segunda-feira, dezembro 01, 2008

1965. Rubber Soul - The Beatles

Os Beatles nunca foram uma das minhas bandas favoritas, mas devo reconhecer o seu mérito em atingir diferentes audiências ao longo dos anos, acabando por se tornar no mais famoso agrupamento musical da história. É também importante distinguir os Beatles dos primeiros álbuns, mais comerciais, mais melosos e mais pop, dos Beatles após Rubber Soul, muito mais profundos em termos poéticos e musicais.

Em 1965, longe vão já os tempos de "Love, love me do/You know I love you". Tal não significa que os Beatles se tenham tornado cínicos, o que provavelmente nunca seriam capazes, mas Rubber Soul já não é apenas música pop despreocupada sobre amores correspondidos na adolescência. O tom mudou. O disco é marcado pelas influências da música folk, dos poemas de Bob Dylan e da música do oriente.

Em termos poéticos, o tratamento do amor surge de forma mais pessimista, com relatos ambíguos sobre relações tumultuosas, amores extra-conjugais e vinganças passionais. Embora Norwegian Wood (This Bird Has Flown) constitua o exemplo mais visível das mudanças nas composições da dupla Lennon/McCartney, as canções I'm Looking Through You, Girl e Wait relatam igualmente outro tipo de tensões emocionais presentes numa relação, como sejam as mudanças numa relação produzidas pela passagem do tempo, o desprezo pelo cônjuge em situações sociais ou a distância emocional associada às ausências físicas. A escrita é mais madura e os temas são mais sérios do que era habitual na carreira dos Beatles até então.

Musicalmente, a gama de instrumentos musicais é alargada com a introdução da cítara (Norwegian Wood) e do cravo (In My Life), o que contribui para algum exotismo que sempre valorizo na música pop. Ainda não são as experiências grandiosas, induzidas pelos alucinogéneos, de Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band (1967), mas há definitivamente um progresso que permite vislumbrar uma maturidade em termos de composição e criatividade musical.

Norwegian Wood (mp3)
Nowhere Man (mp3)
Michelle (mp3)
In My Life (mp3)

Projecto 200 anos de música. A ideia é simples. Ao longo de duzentas entradas, o Piano na Floresta vai listar duzentas obras musicais, uma por cada ano, iniciando a contagem decrescente a partir do ano 2000. Se tudo correr conforme planeado, será possível identificar um disco ou uma obra composta em cada um dos anos no intervalo entre o ano 1800 e o ano 2000. Não há limitações de género musical. A qualidade e a reputação da obra não constituem critério de escolha, embora se entenda que ela é, de algum modo, representativa do ano em questão.

sábado, novembro 29, 2008

1966. Portrait - The Walker Brothers

Portrait é o segundo álbum dos The Walker Brothers, que não eram irmãos nem se chamavam Walker: Scott Engel, John Maus e Gary Leeds. À partida, os leitores podem pensar tratar-se de uma boys band da época, mas nada de mais errado. O som que caracteriza a banda é dominado pela voz de barítono de Scott 'Walker' e pela secção de cordas luxuosas que saturam todo o som. Ao produzirem uma versão muito própria da famosa wall of sound, criada pelo conhecidíssimo produtor Phil Spector, os The Walker Brothers viriam a influenciar músicos que merecem hoje o máximo respeito dos seus pares, como sejam os Tindersticks, Divine Comedy ou Nick Cave.

Portrait não é um álbum particularmente diferente dos três editados pela banda nos anos 60. Contém temas originais compostos por Scott (Saturday's Child ou I Can See It Now), alternados com clássicos do jazz e dos blues (Summertime, de Gershwin ou People Get Ready, de Curtis Mayfield). A reedição de que sou orgulhoso proprietário inclui ainda os lados A e B dos singles que foram lançados contemporaneamente ao álbum, dos quais se destaca naturalmente The Sun Ain't Gonna Shine Anymore, uma versão do original dos The Four Seasons, que recebe o tratamento habitual da banda e do seu produtor (Bob Crewe), transformando-o no sucesso que ainda hoje é plenamente reconhecido por quem gosta de clássicos da pop.

A brilhante carreira a solo de Scott Walker demonstra igualmente que o sucesso meteórico da banda não foi casual e se propagou no tempo com uma resistência invulgar, sobretudo no que se poderia pensar ser um estilo musical datado. Talvez a principal explicação para semelhante durabilidade resida na voz de Scott Walker, que considero das mais maravilhosas que já escutei.

The Sun Ain't Gonna Shine Anymore (mp3)

Projecto 200 anos de música. A ideia é simples. Ao longo de duzentas entradas, o Piano na Floresta vai listar duzentas obras musicais, uma por cada ano, iniciando a contagem decrescente a partir do ano 2000. Se tudo correr conforme planeado, será possível identificar um disco ou uma obra composta em cada um dos anos no intervalo entre o ano 1800 e o ano 2000. Não há limitações de género musical. A qualidade e a reputação da obra não constituem critério de escolha, embora se entenda que ela é, de algum modo, representativa do ano em questão.

quarta-feira, novembro 19, 2008

1967. O Melhor Ano de Sempre da Música Popular

O que dizer de 1967? Nunca um único ano gerou tanta música de qualidade. Fortemente coadjuvada pelo consumo maciço de drogas, sobretudo marijuana e LSD, a genialidade deste conjunto de músicos ficaria para a história e influenciaria quase todos os subgéneros musicais e bandas das décadas seguintes.
Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band - The Beatles (8º álbum)
Por várias vezes considerado pela crítica como o melhor álbum de música popular de todos os tempos. A Day in the Life (mp3)
Velvet Underground & Nico - Velvet Underground & Nico (1º álbum)
Da sua influência diz-se que apenas 1000 pessoas adquiriram a edição original, mas quase todas formaram um banda. Capa de Warhol. Heroin (mp3)

