segunda-feira, setembro 22, 2008

1974. New Skin for the Old Ceremony - Leonard Cohen

A maioria dos aficionados de Leonard Cohen dirá que esta é uma escolha estranha. Cohen tem vários discos excelentes, começando no final dos anos 60 (Songs of Leonard Cohen, 1967, Songs from a Room, 1969 e Songs of Love and Hate, 1970), passando pelos anos 80 (Various Positions, 1984 e I'm Your Man, 1988) e até ao início dos anos 90 (The Future, 1992). A escolha de New Skin for the Old Ceremony para 1974 prende-se com questões de humildade. Ser músico e ser humilde era coisa rara em 1974. A grandiosidade dos arranjos, os excessos da instrumentação, os sintetizadores vertiginosos dominavam os tops com os Pink Floyd, Genesis, Yes, entre muitos outros do mesmo género. O próprio Cohen teria um colapso do mesmo tipo com o embaraçoso Death of a Ladies Man, 1977.

Mas em New Skin, o prato servido pelo canadiano vintage tem uma receita muito mais simples. Temas curtos, instrumentos acústicos e a voz de Cohen a entoar poemas sobre amar, viver e deixar. Os inegáveis méritos de Cohen enquanto poeta romântico são realçados pela música que o acompanha. Aqui, como em mais lado nenhum, percebe-se imediatamente que as letras são escritas antes da música e ainda bem para todos nós! Na abertura de Is This What You Wanted, Cohen diz ao que vem:

"You were the promise at dawn,
I was the morning after.
You were Jesus Christ my Lord,
I was the money lender.
You were the sensitive woman,
I was the very reverend Freud.
You were the manual orgasm,
I was the dirty little boy."

Assim mesmo, sem meias palavras. Se é apreciador(a) de poesia vai deliciar-se com Chelsea Hotel, Field Commander Cohen, There is a War e, o meu favorito, Who By Fire. Estranhamente, foi Lover Lover Lover, aqui numa interpretação despojada, que me encaminhou para Leonard Cohen há já quase duas décadas, quando Ian McCulloch (vocalista dos Echo & The Bunnymen) gravou o tema a solo e o tornou um êxito indie dos meus 18 anos.

Projecto 200 anos de música. A ideia é simples. Ao longo de duzentas entradas, o Piano na Floresta vai listar duzentas obras musicais, uma por cada ano, iniciando a contagem decrescente a partir do ano 2000. Se tudo correr conforme planeado, será possível identificar um disco ou uma obra composta em cada um dos anos no intervalo entre o ano 1800 e o ano 2000. Não há limitações de género musical. A qualidade e a reputação da obra não constituem critério de escolha, embora se entenda que ela é, de algum modo, representativa do ano em questão.

quinta-feira, setembro 11, 2008

1975. Nighthawks at the Diner - Tom Waits


Os alucinogénios alimentaram a produção literária de Huxley. Bukowski era incapaz de escrever uma linha sem a companhia da garrafa. O ópio era o motor do génio de Burroughs. E até os Beatles só foram verdadeiramente geniais com a ajuda do LSD e da Cannabis. A ideia recorrente de que a genialidade depende da ingestão em quantidades desmesuradas de substâncias aditivas incomoda-me. Desde que casei e adoptei um saudável horário de trabalho que a única substância que consumo em doses excessivas é a cafeína. Inspira-me a actividade científica e académica, mas temo que os resultados em termos de crítica musical sejam deprimentes, como o poderá comprovar esta crónica vazia de ideias.

Este intróito serve para manifestar a minha inveja pelo estado de embriaguez permanente de Tom Waits quando produziu esta obra magistral, gravada ao vivo em 1975, entre uma mão cheia de privilegiados, num estúdio em Hollywood, Califórnia. O ambiente no estúdio lembra-nos um piano bar fumarento, pintado com cortinas de veludo roxo e decorado com fregueses colados ao balcão, face a um empregado entediado pela ausência de gorjetas que compensem o diálogo mantido com as moscas de bar embriagadas.

Mas há sempre a possibilidade de eu estar enganado quanto a este ambiente. O título do disco – Nighthawks at the Diner – é inspirado pelo fabuloso quadro do pintor do realismo americano Edward Hopper. A representação da luz, a nostalgia da América passada e a separação entre o espaço interior, mais acolhedor, e o espaço exterior, mais hostil, ajudam a melhorar o imaginário que acompanha o disco de Waits. (A propósito de Hopper, se um dia ganhar o Euromilhões, compro um original.)

Depois há esse detalhe das canções. Ainda não falei delas. Piano e voz bastam a este crooner genial, que não necessita de exposição mediática para se fazer rodear por uma legião de admiradores. Mas a banda que o acompanha, torna todo este affair ainda mais apetecível, na linha de um excelente clube de jazz que não tem hora prevista de fecho. As longas explicações entre canções são momentos hilariantes, ao nível do melhor cómico de stand-up: “Conheço uma mulher que já casou tantas vezes que até tem marcas de arroz na cara.” Pois… para isso é preciso viver muito e de modo especial, mais ou menos a história de vida do músico. Tom Waits não precisa de elogios; precisa que o ouçamos a viver.

