sábado, dezembro 27, 2008

1958. Lady in Satin - Billie Holiday

Com uma vida marcada pela controvérsia, associada aos desgostos amorosos, ao abuso do álcool e das drogas e às relações problemáticas com a justiça, Billie Holiday é a primeira diva do jazz a aparecer no Projecto 200 anos de música. É também o primeiro disco de jazz cantado a merecer referência, ainda que possa ser altamente questionável que se trate de jazz... mas adiante!

A voz de Billie Holiday transmite tristeza. Quando gravou Lady In Satin, o seu penúltimo álbum de estúdio, Billie já não tinha a voz de outrora, mas o disco é tocante pela emoção arrebatada que transmite, sublimada pelo acompanhamento da orquestra de Ray Ellis, que dá aos temas uma sonoridade quase celestial. O que se perde em vitalidade na voz de Billie é ganho em maturidade. Ao ouvir Lady In Satin fico com a sensação que Billie já viveu mais do que qualquer um de nós, simples mortais, poderá algum dia aspirar a viver. É uma voz carregada de sentimento, de intensidade, de emoção e premonitória do fim... Billie Holiday morreria menos de um ano após esta gravação, deixando para a posteridade um disco de uma beleza dificilmente igualável por qualquer outra voz do jazz.

I'm a Fool to Want You, escrito por Frank Sinatra, é o tema de abertura:
Billie Holiday - I'm a fool to want you




The End of a Love Affair fecha o disco:
Billie Holiday - The End of a Love Affair




Projecto 200 anos de música. A ideia é simples. Ao longo de duzentas entradas, o Piano na Floresta vai listar duzentas obras musicais, uma por cada ano, iniciando a contagem decrescente a partir do ano 2000. Se tudo correr conforme planeado, será possível identificar um disco ou uma obra composta em cada um dos anos no intervalo entre o ano 1800 e o ano 2000. Não há limitações de género musical. A qualidade e a reputação da obra não constituem critério de escolha, embora se entenda que ela é, de algum modo, representativa do ano em questão.

sexta-feira, dezembro 26, 2008

quarta-feira, dezembro 24, 2008

1959. Kind of Blue - Miles Davis

"Não aprecio jazz..." Se os leitores se identificam com a afirmação, talvez devam considerar ouvir esta obra-prima de Miles Davis. Responsável por sucessivas reinvenções no âmbito da música jazz, Miles Davis já era um músico consagrado quando gravou e editou Kind of Blue (1959). O sexteto que gravou o disco é a combinação perfeita de músicos de jazz: Miles Davis (trompete), John Coltrane (saxofone tenor), "Cannonball" Adderley (saxofone alto), Bill Evans (piano), Paul Chambers (baixo) e Jimmy Cobb (bateria).

O álbum enquadra-se no jazz modal e foi um dos primeiros a romper com o estilo bebop, dominado pelo objectivo dos músicos tocarem o mais rápido possível sobre os acordes de cada tema, improvisando harmonias cada vez mais complexas. Ora, no jazz modal de Kind of Blue, a melodia predomina, a música é muito mais esparsa e o som muito menos preenchido do que acontece no jazz típico dos anos 40 e 50, sobretudo com Charlie Parker e Dizzy Gillespie.

Por essa razão, em termos emocionais, o jazz de Kind of Blue é mais relaxante e menos "stressante", permitindo ao ouvinte desligar-se dos problemas do seu dia-a-dia e mergulhar nesta massagem auditiva. Kind of Blue promove a nostalgia, aguça as emoções e seduz os sentidos, mas está muito longe de ser um disco deprimente. Pelo contrário, ouvido em boa companhia, Kind of Blue é um disco romântico, sensual e fisicamente estimulante. Quase apetece dizer que, se por altura do último tema, Flamenco Sketches, ainda não vos apeteceu tirar a roupa ao(à) parceiro(a), há qualquer coisa de errado na vossa relação! Se quiserem fazer a experiência, aqui ficam links para o download (quase) integral do álbum. Bom proveito!

