocalipse… Ouvir: Aqui
4. Sparrow/Home – Autumn Shade A primeira vez que ouvi esta música pensei que tinha sido gravada num celeiro de tamanho gigantesco. Depois de saber que os Autumn Shade são de Tulsa, Oklahoma, tenho a certeza que foi gravada num celeiro. Jes Lenee é a descoberta musical do ano. Ouvir Home:Aqui Ouvir o disco Ezra Moon: http://www.autumn-shade.com/
7. Going to a Town – Rufus Wainwright Ok, esta não ganha o prémio de popularidade entre os americanos. Acontece que nós somos europeus e, política à parte, uma boa canção basta. Ver e ouvir: http://www.youtube.com/watch?v=dUIsQo4K70Y
1. Neon Bible - Arcade Fire 2. Release the Stars - Rufus Wainwright 3. Ezra Moon - Autumn Shade 4. Armchair Apocrypha - Andrew Bird 5. Kurr - Amiina 6. We Are Him - Angels of Light 7. Volta - Björk 8. Cassadaga - Bright Eyes9. Person Pitch - Panda Bear 10. North Star Deserter - Vic Chesnutt Menções Honrosas: Ghost Will Come and Kiss Our Eyes - Hrsta Ongiara - Great Lake Swimmers Palo Santo - Shearwater You, You're a History in Rust - Do Make Say Think 23 - Blonde Redhead