The Piper at the Gates of Dawn - Pink Floyd (1º álbum)
Astronomy Domine (mp3) e Interstellar Overdrive deram origem ao subgénero do space rock e transformaram o álbum de estreia dos Floyd numa obra-prima do psicadélico.
The Doors - The Doors (1º álbum)
Música fabulosa tocada e gravada em apenas 6 dias. The End (mp3)
Goodbye and Hello - Tim Buckley (1º álbum)
A voz soturna de Tim Buckley em Phantasmagoria in Two (mp3) é pop deprimente perfeita.
Forever Changes - Love (3º álbum)
O Summer of Love em versão discográfica. Alone Again Or (mp3)
Are You Experienced - Jimi Hendrix Experience (1º álbum)
Tocar guitarra com os dentes e depois pegar-lhe fogo, tanto metafórica quanto literalmente. FoxyLady (mp3)
Their Satanic Majesties Request - Rolling Stones
She's a Rainbow (mp3) desculpa estes dinossauros de todos os seus pecados posteriores.
Surrealistic Pillow - Jefferson Airplane (2º álbum)
Alice cresce e não cresce... Nunca mais olhei para Alice no País das Maravilhas do mesmo modo inocente. White Rabbit (mp3)
Chelsea Girl - Nico (1º álbum a solo)
Música folk de uma fonte inesperada, sobretudo pela influência dos Velvet. I'll Keep It with Mine (mp3)
Projecto 200 anos de música. A ideia é simples. Ao longo de duzentas entradas, o Piano na Floresta vai listar duzentas obras musicais, uma por cada ano, iniciando a contagem decrescente a partir do ano 2000. Se tudo correr conforme planeado, será possível identificar um disco ou uma obra composta em cada um dos anos no intervalo entre o ano 1800 e o ano 2000. Não há limitações de género musical. A qualidade e a reputação da obra não constituem critério de escolha, embora se entenda que ela é, de algum modo, representativa do ano em questão.

segunda-feira, novembro 17, 2008

1968. A Saucerful of Secrets - Pink Floyd

Por alguma razão as grandes bandas da música rock se tornaram grandes... No início das suas carreiras fizeram música com que ninguém sonhava. A fase psicadélica dos Pink Floyd é menos conhecida do que a generalidade dos seus trabalhos, mas nem por isso é pouco estimulante. Tal como aconteceria posteriormente, os Floyd iniciais estavam destinados a constituir uma influência para as décadas seguintes.

Let There Be More Light, tema de abertura do álbum A Saucerful of Secrets, foi recentemente alvo de um plágio descarado pela banda canadiana Hrsta, no tema Swallow's Tail do seu trabalho Stem Stem in Electro. Como o plágio é, segundo dizem, "a melhor forma de elogio", seguramente que a banda de Mike Moya tem uma admiração incontida por este álbum dos Floyd. Para ser inteiramente justo, hoje em dia os músicos inventam muito pouco. Tenho um amigo ainda mais fanático por música do que eu, que afirma que toda a música pop-rock foi inventada nos anos 60. Tudo o que se seguiu foi simplesmente redução, reciclagem e reutilização.
Nesse espírito, A Saucerful of Secrets é, como o próprio nome indicia, um maná de ideias para músicos da actualidade. Corporal Clegg é música de feira com uma guitarra distorcida proto-Pixies. Set the Controls for the Heart of the Sun é marcado pela percussão e pela voz quase sussurada de Roger Waters, sob um suave manto de teclas psicadélicas e um baixo em destaque. É completamente invulgar na sua estrutura: tem um nome longo, ausência de letras, presta-se à improvisação e tornar-se-ia um dos favoritos dos Floyd ao vivo nesta primeira fase da sua carreira. A terminar, Jugband Blues é o opus final de Syd Barrett com os Floyd.

Mas é o tema que dá título ao disco que o torna um produto radical para a era em que foi lançado. Os 12 minutos de A Saucerful of Secrets são uma experiência alucinogénica só ultrapassável por The End dos The Doors. Os primeiros 7 minutos são quase cacofonia sonora, difícil de ouvir para a maioria, mas extremamente interessante enquanto exercício de improvisação dissonante. Cada instrumento - guitarra eléctrica, bateria e piano - assume à vez o papel principal na condução do ouvinte para paisagens sonoras inexploradas no contexto do rock e que só têm paralelo nos trabalhos do compositor de música contemporânea György Ligeti. Por esse motivo, é absolutamente surpreendente que, lá pelos 8 minutos, se inicie uma secção final que suaviza tudo o que se ouve anteriormente. A Saucerful of Secrets é quase uma demonstração de como do caos sonoro pode surgir a música mais celestial e melódica, apenas porque os seus autores assim o desejaram.

Set the Controls for the Heart of the Sun (mp3)
A Saucerful of Secrets (mp3)

Projecto 200 anos de música. A ideia é simples. Ao longo de duzentas entradas, o Piano na Floresta vai listar duzentas obras musicais, uma por cada ano, iniciando a contagem decrescente a partir do ano 2000. Se tudo correr conforme planeado, será possível identificar um disco ou uma obra composta em cada um dos anos no intervalo entre o ano 1800 e o ano 2000. Não há limitações de género musical. A qualidade e a reputação da obra não constituem critério de escolha, embora se entenda que ela é, de algum modo, representativa do ano em questão.

sábado, novembro 15, 2008

Back to Black...