Nighthawks at the Diner (1942) by Edward Hopper

Projecto 200 anos de música. A ideia é simples. Ao longo de duzentas entradas, o Piano na Floresta vai listar duzentas obras musicais, uma por cada ano, iniciando a contagem decrescente a partir do ano 2000. Se tudo correr conforme planeado, será possível identificar um disco ou uma obra composta em cada um dos anos no intervalo entre o ano 1800 e o ano 2000. Não há limitações de género musical. A qualidade e a reputação da obra não constituem critério de escolha, embora se entenda que ela é, de algum modo, representativa do ano em questão.

terça-feira, setembro 09, 2008

Impressões de Boston


Para uma grande cidade americana, Boston é diferente do habitual. É mais antiga, mais compacta e, de certo modo, mais europeia. Depois de já ter estado nas "capitais da dispersão urbana" como Los Angeles, Atlanta ou Denver, posso afirmar que Boston é completamente distinta. As pessoas caminham mais do que é usual, as lojas são mais pequenas e os prédios têm pátios frontais decorados com flores e relva. Ao contrário de muitas outras cidades americanas, que se encontram divididas em zonas comerciais, industriais e residenciais, Boston possui bairros (Back Bay, South End, Beacon Hill, North End e, claro, Cambridge) onde os habitantes trabalham, estudam, comem e dormem sem serem necessárias grandes deslocações.

Para o visitante desprevenido, a maior dificuldade reside na noite. Boston é uma cidade muito escura, com iluminação pública deficiente e atravessada por becos estreitos e sinistros a lembrar o East End londrino dos tempos do estripador. Só "public alleys" são mais de 400 (!), a julgar pela numeração que os acompanha. Um amigo italiano que aqui vive há alguns anos diz que Boston é uma cidade gótica, talvez por lhe fazer lembrar as cidades alemãs de menor dimensão que ainda preservam arquitectura antiga.

quarta-feira, setembro 03, 2008

Mau Tempo nos Açores

Aqui estou eu de regresso, após uma longuíssima ausência em relação íntima com o Atlântico, primeiro nos Açores e depois em Boston. Mas já lá vamos...
Alguém me explica a razão pela qual a meteorologia do continente prevê, durante o ano inteiro, céu muito nublado e/ou chuva para os Açores? Tinha algumas suspeitas que essas previsões eram uma treta e os meus receios confirmaram-se. Estive uma semana nas ilhas da Terceira e do Faial e a única água doce com que tive que lidar foi a da piscina. Elevada humidade no ar, temperatura amena, sol... os Açores parecem um paraíso tropical. Só faltam mesmo as praias com areia branca e palmeiras. Até a água do mar é transparente como um vidro! Imagine-se até que eu, que cultivo a pele alva e uma certa aversão saudável ao sol, regressei semi-moreno!
Serão as previsões dos meteorologistas um truque para evitar excesso de procura? Ambas as ilhas são divinas e as cidades de Angra (Terceira) e Horta (Faial) são óptimos destinos turísticos, cada uma à sua maneira. Angra do Heroísmo é uma cidade organizada, limpa, com uma arquitectura encantadora, ou não fosse ela património da humanidade. Horta destaca-se pela hiper-movimentada marina, que domina toda a baía e é visível de qualquer local da cidade, que trepa pela encosta. Olhar para o fundo da marina e ser capaz de vislumbrar cardumes de peixe através da água límpida é surpreendente, tanto mais que se trata de uma das marinas mais cosmopolitas da Europa, ponto de passagem de milhares de embarcações provenientes dos quatro cantos do mundo. O peixe fresco, das mais variadíssimas espécies, cozinhado de múltiplas maneiras, a tenra e suculenta alcatra e os doces e sumarentos ananazes tornaram ainda estas férias numa experiência gastronómica cheia de pequenos prazeres.
Pela amostra, a região autónoma dos Açores é o mais próximo que Portugal possui de um paraíso tropical. O desenvolvimento sustentável que parece caracterizar a região, é indicador da excelente utilização da autonomia regional e permite manter uma ténue fé na classe política. Afinal, parece que nem todos os políticos destroem os territórios pelos quais são responsáveis...

segunda-feira, agosto 11, 2008

Destino: Férias

Roubado aqui

Ao contrário do que possa parecer ultimamente, este blogue também é dedicado a viagens. Com a chegada das férias foi necessário escolher o destino. Desta vez, inspirado em Vitorino Nemésio, o Piano adoptou o lema Vá para fora cá dentro, infinitamente superior ao Allgarve:

"Como homens, estamos soldados historicamente ao povo de onde viemos e enraizados pelo habitat a uns montes de lava que soltam da própria entranha uma substância que nos penetra. (...) A geografia, para nós, vale outro tanto como a história."

"Meio milénio de existência sobre tufos vulcânico, por baixo de nuvens que são asas e de bicharocos que são nuvens, é já uma carga respeitável de Tempo."

Vitorino Nemésio

sábado, agosto 09, 2008

1976. Sinfonia Nº 3, Op. 36 - Henryk Górecki

Por esta altura, o leitor de blogues, mais rápido no gatilho do que a sua própria sombra, já fechou este blog. Ainda assim, para aqueles que ficaram, é devida uma explicação. São duzentas entradas sobre música ao longo de duzentos anos, pelo que em algum momento teríamos de começar a falar de "música clássica" ou, mais apropriadamente designada, música erudita.

Como explicar o que se sente ao ouvir a Sinfonia nº3, composta em 1976 pelo polaco Henryk Górecki? Uma tristeza infinita. Em linguagem popular, é uma obra capaz de fazer chorar as pedras da calçada e, talvez por isso, não seja adequada a todos os momentos. É preciso uma disposição especial, uma alma triste, para apreciar na plenitude esta peça.

O minimalismo harmónico que caracteriza toda a obra cria uma sensação de angústia sufocante, ampliada pela densidade na utilização de cordas e uma soprano única. No terceiro andamento, em particular entre os 9 e os 14 minutos, a repetição do mesmo tema, minuto após minuto, é uma experiência hipnótica inolvidável, colocando o ouvinte perante uma melodia semelhante a um loop interminável. (Nota: Para os conhecedores da obra de Current 93, Sleep Has His House, igualmente elegíaca e dedicada ao falecido pai de David Tibet tem uma estrutura semelhante.)

