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Portrait é o segundo álbum dos The Walker Brothers, que não eram irmãos nem se chamavam Walker: Scott Engel, John Maus e Gary Leeds. À partida, os leitores podem pensar tratar-se de uma boys band da época, mas nada de mais errado. O som que caracteriza a banda é dominado pela voz de barítono de Scott 'Walker' e pela secção de cordas luxuosas que saturam todo o som. Ao produzirem uma versão muito própria da famosa wall of sound, criada pelo conhecidíssimo produtor Phil Spector, os The Walker Brothers viriam a influenciar músicos que merecem hoje o máximo respeito dos seus pares, como sejam os Tindersticks, Divine Comedy ou Nick Cave.
Velvet Underground & Nico - Velvet Underground & Nico (1º álbum)
The Doors - The Doors (1º álbum)
Goodbye and Hello - Tim Buckley (1º álbum)
Forever Changes - Love (3º álbum)
Are You Experienced - Jimi Hendrix Experience (1º álbum)
Their Satanic Majesties Request - Rolling Stones
Surrealistic Pillow - Jefferson Airplane (2º álbum)
Chelsea Girl - Nico (1º álbum a solo)
Projecto 200 anos de música. A ideia é simples. Ao longo de duzentas entradas, o Piano na Floresta vai listar duzentas obras musicais, uma por cada ano, iniciando a contagem decrescente a partir do ano 2000. Se tudo correr conforme planeado, será possível identificar um disco ou uma obra composta em cada um dos anos no intervalo entre o ano 1800 e o ano 2000. Não há limitações de género musical. A qualidade e a reputação da obra não constituem critério de escolha, embora se entenda que ela é, de algum modo, representativa do ano em questão.
Por alguma razão as grandes bandas da música rock se tornaram grandes... No início das suas carreiras fizeram música com que ninguém sonhava. A fase psicadélica dos Pink Floyd é menos conhecida do que a generalidade dos seus trabalhos, mas nem por isso é pouco estimulante. Tal como aconteceria posteriormente, os Floyd iniciais estavam destinados a constituir uma influência para as décadas seguintes.
Miles Davis reinventou o jazz várias vezes ao longo da sua carreira, com o seu pecúlio de álbuns originais a roçar a meia centena. De todas as revoluções que operou, a fusão jazz-rock terá sido a mais radical, e aquela que lhe custou o maior número de fãs do "velho jazz". Bitches Brew (1969) é a face mais alucinante dessa revolução, perfeitamente visível no surrealismo da capa e da música.
Antes de terem a sua reputação musical arruinada pela influência nefasta da carreira a solo de Phil Collins, os Genesis faziam a música mais melódica à face do planeta. Não é apenas um elogio desmesurado da minha parte. Há um espantoso esbanjar de melodias nos primeiros quatro ou cinco álbuns dos Genesis (período de 1970 a 1975) que daria para uma banda pop ter assegurada uma série consecutiva de êxitos de vendas. Os Genesis, porém, articulavam essas melodias em longos temas, pouco ajustados à dimensão de singles, sem se preocuparem com o aparente desperdício melódico presente nos seus LPs de vinil.
O ano de 1971 é especial. O autor deste blog nasceu no mesmo ano em que o quarto álbum dos Led Zeppelin foi lançado. Antes de prosseguirmos, um aviso prévio: não gosto de metal, em qualquer uma das suas formas (heavy metal, death metal, trash metal, rap metal, etc.). Este facto, aparentemente limitador em alguém que adora música, torna esta escolha um facto notável. Na verdade, Led Zeppelin IV, Zoso, ou simplesmente IV, é um dos discos mais influentes para qualquer banda de metal que se preze. Vejamos as razões que conduziram à minha escolha.
As emoções escravizam a razão e retiram discernimento ao mais esclarecido dos intelectuais. Muitos génios musicais foram submetidos à ditadura das paixões, que os impulsionaram a compor obras para a eternidade. Outros, acometidos por depressões severas, caíram na obscuridade após a sua morte, para serem reconhecidos apenas por uma mão-cheia de almas gémeas.