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quarta-feira, novembro 12, 2008

1969. Bitches Brew - Miles Davis

Miles Davis reinventou o jazz várias vezes ao longo da sua carreira, com o seu pecúlio de álbuns originais a roçar a meia centena. De todas as revoluções que operou, a fusão jazz-rock terá sido a mais radical, e aquela que lhe custou o maior número de fãs do "velho jazz". Bitches Brew (1969) é a face mais alucinante dessa revolução, perfeitamente visível no surrealismo da capa e da música.

Escrever sobre este duplo álbum, gravado em 1969, é uma tarefa quase impossível. A música não é melodiosa, previsível ou estruturada. Com duração superior a 20 minutos cada, os dois primeiros temas - Pharaoh's Dance e Bitches Brew - constituem longas improvisações do trompete de Miles Davis sobre um fundo caótico de sonoridades eléctricas, tecidas pelo piano e baixo eléctricos e pelo saxofone soprano. Tentar encontrar padrões melódicos no seio destas imensas improvisações pode ser tarefa hercúlea, sobretudo para ouvidos pouco pacientes para explorar texturas musicais densas.

Pelo que foi escrito no parágrafo anterior, ninguém esperaria que este fosse um best seller. Mas o facto é que Bitches Brew foi o primeiro disco de ouro de Miles Davis, vendendo mais de meio milhão de cópias nos Estados Unidos. Embora não seja um adepto fervoroso da Wikipedia, podem consultar o artigo referente ao álbum para constatarem o seu impacto em termos de inovação, gravação e pós-produção.

Bitches Brew (mp3)
Miles Runs the Voodoo Down (mp3)

Projecto 200 anos de música. A ideia é simples. Ao longo de duzentas entradas, o Piano na Floresta vai listar duzentas obras musicais, uma por cada ano, iniciando a contagem decrescente a partir do ano 2000. Se tudo correr conforme planeado, será possível identificar um disco ou uma obra composta em cada um dos anos no intervalo entre o ano 1800 e o ano 2000. Não há limitações de género musical. A qualidade e a reputação da obra não constituem critério de escolha, embora se entenda que ela é, de algum modo, representativa do ano em questão.

sexta-feira, outubro 31, 2008

Everybody gets a little lost sometimes...

Bairro alto. Galeria ZDB. 30 de Outubro de 2008.

Depois de uma experiência inesquecível com os Godspeed You Black Emperor! há uns anos atrás no Teatro Sá da Bandeira, desta vez assisti a uma versão stripped-down de um colectivo pós-rock: Thee Silver Mount Zion Memorial Orchestra and Tra-la-la Band with Choir.

A banda de Efrim Menuck é extremamente fluida na forma como se apresenta em palco. Desta vez, guitarra eléctrica, bateria, contra-baixo e dois violinos bastaram para interpretar temas dos álbuns mais recentes do colectivo de Montreal. Antes de mais, dizer que é inacreditável que uma banda quase acústica toque tão alto (!), mas acrescentar que a voz dos seus membros contribui para um caos sonoro permanente, que subsiste mesmo nos momentos mais calmos da interpretação. A razão prende-se com o “choir” de que fala o longo nome da banda, que assume a desarmonia das suas vozes como imagem de marca, levando o ouvinte a questionar-se sobre se não se trata de um puro e simples desafinar colectivo, por sinal bastante competente.

Os ASMZ são polémicos e políticos. Os temas longos e as letras particularmente esparsas escondem, por vezes, o carácter contestatário da banda inspirada de Efrim (na foto). God Bless Our Dead Marines é uma marcha fúnebre que expressa a revolta de uma geração contra o instigar do medo do terrorismo pela Administração Bush. As letras não deixam dúvidas sobre a hipocrisia dos líderes face à mortandade da guerra.

There's fresh meat in the club tonight
God bless our dead marines
Someone had an accident
Above the burning trees
While somewhere distant peacefully
Our vulgar princes sleep
Dead kids dont get photographed
God bless this century

God Bless Our Dead Marines demonstra esta veia intervencionista, embora com um cunho pessoal assumido, o que a torna emocionalmente arrasadora. Cantada de forma apaixonada e sofrida, é difícil ficar indiferente à mensagem. Arrepiei-me quando comecei a escutar este crescendo, simultaneamente épico e funéreo:

Lost a friend to cocaine
A couple friends to smack
Troubled hearts map deserts
And they rarely do come back
Lost a friend to oceans
Lost a friend to hills
Lost a friend to suicide
Lost a friend to pills
Lost a friend to monsters
Lost a friend to shame
Lost a friend to marriage
Lost a friend to blame
Lost a friend to worry and
Lost a friend to wealth
Lost a friend to stubborn pride
And then i lost myself

Quanto à música, há claramente pontos de contacto com as bandas mais conhecidas de Montreal e que gravam no mesmo estúdio Hotel 2 Tango, como sejam os Arcade Fire ou os Godspeed You Black Emperor. No entanto, os ASMZ parecem ter dado um passo atrás, recusando entrar em “excessos” melódicos e preferindo a distorção das guitarras, os riffs dissonantes e a cantoria desafinada como imagem de marca. Por isso mesmo, têm um número de fãs mais diminuto e menos afoito que, apesar da recepção calorosa, estiveram longe de entrar em transe ou histeria colectiva. Um concerto eficaz para quem não conhecia a banda, mas que deixa a chorar por mais quem os adora.

Set List:

1. 13 blues for thirteen moons
2. One million died to make this sound
3. God bless our dead marines
4. Take these hands and throw them in the river
5. There is a light
6. Microphones in the trees

domingo, outubro 26, 2008

Momentâneo Lapso da Razão

Até que ponto é que o cultivo da racionalidade tolhe as emoções do ser humano? Se passarmos grande percentagem do nosso tempo de vigília a usar o cérebro, será que sofreremos uma diminuição das nossas capacidades afectivas?