A sonoridade é fúnebre do início ao fim, ajustada aos poemas que constituem a secção lírica da obra. O primeiro andamento demora uns longos 28 minutos e inicia-se com um cânone para cordas em crescendo de intensidade. Por volta dos 13 minutos entra uma canção de lamento inspirada num poema polaco do século XV em que Maria, mãe de Jesus, expressa a sua angústia perante o filho às portas da morte e implora-lhe que partilhe com ela a sua dor. Após o final do poema lírico, o cânone para cordas regressa, desta vez decrescendo em intensidade até terminar numa única linha melódica igual à inicial.

O segundo andamento tem um registo Lento e Largo, soando ligeiramente menos fúnebre, embora o poema seja igualmente trágico. Trata-se de uma oração inscrita na parede de uma cela no quartel general da Gestapo na cidade de Zakopane (Polónia) por uma prisioneira polaca de 18 anos que solicita a protecção da Mãe do Céu. O poema do terceiro andamento retrata uma mãe que aguarda o regresso do seu filho da guerra. A mãe pressente que o filho morreu, mas a ausência do corpo agrava a sua angústia, temendo que o filho não descanse em paz.

Talvez seja surpreendente para os leitores, mas esta sinfonia é um best-seller, tendo vendido mais de um milhão de cópias e tornando-se uma das obras mais populares de um compositor do século XX. Apesar da tendência para interpretar o seu significado como ligado ao cristianismo ou para utilizar a sinfonia como homenagem às vítimas do Holocausto, o próprio Gorécki rejeitou estas interpretações mais restritas da obra, insistindo que se trata simplesmente de uma "sinfonia de canções tristes ou de lamentos" (subtítulo da obra: Symphony of Sorrowful Songs).



Referências:
Symphony Nº3, Op. 36 (Symphony of Sorrowful Songs)
Zofia Kilanowicz (Soprano); Polish National Radio Symphony Orchestra (Katowice); Antoni Wit (Director de Orquestra) Ed. Naxos 8.550822


http://en.wikipedia.org/wiki/Symphony_No._3_(G%C3%B3recki)

Projecto 200 anos de música. A ideia é simples. Ao longo de duzentas entradas, o Piano na Floresta vai listar duzentas obras musicais, uma por cada ano, iniciando a contagem decrescente a partir do ano 2000. Se tudo correr conforme planeado, será possível identificar um disco ou uma obra composta em cada um dos anos no intervalo entre o ano 1800 e o ano 2000. Não há limitações de género musical. A qualidade e a reputação da obra não constituem critério de escolha, embora se entenda que ela é, de algum modo, representativa do ano em questão.

quarta-feira, agosto 06, 2008

1977. Low - David Bowie

David Bowie é conhecido pelo "camaleão" da música pop-rock, devido à sua capacidade para se reinventar tanto a nível musical como em termos de imagem. Uma dessas reinvenções, aquela que foi, na minha opinião, a mais marcante, ocorreu com Low gravado e editado em 1977. No ano anterior, Bowie havia lançado Station To Station, um álbum que indiciava uma crise de inspiração e fazia temer pela qualidade do seu sucessor.

Depois de muitas obras de música popular marcantes na década de 60 e no início da década de 70, em meados da década, a imagem começava a sobrepor-se à música. Com o disco e com o punk em extremos opostos, era mais importante a maneira como os músicos vestiam do que a música que faziam. Bowie fez precisamente o percurso inverso. Com uma imagem muito mais sóbria, a música toma aqui a "boca de cena".

Low é igualmente marcante pelas influências que vai gerar. Os Joy Division serão a face mais visível dessa influência, mas muitas outras bandas de finais de 70 e início de 80 utilizam os sintetizadores de uma forma semelhante. O disco alterna instrumentais com temas minimalmente cantados, o que representa uma novidade radical do próprio Bowie. Os temas mais relevantes são Sound and Vision (por ser o 'hit' do álbum), Always Crashing In The Same Car, A New Career In A New Town e Warszawa.

Bowie deslocou-se a Berlim para gravar este disco, tal como viria acontecer com os dois seguintes (Heroes e Lodger). O optimismo e os exageros musicais do início dos anos 70 dão aqui lugar a um disco revolucionariamente sóbrio. A electrónica exagerada do rock progressivo, que Bowie sempre rejeitou, é substituída por uma utilização sóbria, mas eficaz, dos sintetizadores, que valorizam a criação de ambientes e paisagens sonoras de uma beleza sem precedentes.

Sound and Vision ao vivo aqui: http://www.youtube.com/watch?v=GYEOlxcirX0

Esta crónica foi publicada originalmente na Rede 2020.

Projecto 200 anos de música. A ideia é simples. Ao longo de duzentas entradas, o Piano na Floresta vai listar duzentas obras musicais, uma por cada ano, iniciando a contagem decrescente a partir do ano 2000. Se tudo correr conforme planeado, será possível identificar um disco ou uma obra composta em cada um dos anos no intervalo entre o ano 1800 e o ano 2000. Não há limitações de género musical. A qualidade e a reputação da obra não constituem critério de escolha, embora se entenda que ela é, de algum modo, representativa do ano em questão.

segunda-feira, agosto 04, 2008

1978. Real Life - Magazine

O disco estava no auge. É o ano em que os Boney M. lançam alguns dos seus vómitos mais famosos (Rivers of Babylon e Rasputin), Rod Stewart tem delírios em Do Ya Think I'm Sexy e os Village People editam o medonho YMCA. Nesta conjuntura altamente adversa à música, é difícil encontrar alguma coisa de jeito. Aliás, 1978 arrisca-se a ficar para a história como o pior ano de sempre em termos musicais. As poucas excepções são a estreia de Siouxsie and the Banshees com o álbum The Scream, o segundo álbum dos Japan de David Sylvian (Obscure Alternatives), The Man Machine dos Kraftwerk, e o absolutamente contra-corrente Sultans of Swing dos Dire Straits. Tirando estes momentos de brilhantismo, cada um no seu género, o resto é tudo muito, muito mau.