Futurista é o mínimo que se pode dizer deste trabalho de Herbie Hancock, normalmente enquadrado no contexto do movimento de fusão jazz-rock do início dos anos 70. Sublinhe-se fusão jazz-rock (e não rock-jazz), porque a direcção do movimento é relevante na qualidade da música produzida. Quebrando fronteiras no domínio do jazz, muitos músicos com reputação estabelecida, como Miles Davis ou Herbie Hancock, enveredaram por sonoridades rock e funk, tingidas de influências exóticas, nomeadamente das Caraíbas, da América do Sul e de África.
A maioria dos aficionados de Leonard Cohen dirá que esta é uma escolha estranha. Cohen tem vários discos excelentes, começando no final dos anos 60 (Songs of Leonard Cohen, 1967, Songs from a Room, 1969 e Songs of Love and Hate, 1970), passando pelos anos 80 (Various Positions, 1984 e I'm Your Man, 1988) e até ao início dos anos 90 (The Future, 1992). A escolha de New Skin for the Old Ceremony para 1974 prende-se com questões de humildade. Ser músico e ser humilde era coisa rara em 1974. A grandiosidade dos arranjos, os excessos da instrumentação, os sintetizadores vertiginosos dominavam os tops com os Pink Floyd, Genesis, Yes, entre muitos outros do mesmo género. O próprio Cohen teria um colapso do mesmo tipo com o embaraçoso Death of a Ladies Man, 1977.
Os alucinogénios alimentaram a produção literária de Huxley. Bukowski era incapaz de escrever uma linha sem a companhia da garrafa. O ópio era o motor do génio de Burroughs. E até os Beatles só foram verdadeiramente geniais com a ajuda do LSD e da Cannabis. A ideia recorrente de que a genialidade depende da ingestão em quantidades desmesuradas de substâncias aditivas incomoda-me. Desde que casei e adoptei um saudável horário de trabalho que a única substância que consumo em doses excessivas é a cafeína. Inspira-me a actividade científica e académica, mas temo que os resultados em termos de crítica musical sejam deprimentes, como o poderá comprovar esta crónica vazia de ideias.
Nighthawks at the Diner (1942) by Edward Hopper
Por esta altura, o leitor de blogues, mais rápido no gatilho do que a sua própria sombra, já fechou este blog. Ainda assim, para aqueles que ficaram, é devida uma explicação. São duzentas entradas sobre música ao longo de duzentos anos, pelo que em algum momento teríamos de começar a falar de "música clássica" ou, mais apropriadamente designada, música erudita.
David Bowie é conhecido pelo "camaleão" da música pop-rock, devido à sua capacidade para se reinventar tanto a nível musical como em termos de imagem. Uma dessas reinvenções, aquela que foi, na minha opinião, a mais marcante, ocorreu com Low gravado e editado em 1977. No ano anterior, Bowie havia lançado Station To Station, um álbum que indiciava uma crise de inspiração e fazia temer pela qualidade do seu sucessor.
O disco estava no auge. É o ano em que os Boney M. lançam alguns dos seus vómitos mais famosos (Rivers of Babylon e Rasputin), Rod Stewart tem delírios em Do Ya Think I'm Sexy e os Village People editam o medonho YMCA. Nesta conjuntura altamente adversa à música, é difícil encontrar alguma coisa de jeito. Aliás, 1978 arrisca-se a ficar para a história como o pior ano de sempre em termos musicais. As poucas excepções são a estreia de Siouxsie and the Banshees com o álbum The Scream, o segundo álbum dos Japan de David Sylvian (Obscure Alternatives), The Man Machine dos Kraftwerk, e o absolutamente contra-corrente Sultans of Swing dos Dire Straits. Tirando estes momentos de brilhantismo, cada um no seu género, o resto é tudo muito, muito mau.