Se coração e razão forem encarados como um terreno de cultivo com uma área fixa, e os recursos disponíveis para investir forem limitados, os cuidados prestados a uma das plantações implicará o negligenciar da outra, e o consequente fracassar da potencial colheita. Sempre que me concentro por longos períodos de tempo em projectos profissionais, sinto que o meu lado emocional morre um pouco. Tenho de ir comprar fertilizante...

1970. Trespass - Genesis

Antes de terem a sua reputação musical arruinada pela influência nefasta da carreira a solo de Phil Collins, os Genesis faziam a música mais melódica à face do planeta. Não é apenas um elogio desmesurado da minha parte. Há um espantoso esbanjar de melodias nos primeiros quatro ou cinco álbuns dos Genesis (período de 1970 a 1975) que daria para uma banda pop ter assegurada uma série consecutiva de êxitos de vendas. Os Genesis, porém, articulavam essas melodias em longos temas, pouco ajustados à dimensão de singles, sem se preocuparem com o aparente desperdício melódico presente nos seus LPs de vinil.

Em Trespass (1970), o primeiro álbum "maduro" da banda, as orquestrações são subtis, mas frequentemente luxuosas. Os Genesis alternam momentos de flautas pastorais e com crescendos poderosos sustentados pelas teclas de Tony Banks e na voz firme e suave de Peter Gabriel. Este último é o génio óbvio por trás da criação artística e coreográfica da banda neste período. Não há qualquer tipo de arrogância ou pedantismo subjacente à música, mas a confiança que transparece nas interpretações é inegável.

Trespass é um disco que toca as margens do que viria a ser conhecido como rock progressivo ou prog-rock, mas evita cair na armadilha do facilitismo e dos excessos de orquestração cometidos pelos Yes. A subtileza dos arranjos é sobretudo visível em Stagnation, o meu tema preferido. O tal desperdício melódico atinge aqui a apoteose, através de uma estranha, mas eficaz mistura de folk britânico com rock progressivo. Ah! E as teclas! Aquelas teclas gentis que debitam melodias celestiais umas atrás das outras, como se não houvesse amanhã...

Mas Peter Gabriel e os restantes Genesis ainda têm tempo para se enfurecer em The Knife. Uma mistura explosiva de prog-rock e acelerações típicas de proto-metal. A combinção é extremamente eficaz e permitiu ao tema tornar-se o mais influente do álbum e um favorito ao vivo para a maioria dos primeiros fãs da banda. As interpretações de Gabriel também ajudaram The Knife a assumir o estatuto mítico que merece.

Sem mais delongas, aqui ficam Stagnation e The Knife (numa versão impressionante de 1973, já com Phil Collins na bateria).




Projecto 200 anos de música. A ideia é simples. Ao longo de duzentas entradas, o Piano na Floresta vai listar duzentas obras musicais, uma por cada ano, iniciando a contagem decrescente a partir do ano 2000. Se tudo correr conforme planeado, será possível identificar um disco ou uma obra composta em cada um dos anos no intervalo entre o ano 1800 e o ano 2000. Não há limitações de género musical. A qualidade e a reputação da obra não constituem critério de escolha, embora se entenda que ela é, de algum modo, representativa do ano em questão.

sexta-feira, outubro 24, 2008

1971. IV - Led Zeppelin

O ano de 1971 é especial. O autor deste blog nasceu no mesmo ano em que o quarto álbum dos Led Zeppelin foi lançado. Antes de prosseguirmos, um aviso prévio: não gosto de metal, em qualquer uma das suas formas (heavy metal, death metal, trash metal, rap metal, etc.). Este facto, aparentemente limitador em alguém que adora música, torna esta escolha um facto notável. Na verdade, Led Zeppelin IV, Zoso, ou simplesmente IV, é um dos discos mais influentes para qualquer banda de metal que se preze. Vejamos as razões que conduziram à minha escolha.

Se é verdade que o início do disco é rock'n'roll em estado puro (Black Dog e Rock and Roll), os temas seguintes são de uma versatilidade invulgar para o início dos anos 70. À semelhança de outros, também eu considero que os anos 70 são, grosso modo, a pior década da música popular, até porque os momentos de criatividade genial da segunda parte da década de 60 teriam, inevitavelmente, de descambar numa longa ressaca. Por isso mesmo, o trinado do bandolim da terceira faixa, The Battle of Evermore, mostra uns Led Zeppelin completamente transfigurados, falando do Príncipe da Paz, da Rainha da Luz e dos anjos de Avalon. Lírico. Místico. A participação da sacerdotisa Sandy Denny completa o quadro onírico.

Mas é evidentemente Stairway to Heaven que marca o álbum. Oito minutos para a história. O tema justifica a razão pela qual os Led Zeppelin são uma banda que desafia categorização. A guitarra dedilhada e a flauta que abrem Stairway to Heaven são lentamente substituídas por um crescendo musical que culmina num debitar de energia típico da banda, mas que exige ouvidos menos conformistas e mais audazes. Se é verdade que qualquer estudante de guitarra clássica aprende aqueles acordes iniciais como uma forma de culto à banda, também não é menos verdade que muitos deles nunca chegam apreciar toda a intensidade de Stairway to Heaven devido a uma insuficiente versatilidade no domínio do tema.