A minha escolha para ilustrar o ano de 1978 não é, pelas razões apontadas, do conhecimento geral. Os Magazine são a banda de Howard DeVoto (ex-Buzzcocks) e Barry Adamson (que viria a trabalhar com Nick Cave nos Bad Seeds) e praticavam uma mistura de punk-rock-new wave, se é que tal coisa alguma vez existiu. A electrónica está presente em doses saudáveis, mas não desfoca o que é central numa banda de rock. A estrutura dominante continua a ser a ligação baixo-bateria-guitarra eléctrica e as canções são directas e sem gordura. Os Magazine ainda são uma banda punk na atitude, mas já são new wave na expressão melódica.

Não alheios ao contexto da época, os Magazine editaram Shot By Both Sides como single, um tema muito marcadamente "punk", mas o legado de Real Life encontra-se mais na semente de mudança que lança do que propriamente no seu destaque no contexto da época. O disco é composto por nove temas, dos quais se destacam Definitive Gaze, My Tulpa e The Light Pours Out of Me. Há ainda um piscar de olho a David Bowie em Burst, um teclado a imitar um cravo do século XVIII em Motorcade e uma valsinha diabólica, que bem podia ter sido escrita pelos Bauhaus, em The Great Beautician in the Sky.

Em resumo, Real Life não é um grande álbum, mas é um disco que ouço regularmente, o que, numa colecção de dois milhares, já não significa pouco! O You Tube é a porta para o passado e aí encontrei duas preciosidades:
1. The Great Beautician in the Sky
:

2. Definitive Gaze (numa versão adulteradíssima em relação ao original):


Projecto 200 anos de música. A ideia é simples. Ao longo de duzentas entradas, o Piano na Floresta vai listar duzentas obras musicais, uma por cada ano, iniciando a contagem decrescente a partir do ano 2000. Se tudo correr conforme planeado, será possível identificar um disco ou uma obra composta em cada um dos anos no intervalo entre o ano 1800 e o ano 2000. Não há limitações de género musical. A qualidade e a reputação da obra não constituem critério de escolha, embora se entenda que ela é, de algum modo, representativa do ano em questão.

sexta-feira, agosto 01, 2008

1979. London Calling - The Clash

Certo dia, no meu 8º ano, entra na minha sala um colega com um triplo álbum em vinil. Um triplo álbum?! Mas que banda teria semelhante coragem? Era Sandinista!, dos sempre corajosos The Clash. Corajosos a cobrar o preço de um vinil simples pelos seus duplos e triplos álbuns. Corajosos a assumir que o punk tinha começado em 1976 e acabado em 1977 e que o melhor era evoluir.

Nas festas de garagem dos meus 18 anos, London Calling, Spanish Bombs, The Guns of Brixton e Train in Vain eram temas de passagem obrigatória, numa altura em que a adolescência procuram viver o dia-a-dia despreocupadamente e sem expectativas em relação ao futuro. Pop, rock, reggae e ska dominam toda a obra, mas a mistura de géneros que os The Clash eram capazes de colocar em disco só atingiria o seu zénite em Sandinista!

London Calling é considerado pela generalidade dos críticos um disco perfeito. Na reedição que celebra os 25 anos do disco, a sempre exigente Pitchfork Media dá-lhe a pontuação perfeita (10.0). Na minha opinião, é o melhor disco feito por uma banda punk-rock (supostamente). Apresenta temas musicalmente fortes, sustentados numa fusão dos géneros pop, rock e reggae, e aborda os assuntos mais delicados no momento conturbado em que Margaret Thatcher assume o poder: desemprego, drogas, violência interracial e terrorismo independentista. É um excelente manifesto político, no qual a violência das letras se sobrepõe à suposta violência do punk. Em London Calling, os Clash transformam-se numa banda para quem a mensagem é mais importante do que o nihilismo do punk, e esse é, certamente, um sinal de inteligência.

The Clash - London Calling


The Clash - Rudie Can't Fail


The Clash - Train in a vain


Projecto 200 anos de música. A ideia é simples. Ao longo de duzentas entradas, o Piano na Floresta vai listar duzentas obras musicais, uma por cada ano, iniciando a contagem decrescente a partir do ano 2000. Se tudo correr conforme planeado, será possível identificar um disco ou uma obra composta em cada um dos anos no intervalo entre o ano 1800 e o ano 2000. Não há limitações de género musical. A qualidade e a reputação da obra não constituem critério de escolha, embora se entenda que ela é, de algum modo, representativa do ano em questão.

domingo, julho 27, 2008

1980. Closer - Joy Division

Sobre Closer (1980), Miguel Esteves Cardoso escreveu:

"Closer é limpidamente belo - tem a transparência silenciosa da solidão, sem nunca se transformar em auto-compaixão ou sentimentalismo. É o momento em que nos damos fé duma tristeza insolúvel, e da futilidade de a combater. Não há revolta - apenas um lento despertar, corajosamente assumido e aceitado. O encanto principal dos Joy Division não é o virtuosismo, ou sequer a criatividade da música - é, sobretudo, uma inesquecível sinceridade, despida de efeitos especiais, que se transmite, dir-se-ia por osmose sensível, a quem a ela se expõe." (publicado originalmente em O Jornal, 11 de Novembro de 1980)

Dois anos depois, o mesmo Miguel afirmava:

"E quem for até Closer logo verá estar parado num extremo, numa colina diante outra inalcançável imensidão. É o cabo da Roca do pequeno continente Pop."
(publicado originalmente em O Jornal, 8 de Abril de 1982)

O suicídio de Ian Curtis, 2 meses antes do lançamento póstumo de Closer, bastaria para eternizar o segundo e último disco de originais da banda, mas o conteúdo marcaria uma geração de músicos, tal como The Velvet Underground & Nico (o famoso álbum da "banana") havia feito nos anos 60. The Cure, Echo & The Bunnymen, Cocteau Twins, Dead Can Dance, The Pixies, e muitos, muitos outros têm uma dívida de gratidão e prestam homenagem aos Joy Division.

É difícil descrever por palavras algo que só pode ser sentido ouvindo a banda. A inacreditável batida hipnótica de Heart and Soul é um prenúncio da Madchester, do Ecstasy e do Apocalipse. The Eternal é o mais próximo que uma banda rock alguma vez esteve de compor uma marcha funébre. Passover é um passaporte (ou uma lente de aumento) para a depressão:

This is the crisis I knew had to come,
Destroying the balance I'd kept.

Doubting, unsettling and turning around,

Wondering what will come next.

Is this the role that you wanted to live?

I was foolish to ask for so much.

Without the protection and infancy's guard,

It all falls apart at first touch.


A última faixa - Decades - pega no David Bowie de Low (1977) e anuncia a mudança. É o prelúdio da sonoridade que os New Order tão bem iriam explorar durante os anos 80 e um débil assomo de luminosidade num disco mergulhado na escuridão.

  1. Atrocity Exhibition – 6:06
  2. Isolation – 2:53
  3. Passover – 4:46
  4. Colony – 3:55
  5. A Means to an End – 4:07
  6. Heart and Soul – 5:51
  7. Twenty Four Hours – 4:26
  8. The Eternal – 6:07
  9. Decades – 6:10




Projecto 200 anos de música. A ideia é simples. Ao longo de duzentas entradas, o Piano na Floresta vai listar duzentas obras musicais, uma por cada ano, iniciando a contagem decrescente a partir do ano 2000. Se tudo correr conforme planeado, será possível identificar um disco ou uma obra composta em cada um dos anos no intervalo entre o ano 1800 e o ano 2000. Não há limitações de género musical. A qualidade e a reputação da obra não constituem critério de escolha, embora se entenda que ela é, de algum modo, representativa do ano em questão.

sexta-feira, julho 25, 2008

1981. Crumbling the Antiseptic Beauty - Felt

Ao longo de um período de 10 anos, os Felt editaram 10 álbuns e 10 singles tornando-se conhecidos pelas melodias suaves, longos títulos e álbuns de reduzida extensão. Sobre a música, pode dizer-se que é o lado mais optimista do pós-punk urdido em torno da voz suave de Lawrence (sobrenome omitido), do baterista Gary Ainge, da guitarra eléctrica dedilhada de Maurice Deebank e do baixista Nick Gilbert. Crumbling the Antiseptic Beauty (1981) foi o primeiro disco dessa sequência e também um dos mais conseguidos em termos musicais.

Quanto aos longos títulos, os Felt editaram álbuns com nomes tão acessíveis como The Strange Idols Pattern and Other Short Stories (1984), Let the Snakes Crinkle Their Heads to Death (1986) ou Forever Breathes the Lonely Word (1986). Ironicamente, as extensão dos títulos contrasta com a minúscula duração das obras. O representante de 1981 tem 29 minutos e constitui apenas um exemplo da avareza dos elementos da banda no processo criativo.
Em contraste com essa forretice, a sonoridade é aveludada, quase luxuriante, apesar da simplicidade dos instrumentos utilizados. Para isso contribuem a percussão quase tribal presente em muitos temas e certamente herdada do estilo Moe Tucker (Velvet Underground) e a guitarra electrica dedilhada suavemente.


Felt - Primitive Painters

Projecto 200 anos de música. A ideia é simples. Ao longo de duzentas entradas, o Piano na Floresta vai listar duzentas obras musicais, uma por cada ano, iniciando a contagem decrescente a partir do ano 2000. Se tudo correr conforme planeado, será possível identificar um disco ou uma obra composta em cada um dos anos no intervalo entre o ano 1800 e o ano 2000. Não há limitações de género musical. A qualidade e a reputação da obra não constituem critério de escolha, embora se entenda que ela é, de algum modo, representativa do ano em questão.

terça-feira, julho 22, 2008

1982. The Sky's Gone Out - Bauhaus

Nunca houve uma banda igual. Muitos tentaram imitá-los, mas sempre com resultados patéticos. Apesar do que muita gente possa afirmar, The Sky's Gone Out é um excelente álbum, de uma banda incapaz de fazer qualquer coisa de mau. Ok, talvez In the Flat Field (1980) e Mask (1981) sejam discos mais coerentes e musicalmente conseguidos, mas The Sky's Gone Out foi o primeiro que ouvi. Por isso mesmo, foi também o mais marcante.

A abertura com Third Uncle, escrita por Brian Eno, debita energia e uma batida invulgarmente pop. Ouvir Spirit na mesma sequência de Rock the Casbah dos The Clash transporta-me para as festas loucas dos meus 17/18 anos, em que tudo era dançável... e possível!

Silent Hedges é Bauhaus em versão ameaçadora e enigmática: "Following the silent hedges / Needing some other kind of madness / Looking into purple eyes / Sadness at the corners / Works of art with a minimum of steel", com Peter Murphy a berrar "Going to hell again... again... again..." A mistura de guitarra acústica, letras sinistras e voz carismática cria o ambiente sonoro original que justifica o epíteto de inimitável.