A influência do blues rock em Led Zeppelin IV é notável e estende-se à maioria dos seus temas. Tal como acontece com os Doors, para quem o blues era o core da música, devidamente enquadrado na poesia de Jim Morrison, as orquestrações mais cuidadas dos Led Zeppelin não diluem a influência dos blues, assumidos do primeiro ao último momento em IV. A originalidade reside na mescla única da voz que desafia classificação de Robert Plant, a guitarra do virtuoso Jimmy Page e o ritmo poderoso imposto pela bateria de John Bonham e pelo baixo marcado de John Paul Jones. When the Levee Breaks é, sob esse aspecto, Zeppelin em estado puro: directo, confiante e arrebatador.

The Battle of Evermore (mp3)
When the Levee Breaks (mp3)

Projecto 200 anos de música. A ideia é simples. Ao longo de duzentas entradas, o Piano na Floresta vai listar duzentas obras musicais, uma por cada ano, iniciando a contagem decrescente a partir do ano 2000. Se tudo correr conforme planeado, será possível identificar um disco ou uma obra composta em cada um dos anos no intervalo entre o ano 1800 e o ano 2000. Não há limitações de género musical. A qualidade e a reputação da obra não constituem critério de escolha, embora se entenda que ela é, de algum modo, representativa do ano em questão.

sexta-feira, outubro 10, 2008

1972. Pink Moon - Nick Drake

As emoções escravizam a razão e retiram discernimento ao mais esclarecido dos intelectuais. Muitos génios musicais foram submetidos à ditadura das paixões, que os impulsionaram a compor obras para a eternidade. Outros, acometidos por depressões severas, caíram na obscuridade após a sua morte, para serem reconhecidos apenas por uma mão-cheia de almas gémeas.

Nick Drake morreu em 1974, aos 26 anos, de uma overdose (acidental?) de anti-depressivos, e quis o destino que este fosse o seu último álbum de originais. O disco exala uma tristeza e uma melancolia que resultam da utilização exclusiva de guitarra acústica e voz na maioria dos temas, acompanhadas ocasionalmente pelo piano. As melodias são simples, belas e plenas de sentimento. Reza a lenda que Drake gravou Pink Moon em duas sessões de 2 horas, iniciadas há meia-noite, sem recurso a takes alternativos. Neste particular, Pink Moon representa um contraste significativo com o disco anterior, Bryter Layter (1970), no qual Drake emprega orquestrações mais elaboradas, em particular uma luxuosa secção de cordas em Hazey Jane II, que os Belle and Sebastian certamente não desdenhariam.

Em Pink Moon, a duração é inversamente proporcional à intensidade da música. A voz de Nick Drake e a sua guitarra acústica uniram-se para criar uma obra-prima com apenas 28 minutos. Solidão, isolamento e alienação social são temas preponderantes em todos os trabalhos de Drake, mas atingem aqui a sua mais profunda e sentida expressão. Até o surrealismo da capa, fortemente influenciada por Salvador Dali, contribui para o ambiente de alienação, depressão e abandono presente no disco.

As múltiplas referências ao suicídio ao longo do álbum levam-nos a pensar que Drake desistia. Há momentos em que não vale a pena lutar; o vazio progride para nos engolir. Em Pink Moon:

"I saw it written and I saw it say
Pink moon is on its way
And none of you stand so tall
Pink moon gonna get you all
It's a pink moon it's a pink, pink, pink, pink, pink moon."

Em Harvest Breed:

"Falling fast and falling free you look to find a friend
Falling fast and falling free this could just be the end
Falling fast you stop to touch and kiss the flowers that bend
And you're ready now for the harvest breed."
A suavidade da voz de Drake e a instrumentação esparsa contribuem para esse vazio, e nem o final luminoso com From the Morning ajuda a retirar a Pink Moon o epíteto de “um dos álbuns mais melancólicos de sempre”.
Cada nota, cada palavra, cada silêncio. Um dos raros momentos em que a música me fez sentir frágil...

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domingo, outubro 05, 2008

1973. Head Hunters - Herbie Hancock

Futurista é o mínimo que se pode dizer deste trabalho de Herbie Hancock, normalmente enquadrado no contexto do movimento de fusão jazz-rock do início dos anos 70. Sublinhe-se fusão jazz-rock (e não rock-jazz), porque a direcção do movimento é relevante na qualidade da música produzida. Quebrando fronteiras no domínio do jazz, muitos músicos com reputação estabelecida, como Miles Davis ou Herbie Hancock, enveredaram por sonoridades rock e funk, tingidas de influências exóticas, nomeadamente das Caraíbas, da América do Sul e de África.

No caso de Herbie Hancock, Head Hunters constitui uma abordagem radical a este movimento, pela utilização de múltiplos sintetizadores, marimbas e diversos instrumentos de percussão de raiz africana. O álbum é caracterizado por extensa improvisação, como é típico do jazz, mas a sonoridade original fornecida pela diversidade de instrumentos contribui para que essa improvisação soe mais a um delírio de funk alucinado do que um quinteto de standards de jazz.

É hoje plenamente reconhecido que os temas Chameleon e Watermelon Man foram o ponto de partida da carreira de muitos músicos actuais, como foram os casos de Jamiroquai ou US3. Mas a extensão do impacto de Head Hunters pode chegar até ao bem conhecido duo francês de música electrónica Air, como é visível no tema que encerra o álbum, Vein Melter.


Nota: Depois de quase 50 milhões de cópias vendidas, a escolha óbvia para 1973 era The Dark Side of the Moon dos Pink Floyd. Podem ler uma crítica a este disco aqui.

Projecto 200 anos de música. A ideia é simples. Ao longo de duzentas entradas, o Piano na Floresta vai listar duzentas obras musicais, uma por cada ano, iniciando a contagem decrescente a partir do ano 2000. Se tudo correr conforme planeado, será possível identificar um disco ou uma obra composta em cada um dos anos no intervalo entre o ano 1800 e o ano 2000. Não há limitações de género musical. A qualidade e a reputação da obra não constituem critério de escolha, embora se entenda que ela é, de algum modo, representativa do ano em questão.

segunda-feira, setembro 22, 2008

1974. New Skin for the Old Ceremony - Leonard Cohen

A maioria dos aficionados de Leonard Cohen dirá que esta é uma escolha estranha. Cohen tem vários discos excelentes, começando no final dos anos 60 (Songs of Leonard Cohen, 1967, Songs from a Room, 1969 e Songs of Love and Hate, 1970), passando pelos anos 80 (Various Positions, 1984 e I'm Your Man, 1988) e até ao início dos anos 90 (The Future, 1992). A escolha de New Skin for the Old Ceremony para 1974 prende-se com questões de humildade. Ser músico e ser humilde era coisa rara em 1974. A grandiosidade dos arranjos, os excessos da instrumentação, os sintetizadores vertiginosos dominavam os tops com os Pink Floyd, Genesis, Yes, entre muitos outros do mesmo género. O próprio Cohen teria um colapso do mesmo tipo com o embaraçoso Death of a Ladies Man, 1977.

Mas em New Skin, o prato servido pelo canadiano vintage tem uma receita muito mais simples. Temas curtos, instrumentos acústicos e a voz de Cohen a entoar poemas sobre amar, viver e deixar. Os inegáveis méritos de Cohen enquanto poeta romântico são realçados pela música que o acompanha. Aqui, como em mais lado nenhum, percebe-se imediatamente que as letras são escritas antes da música e ainda bem para todos nós! Na abertura de Is This What You Wanted, Cohen diz ao que vem:

"You were the promise at dawn,
I was the morning after.
You were Jesus Christ my Lord,
I was the money lender.
You were the sensitive woman,
I was the very reverend Freud.
You were the manual orgasm,
I was the dirty little boy."

Assim mesmo, sem meias palavras. Se é apreciador(a) de poesia vai deliciar-se com Chelsea Hotel, Field Commander Cohen, There is a War e, o meu favorito, Who By Fire. Estranhamente, foi Lover Lover Lover, aqui numa interpretação despojada, que me encaminhou para Leonard Cohen há já quase duas décadas, quando Ian McCulloch (vocalista dos Echo & The Bunnymen) gravou o tema a solo e o tornou um êxito indie dos meus 18 anos.

Projecto 200 anos de música. A ideia é simples. Ao longo de duzentas entradas, o Piano na Floresta vai listar duzentas obras musicais, uma por cada ano, iniciando a contagem decrescente a partir do ano 2000. Se tudo correr conforme planeado, será possível identificar um disco ou uma obra composta em cada um dos anos no intervalo entre o ano 1800 e o ano 2000. Não há limitações de género musical. A qualidade e a reputação da obra não constituem critério de escolha, embora se entenda que ela é, de algum modo, representativa do ano em questão.

quinta-feira, setembro 11, 2008

1975. Nighthawks at the Diner - Tom Waits


Os alucinogénios alimentaram a produção literária de Huxley. Bukowski era incapaz de escrever uma linha sem a companhia da garrafa. O ópio era o motor do génio de Burroughs. E até os Beatles só foram verdadeiramente geniais com a ajuda do LSD e da Cannabis. A ideia recorrente de que a genialidade depende da ingestão em quantidades desmesuradas de substâncias aditivas incomoda-me. Desde que casei e adoptei um saudável horário de trabalho que a única substância que consumo em doses excessivas é a cafeína. Inspira-me a actividade científica e académica, mas temo que os resultados em termos de crítica musical sejam deprimentes, como o poderá comprovar esta crónica vazia de ideias.

Este intróito serve para manifestar a minha inveja pelo estado de embriaguez permanente de Tom Waits quando produziu esta obra magistral, gravada ao vivo em 1975, entre uma mão cheia de privilegiados, num estúdio em Hollywood, Califórnia. O ambiente no estúdio lembra-nos um piano bar fumarento, pintado com cortinas de veludo roxo e decorado com fregueses colados ao balcão, face a um empregado entediado pela ausência de gorjetas que compensem o diálogo mantido com as moscas de bar embriagadas.

Mas há sempre a possibilidade de eu estar enganado quanto a este ambiente. O título do disco – Nighthawks at the Diner – é inspirado pelo fabuloso quadro do pintor do realismo americano Edward Hopper. A representação da luz, a nostalgia da América passada e a separação entre o espaço interior, mais acolhedor, e o espaço exterior, mais hostil, ajudam a melhorar o imaginário que acompanha o disco de Waits. (A propósito de Hopper, se um dia ganhar o Euromilhões, compro um original.)

Depois há esse detalhe das canções. Ainda não falei delas. Piano e voz bastam a este crooner genial, que não necessita de exposição mediática para se fazer rodear por uma legião de admiradores. Mas a banda que o acompanha, torna todo este affair ainda mais apetecível, na linha de um excelente clube de jazz que não tem hora prevista de fecho. As longas explicações entre canções são momentos hilariantes, ao nível do melhor cómico de stand-up: “Conheço uma mulher que já casou tantas vezes que até tem marcas de arroz na cara.” Pois… para isso é preciso viver muito e de modo especial, mais ou menos a história de vida do músico. Tom Waits não precisa de elogios; precisa que o ouçamos a viver.