O disco é igualmente conhecido pelos momentos de experimentalismo arrojado, como em Swing the Heartache, The Three Shadows ou Exquisite Corpse. Não é música comercial. Nada que possa ser ouvido regularmente nas estações de rádio de grande audiência, mas faz as delícias das rádios universitárias, sempre em busca de surpreender novos ouvintes com terrores nocturnos vindos do passado. Os Bauhaus não são apenas uma banda gótica; são A BANDA GÓTICA POR EXCELÊNCIA!

Projecto 200 anos de música. A ideia é simples. Ao longo de duzentas entradas, o Piano na Floresta vai listar duzentas obras musicais, uma por cada ano, iniciando a contagem decrescente a partir do ano 2000. Se tudo correr conforme planeado, será possível identificar um disco ou uma obra composta em cada um dos anos no intervalo entre o ano 1800 e o ano 2000. Não há limitações de género musical. A qualidade e a reputação da obra não constituem critério de escolha, embora se entenda que ela é, de algum modo, representativa do ano em questão.

domingo, julho 20, 2008

1983. Soul Mining - The The

Para mim não é fácil escrever sobre a New Wave. Nunca fui grande fã de Talking Heads, Police ou Blondie. Dito muito simplesmente, passei directamente do punk dos Clash, Ramones ou Stranglers para o pós-punk de Joy Division, The Cure, Jesus & The Mary Chain, Cocteau Twins e Dead Can Dance. Talvez por essa razão seja difícil explicar o agrado com que, ainda hoje, ouço Soul Mining dos The The (aka Matt Johnson), editado em plena New Wave. Desde o primeiro momento da batida infecciosa de I've Been Waitin' For Tomorrow (All of My Life) se percebe que o primeiro longa duração dos The The é pop para a eternidade.

O próprio conceito de música pop é frequentemente empregue com um cunho pejorativo e preconceituoso, como significando algo que é, na sua essência, transiente. Acontece que, por vezes, há canções de música popular que escapam ao caixote do lixo do esquecimento, sobrevivendo muito para além do prazo de validade apontado. Neste disco há nem mais nem menos do que duas dessas pedras preciosas: This is the Day e Uncertain Smile. Não são apenas canções pop brilhantes; têm o selo da eternidade colocado pelas múltiplas passagens em discotecas celebrando os Anos 80.

O alucinante solo de piano de mais de 3 minutos em Uncertain Smile é obra do conhecidíssimo Jools Holland que, antes de apresentar programas de pop-rock na BBC, mostrava uma veia criativa para além do que o imaginávamos capaz. Ouçam e deliciem-se...

The The - Uncertain Smile

Projecto 200 anos de música. A ideia é simples. Ao longo de duzentas entradas, o Piano na Floresta vai listar duzentas obras musicais, uma por cada ano, iniciando a contagem decrescente a partir do ano 2000. Se tudo correr conforme planeado, será possível identificar um disco ou uma obra composta em cada um dos anos no intervalo entre o ano 1800 e o ano 2000. Não há limitações de género musical. A qualidade e a reputação da obra não constituem critério de escolha, embora se entenda que ela é, de algum modo, representativa do ano em questão.

quarta-feira, julho 16, 2008

1984. The Unforgettable Fire - U2

Lançado em Setembro de 1984, The Unforgettable Fire foi o primeiro disco dos U2 que escutei. Recordo-me que foi no programa da Rádio Comercial TNT - Todos no Top que ouvi a primeira música dos U2, Bad, na sua versão ao vivo incluída no álbum Wide Awake in America. Achei estranhíssimo que uma música com mais de 8 minutos de duração passasse num programa comercial de rádio.

Depois da genialidade de The Joshua Tree ou Achtung Baby, do vanguardismo de Zooropa, da megalomania de Pop e das fraquezas de All That You Can Leave Behind, sabe bem voltar a um disco sem espinhas e sem adornos. The Unforgettable Fire é isso mesmo: um disco simples, directo, cheio de alma irlandesa. Os meus temas preferidos são A Sort of Homecoming, The Unforgettable Fire, Promenade e, claro, o já referido Bad. Enfim, os U2 em versão pré-electrónica e pré-América... para redescobrir.

U2 - Bad


1. A Sort Of Homecoming (5:29)
2. Pride (In The Name Of Love) (3:49)
3. Wire (4:19)
4. The Unforgettable Fire (4:55)
5. Promenade (2:32)
6. 4th Of July (2:15)
7. Bad (6:09)
8. Indian Summer Sky (4:18)
9. Elvis Presley and America (6:22)
10. MLK (2:32)

Projecto 200 anos de música. A ideia é simples. Ao longo de duzentas entradas, o Piano na Floresta vai listar duzentas obras musicais, uma por cada ano, iniciando a contagem decrescente a partir do ano 2000. Se tudo correr conforme planeado, será possível identificar um disco ou uma obra composta em cada um dos anos no intervalo entre o ano 1800 e o ano 2000. Não há limitações de género musical. A qualidade e a reputação da obra não constituem critério de escolha, embora se entenda que ela é, de algum modo, representativa do ano em questão.

domingo, julho 13, 2008

Festival Marés Vivas

Uma pausa no projecto dos 200 anos de música para recomendar o excelente cartaz do Festival Marés Vivas, a ter lugar no próximo fim-de-semana, na cidade em que nasci e vivi durante 18 anos (Vila Nova de Gaia). O Pedro, meu co-blogger do Sofa Station, vai todas as noites. Eu, só poderei estar presente na primeira, uma espécie de noite para "cotas"...

Uma oportunidade para rever Peter Murphy, de quem não esqueço o fabuloso concerto que deu no Festival do Sudoeste em 2003 e que coincidiu com a apresentação do álbum Dust. Naquele tempo, o vocalista dos Bauhaus optava por uma sonoridade com fortes influências do Médio Oriente e, em particular, da Turquia. Agora, independentemente das influências musicais, vale a pena ouvi-lo pela sua voz carismática. All Night Long, uma das minhas favoritas:

Quanto aos Sisters of Mercy, pensei até que já não existiam. Muito marcados pelos anos 80, imagino que toquem sobretudo os grandes êxitos, como Temple of Love, This Corrosion, More e Lucretia My Reflection.

Sisters of Mercy - Marian

Os outsiders desta primeira noite são os Shout Out Louds, uma banda que a publicidade OPTIMUSou. Tonight I Have to Leave It, uma espécie de pastiche dos The Cure, é a única que conheço:

quinta-feira, julho 10, 2008

1985. Seventh Dream of a Teenage Heaven - Love & Rockets

Os Love and Rockets tocaram na passada sexta-feira na edição do Porto do Super Bock Super Rock. Embora construída sobre a reputação dos Bauhaus, a banda teve coragem de fazer algo substancialmente diferente no seu primeiro disco: Seventh Dream of a Teenage Heaven. Não é que não adore Bauhaus, mas criar uma banda para repetir a mesma fómula não teria resultado. Em lugar disso, as paisagens sonoras dos Love and Rockets aproximam-se mais do rock-'n'-roll convencional, embora sem perderem alguma da aura de mistério que sempre envolveu os Bauhaus. (Nota: o único ponto negativo é a capa do disco. Simplesmente horrorosa!)

As melodias oscilam entre o pop psicadélico (A Private Future) e o rock-'n'-roll contemporâneo à la Jesus and The Mary Chain (The Dog-End of Day Gone By). Apesar de mais acessíveis em termos melódicos, os Love and Rockets mantêm um saudável desprezo pelo mainstream musical. A desconcertante alternância entre tons maiores e menores, como acontece em Haunted When the Minutes Drag ou em A Private Future, contribui para deixar a mente perder-se primeiro para se reencontrar um pouco mais adiante. Alguns temas têm registos próximos dos 8 minutos, o que ajuda a considerá-los "impassáveis" na rádio.

O ambiente sonoro do tema título do álbum - Seventh Dream of a Teenage Heaven - é sinistro, claustrofóbico e circular, exactamente à medida das frustrações da adolescência. Por último, há o inacreditável Saudade, aparentemente inspirado pela mais famosa palavra portuguesa que é impossível de traduzir. A introdução de uma secção de cordas em Saudade é de tal modo surpreendente, que no final do disco dá vontade de voltar ao início e para saborear novamente toda aquela substância musical exótica até ao climax final.

Projecto 200 anos de música. A ideia é simples. Ao longo de duzentas entradas, o Piano na Floresta vai listar duzentas obras musicais, uma por cada ano, iniciando a contagem decrescente a partir do ano 2000. Se tudo correr conforme planeado, será possível identificar um disco ou uma obra composta em cada um dos anos no intervalo entre o ano 1800 e o ano 2000. Não há limitações de género musical. A qualidade e a reputação da obra não constituem critério de escolha, embora se entenda que ela é, de algum modo, representativa do ano em questão.

segunda-feira, julho 07, 2008

1986. Your Funeral... My Trial - Nick Cave & The Bad Seeds

Escrever sobre Nick Cave é uma tarefa difícil. Deixo isso para os profissionais. É um génio com a dimensão de um poeta maldito como Blake ou Baudelaire. Mas escrever duzentas entradas sem dedicar uma a Nick Cave seria quase um sacrilégio, sobretudo para quem, entre originais, ao vivo e bootlegs, tem mais de uma dúzia de cds do génio.

Your Funeral... My Trial é uma escolha óbvia. Devorado pela heroína, obcecado pela morte, ambivalente em relação à religião, Nick Cave é torturado por emoções como qualquer ser humano, mas numa intensidade elevada à infinita potência. Não é o melhor disco de Cave, mas está entre os melhores. Traduz a verdadeira personalidade do génio e ajuda a perceber porque razão os Birthday Party eram demasiado limitativos para a criatividade do seu front-man.

A primeira vez que ouvi The Carny, na actuação ao vivo em Der Himmel über Berlin (1987), fiquei com os cabelos em pé. O longo poema aterrorizador de personagens a caminho do inferno é acompanhado por uma charanga demoníaca, com pinceladas psicadélicas, com tudo bem regado pela voz ameaçadora do Blake do século XX. Tudo o resto é relativo quando comparado com este magnum opus. Os poemas de Jack's Shadow, Hard On For Love e Stranger Than Kindness são momentos igualmente inspirados. Este último foi escrito por Anita Lane, musicado por Blixa Bargeld e é cantado por Nick Cave. O labor destas almas trigémeas dá à luz um tema de beleza excepcional e cariz intemporal, como apenas os gigantes podem gerar.

Sou demasiado imperfeito para escrever sobre um génio. Aliás, é duvidoso que alguém consiga descrever por palavras, aquilo que só pode ser sentido através da combinação adequada de ouvidos apurados, mente em expansão e coração selvagem.

Projecto 200 anos de música. A ideia é simples. Ao longo de duzentas entradas, o Piano na Floresta vai listar duzentas obras musicais, uma por cada ano, iniciando a contagem decrescente a partir do ano 2000. Se tudo correr conforme planeado, será possível identificar um disco ou uma obra composta em cada um dos anos no intervalo entre o ano 1800 e o ano 2000. Não há limitações de género musical. A qualidade e a reputação da obra não constituem critério de escolha, embora se entenda que ela é, de algum modo, representativa do ano em questão.

sexta-feira, julho 04, 2008

1987. Kiss Me Kiss Me Kiss Me - The Cure

Comecei a ouvir The Cure aos 16 anos com este álbum. Embora Disintegration seja para mim o ponto mais alto da carreira da banda, foi com Kiss Me Kiss Me Kiss Me que comecei a conhecer e a amar The Cure. Haveria muitos anos, muitos discos e muitos temas para associar The Cure, mas este é o momento decisivo de mudança (para melhor, entenda-se) dos meus gostos musicais. Kiss Me Kiss Me Kiss Me foi lançado como duplo álbum de vinil, sem que isso se notasse na qualidade da música e das letras, o que indicia uma banda inspirada, em plena forma, e sem necessidade de compor música "para encher chouriços".