Nighthawks at the Diner (1942) by Edward Hopper

Projecto 200 anos de música. A ideia é simples. Ao longo de duzentas entradas, o Piano na Floresta vai listar duzentas obras musicais, uma por cada ano, iniciando a contagem decrescente a partir do ano 2000. Se tudo correr conforme planeado, será possível identificar um disco ou uma obra composta em cada um dos anos no intervalo entre o ano 1800 e o ano 2000. Não há limitações de género musical. A qualidade e a reputação da obra não constituem critério de escolha, embora se entenda que ela é, de algum modo, representativa do ano em questão.

terça-feira, setembro 09, 2008

Impressões de Boston


Para uma grande cidade americana, Boston é diferente do habitual. É mais antiga, mais compacta e, de certo modo, mais europeia. Depois de já ter estado nas "capitais da dispersão urbana" como Los Angeles, Atlanta ou Denver, posso afirmar que Boston é completamente distinta. As pessoas caminham mais do que é usual, as lojas são mais pequenas e os prédios têm pátios frontais decorados com flores e relva. Ao contrário de muitas outras cidades americanas, que se encontram divididas em zonas comerciais, industriais e residenciais, Boston possui bairros (Back Bay, South End, Beacon Hill, North End e, claro, Cambridge) onde os habitantes trabalham, estudam, comem e dormem sem serem necessárias grandes deslocações.

Para o visitante desprevenido, a maior dificuldade reside na noite. Boston é uma cidade muito escura, com iluminação pública deficiente e atravessada por becos estreitos e sinistros a lembrar o East End londrino dos tempos do estripador. Só "public alleys" são mais de 400 (!), a julgar pela numeração que os acompanha. Um amigo italiano que aqui vive há alguns anos diz que Boston é uma cidade gótica, talvez por lhe fazer lembrar as cidades alemãs de menor dimensão que ainda preservam arquitectura antiga.

quarta-feira, setembro 03, 2008

Mau Tempo nos Açores

Aqui estou eu de regresso, após uma longuíssima ausência em relação íntima com o Atlântico, primeiro nos Açores e depois em Boston. Mas já lá vamos...
Alguém me explica a razão pela qual a meteorologia do continente prevê, durante o ano inteiro, céu muito nublado e/ou chuva para os Açores? Tinha algumas suspeitas que essas previsões eram uma treta e os meus receios confirmaram-se. Estive uma semana nas ilhas da Terceira e do Faial e a única água doce com que tive que lidar foi a da piscina. Elevada humidade no ar, temperatura amena, sol... os Açores parecem um paraíso tropical. Só faltam mesmo as praias com areia branca e palmeiras. Até a água do mar é transparente como um vidro! Imagine-se até que eu, que cultivo a pele alva e uma certa aversão saudável ao sol, regressei semi-moreno!
Serão as previsões dos meteorologistas um truque para evitar excesso de procura? Ambas as ilhas são divinas e as cidades de Angra (Terceira) e Horta (Faial) são óptimos destinos turísticos, cada uma à sua maneira. Angra do Heroísmo é uma cidade organizada, limpa, com uma arquitectura encantadora, ou não fosse ela património da humanidade. Horta destaca-se pela hiper-movimentada marina, que domina toda a baía e é visível de qualquer local da cidade, que trepa pela encosta. Olhar para o fundo da marina e ser capaz de vislumbrar cardumes de peixe através da água límpida é surpreendente, tanto mais que se trata de uma das marinas mais cosmopolitas da Europa, ponto de passagem de milhares de embarcações provenientes dos quatro cantos do mundo. O peixe fresco, das mais variadíssimas espécies, cozinhado de múltiplas maneiras, a tenra e suculenta alcatra e os doces e sumarentos ananazes tornaram ainda estas férias numa experiência gastronómica cheia de pequenos prazeres.
Pela amostra, a região autónoma dos Açores é o mais próximo que Portugal possui de um paraíso tropical. O desenvolvimento sustentável que parece caracterizar a região, é indicador da excelente utilização da autonomia regional e permite manter uma ténue fé na classe política. Afinal, parece que nem todos os políticos destroem os territórios pelos quais são responsáveis...

segunda-feira, agosto 11, 2008

Destino: Férias

Roubado aqui

Ao contrário do que possa parecer ultimamente, este blogue também é dedicado a viagens. Com a chegada das férias foi necessário escolher o destino. Desta vez, inspirado em Vitorino Nemésio, o Piano adoptou o lema Vá para fora cá dentro, infinitamente superior ao Allgarve:

"Como homens, estamos soldados historicamente ao povo de onde viemos e enraizados pelo habitat a uns montes de lava que soltam da própria entranha uma substância que nos penetra. (...) A geografia, para nós, vale outro tanto como a história."

"Meio milénio de existência sobre tufos vulcânico, por baixo de nuvens que são asas e de bicharocos que são nuvens, é já uma carga respeitável de Tempo."

Vitorino Nemésio

sábado, agosto 09, 2008

1976. Sinfonia Nº 3, Op. 36 - Henryk Górecki

Por esta altura, o leitor de blogues, mais rápido no gatilho do que a sua própria sombra, já fechou este blog. Ainda assim, para aqueles que ficaram, é devida uma explicação. São duzentas entradas sobre música ao longo de duzentos anos, pelo que em algum momento teríamos de começar a falar de "música clássica" ou, mais apropriadamente designada, música erudita.

Como explicar o que se sente ao ouvir a Sinfonia nº3, composta em 1976 pelo polaco Henryk Górecki? Uma tristeza infinita. Em linguagem popular, é uma obra capaz de fazer chorar as pedras da calçada e, talvez por isso, não seja adequada a todos os momentos. É preciso uma disposição especial, uma alma triste, para apreciar na plenitude esta peça.