Para mim, como para tantos adolescentes dessa geração, Just Like Heaven representa o Amor inocente, intenso, repentino, que se ganha num momento e perde inexoravelmente no seguinte. A voz de Robert Smith é apaixonante, a melodia é arrebatada, o poema é perfeito. Sempre que ouço esta canção fico com pele de galinha! Não há meias palavras: Just Like Heaven é uma das melhores canções pop de todos os tempos!

A utilização abundante de sintetizadores, muitas vezes a lembrarem uma secção de cordas, contribui para um som mais preenchido que estava completamente ausente dos primeiros trabalhos originais da banda. Apesar de Just Like Heaven, Catch ou Why Can't I Be You? serem os temas mais conhecidos e assumidamente pop, o duplo-vinil acaba por transpirar uma certa esquizofrenia, incluindo temas na linha do introspectivo e pessimista Pornography como Torture, The Snakepit ou Fight. As relações amorosas são retratadas nas suas mais diversas formas: carnal (All I Want), espiritual (One More Time), sacrificial (Torture) ou surreal (Like Cockatoos).

The Cure - Just Like Heaven


Projecto 200 anos de música. A ideia é simples. Ao longo de duzentas entradas, o Piano na Floresta vai listar duzentas obras musicais, uma por cada ano, iniciando a contagem decrescente a partir do ano 2000. Se tudo correr conforme planeado, será possível identificar um disco ou uma obra composta em cada um dos anos no intervalo entre o ano 1800 e o ano 2000. Não há limitações de género musical. A qualidade e a reputação da obra não constituem critério de escolha, embora se entenda que ela é, de algum modo, representativa do ano em questão.

quinta-feira, julho 03, 2008

1988. Daydream Nation - Sonic Youth

Os Sonic Youth não eram exactamente novatos quando editaram Daydream Nation, o seu sexto álbum de originais. O trabalho de produção gerou uma sonoridade áspera, muito pouco "limpa", que colocou o disco num patamar único de originalidade, acima de toda a chusma de "bandas de guitarras" que pejavam o contexto musical do final da década de 1980. Muito do que os Nirvana ou os Smashing Pumpkins fizeram no início da década seguinte só pode ser encarado como um tributo a este álbum, como facilmente se percebe na influência que exerceram temas como Silver Rocket, Cross the Breeze ou Total Trash.

As referências a ícones da cultura pop são mais que muitas: Jimi Hendrix, Joni Mitchell, ZZ Top, Dinasour Jr., Andy Warhol, entre muitos outros, exercem uma influência nas letras, na música e até nos títulos das músicas (Hey Joni). A capa é memorável! Um quadro de Gerhard Richter intitulado Kerze (1983) imortaliza o momento: uma vela que não se apaga.

Ainda hoje, Daydream Nation não se "apaga". Teen Age Riot é o tema mais conhecido do álbum, quanto mais não seja porque constitui uma espécie de prólogo para Smells Like Teen Spirit dos Nirvana enquanto hino para uma geração de teenagers americanos. O destinatário da revolta é óbvio: a Reagan-nation de Daydream Nation. Os meus preferidos são Cross the Breeze, Candle e o experimentalíssimo Providence.

Sonic Youth - Teenage Riot


Projecto 200 anos de música. A ideia é simples. Ao longo de duzentas entradas, o Piano na Floresta vai listar duzentas obras musicais, uma por cada ano, iniciando a contagem decrescente a partir do ano 2000. Se tudo correr conforme planeado, será possível identificar um disco ou uma obra composta em cada um dos anos no intervalo entre o ano 1800 e o ano 2000. Não há limitações de género musical. A qualidade e a reputação da obra não constituem critério de escolha, embora se entenda que ela é, de algum modo, representativa do ano em questão.

terça-feira, julho 01, 2008

1989. Doolittle - Pixies

Here Comes Your Man e Debaser eram as músicas que toda a gente dançava em 1989. Os Pixies influenciaram uma década e uma geração de músicos e Doolittle fez mais por isso do que qualquer outro álbum. Aqui há um pouco de tudo para todos: new wave (Here Comes Your Man), canções de amor tingidas de surf-pop (La La Love You), punk-rock (Mr. Grieves, Crackity Jones) e proto-grunge (I Bleed, Tame). O estilo musical é inconfundível, mas o género é inqualificável. As letras de Black Francis são estranhas, influenciadas pela Bíblia, pelo surrealismo e por uma drug-induced dementia com resultados excelentes e extravagantes. Nada como ouvir umas amostras para julgar.


The Pixies - Hey


Pixies - Here Comes Your Man


The Pixies - Gouge Away


Projecto 200 anos de música. A ideia é simples. Ao longo de duzentas entradas, o Piano na Floresta vai listar duzentas obras musicais, uma por cada ano, iniciando a contagem decrescente a partir do ano 2000. Se tudo correr conforme planeado, será possível identificar um disco ou uma obra composta em cada um dos anos no intervalo entre o ano 1800 e o ano 2000. Não há limitações de género musical. A qualidade e a reputação da obra não constituem critério de escolha, embora se entenda que ela é, de algum modo, representativa do ano em questão.