O minimalismo harmónico que caracteriza toda a obra cria uma sensação de angústia sufocante, ampliada pela densidade na utilização de cordas e uma soprano única. No terceiro andamento, em particular entre os 9 e os 14 minutos, a repetição do mesmo tema, minuto após minuto, é uma experiência hipnótica inolvidável, colocando o ouvinte perante uma melodia semelhante a um loop interminável. (Nota: Para os conhecedores da obra de Current 93, Sleep Has His House, igualmente elegíaca e dedicada ao falecido pai de David Tibet tem uma estrutura semelhante.)

A sonoridade é fúnebre do início ao fim, ajustada aos poemas que constituem a secção lírica da obra. O primeiro andamento demora uns longos 28 minutos e inicia-se com um cânone para cordas em crescendo de intensidade. Por volta dos 13 minutos entra uma canção de lamento inspirada num poema polaco do século XV em que Maria, mãe de Jesus, expressa a sua angústia perante o filho às portas da morte e implora-lhe que partilhe com ela a sua dor. Após o final do poema lírico, o cânone para cordas regressa, desta vez decrescendo em intensidade até terminar numa única linha melódica igual à inicial.

O segundo andamento tem um registo Lento e Largo, soando ligeiramente menos fúnebre, embora o poema seja igualmente trágico. Trata-se de uma oração inscrita na parede de uma cela no quartel general da Gestapo na cidade de Zakopane (Polónia) por uma prisioneira polaca de 18 anos que solicita a protecção da Mãe do Céu. O poema do terceiro andamento retrata uma mãe que aguarda o regresso do seu filho da guerra. A mãe pressente que o filho morreu, mas a ausência do corpo agrava a sua angústia, temendo que o filho não descanse em paz.

Talvez seja surpreendente para os leitores, mas esta sinfonia é um best-seller, tendo vendido mais de um milhão de cópias e tornando-se uma das obras mais populares de um compositor do século XX. Apesar da tendência para interpretar o seu significado como ligado ao cristianismo ou para utilizar a sinfonia como homenagem às vítimas do Holocausto, o próprio Gorécki rejeitou estas interpretações mais restritas da obra, insistindo que se trata simplesmente de uma "sinfonia de canções tristes ou de lamentos" (subtítulo da obra: Symphony of Sorrowful Songs).



Referências:
Symphony Nº3, Op. 36 (Symphony of Sorrowful Songs)
Zofia Kilanowicz (Soprano); Polish National Radio Symphony Orchestra (Katowice); Antoni Wit (Director de Orquestra) Ed. Naxos 8.550822


http://en.wikipedia.org/wiki/Symphony_No._3_(G%C3%B3recki)

Projecto 200 anos de música. A ideia é simples. Ao longo de duzentas entradas, o Piano na Floresta vai listar duzentas obras musicais, uma por cada ano, iniciando a contagem decrescente a partir do ano 2000. Se tudo correr conforme planeado, será possível identificar um disco ou uma obra composta em cada um dos anos no intervalo entre o ano 1800 e o ano 2000. Não há limitações de género musical. A qualidade e a reputação da obra não constituem critério de escolha, embora se entenda que ela é, de algum modo, representativa do ano em questão.

quarta-feira, agosto 06, 2008

1977. Low - David Bowie

David Bowie é conhecido pelo "camaleão" da música pop-rock, devido à sua capacidade para se reinventar tanto a nível musical como em termos de imagem. Uma dessas reinvenções, aquela que foi, na minha opinião, a mais marcante, ocorreu com Low gravado e editado em 1977. No ano anterior, Bowie havia lançado Station To Station, um álbum que indiciava uma crise de inspiração e fazia temer pela qualidade do seu sucessor.

Depois de muitas obras de música popular marcantes na década de 60 e no início da década de 70, em meados da década, a imagem começava a sobrepor-se à música. Com o disco e com o punk em extremos opostos, era mais importante a maneira como os músicos vestiam do que a música que faziam. Bowie fez precisamente o percurso inverso. Com uma imagem muito mais sóbria, a música toma aqui a "boca de cena".

Low é igualmente marcante pelas influências que vai gerar. Os Joy Division serão a face mais visível dessa influência, mas muitas outras bandas de finais de 70 e início de 80 utilizam os sintetizadores de uma forma semelhante. O disco alterna instrumentais com temas minimalmente cantados, o que representa uma novidade radical do próprio Bowie. Os temas mais relevantes são Sound and Vision (por ser o 'hit' do álbum), Always Crashing In The Same Car, A New Career In A New Town e Warszawa.

Bowie deslocou-se a Berlim para gravar este disco, tal como viria acontecer com os dois seguintes (Heroes e Lodger). O optimismo e os exageros musicais do início dos anos 70 dão aqui lugar a um disco revolucionariamente sóbrio. A electrónica exagerada do rock progressivo, que Bowie sempre rejeitou, é substituída por uma utilização sóbria, mas eficaz, dos sintetizadores, que valorizam a criação de ambientes e paisagens sonoras de uma beleza sem precedentes.

Sound and Vision ao vivo aqui: http://www.youtube.com/watch?v=GYEOlxcirX0

Esta crónica foi publicada originalmente na Rede 2020.

Projecto 200 anos de música. A ideia é simples. Ao longo de duzentas entradas, o Piano na Floresta vai listar duzentas obras musicais, uma por cada ano, iniciando a contagem decrescente a partir do ano 2000. Se tudo correr conforme planeado, será possível identificar um disco ou uma obra composta em cada um dos anos no intervalo entre o ano 1800 e o ano 2000. Não há limitações de género musical. A qualidade e a reputação da obra não constituem critério de escolha, embora se entenda que ela é, de algum modo, representativa do ano em questão.