So What (mp3)
Blue in Green (mp3)
All Blues (mp3)
Flamenco Sketches (mp3)

Se estiverem interessados em compreender o contexto em que surge Kind of Blue, podem escutar um excerto de 4 minutos do documentário Ken Burns Jazz em que o disco é analisado.

Projecto 200 anos de música. A ideia é simples. Ao longo de duzentas entradas, o Piano na Floresta vai listar duzentas obras musicais, uma por cada ano, iniciando a contagem decrescente a partir do ano 2000. Se tudo correr conforme planeado, será possível identificar um disco ou uma obra composta em cada um dos anos no intervalo entre o ano 1800 e o ano 2000. Não há limitações de género musical. A qualidade e a reputação da obra não constituem critério de escolha, embora se entenda que ela é, de algum modo, representativa do ano em questão.

segunda-feira, dezembro 22, 2008

Abandono

Summer Interior (1909) by Edward Hopper
Música: Summertime - Scarlett Johansson (mp3)

sábado, dezembro 20, 2008

1960. Apache - The Shadows

Falar de Apache dos The Shadows é falar da minha infância. O meu gosto pela música foi muito influenciado pelo meu pai. As suas preferências oscilam entre a música clássica do período romântico e o pop-rock dos anos 60, sobretudo dos Beatles e dos Shadows. Os instrumentais dos The Shadows são algumas das primeiras músicas que me lembro de ouvir tocar no gira-discos e no leitor de cassettes do meu pai. O seu gosto pelos Shadows explica a paixão conjunta que, mais tarde, desenvolveríamos pelos Dire Straits, em particular pela forma de tocar guitarra de Mark Knopfler.
Apache (1954), um filme de Robert Aldrich, foi a inspiração de Jerry Lordan para compor o tema numa versão para ukelele e que os Shadows adaptaram e gravaram pela primeira vez em 1960. O ritmo tribal da bateria, o baixo inebriante e o galope sugerido pela guitarra twang dão a Apache uma sonoridade tão distintiva que até pessoas indiferentes à música reconhecem o tema quando o escutam.
Apache (1960) - The Shadows (mp3)
Apache (1973) - The Incredible Bongo Band (mp3)
Apache (1998) - Fat Boy Slim (mp3)
Os portugueses GNR prestaram uma espécie de tributo aos Shadows plagiando subtilmente o riff de Apache em Hardcore (1º Escalão) do excelente álbum Independança (1982). Embora seja mais notório no original, podem tentar descobrir os compassos roubados aqui:



Projecto 200 anos de música. A ideia é simples. Ao longo de duzentas entradas, o Piano na Floresta vai listar duzentas obras musicais, uma por cada ano, iniciando a contagem decrescente a partir do ano 2000. Se tudo correr conforme planeado, será possível identificar um disco ou uma obra composta em cada um dos anos no intervalo entre o ano 1800 e o ano 2000. Não há limitações de género musical. A qualidade e a reputação da obra não constituem critério de escolha, embora se entenda que ela é, de algum modo, representativa do ano em questão.

quarta-feira, dezembro 17, 2008

1961. Out of the Cool - The Gil Evans Orchestra

A música contida em Out of the Cool é impressionista. Ao ouvir os 15 minutos de La Nevada ficamos com a nítida sensação que efectivamente neva lá fora. Gil Evans consegue neste tema um balanço sólido entre o pouco que é composto e o muito que é improvisado, ainda que o meu coração balance fortemente a favor dos longos momentos de improvisação. A sonoridade é original, fundindo a improvisação típica dos small ensembles de jazz com as texturas mais densas proporcionadas pelo grupo mais alargado de 14 músicos que compõe a Gil Evans Orchestra.

Assim, não se tratando de um álbum de jazz convencional para a época, Out of the Cool marca um período em que as fronteiras do jazz se expandem, como já havia ficado demonstrado no ano anterior com a colaboração entre Miles Davis e Gil Evans no excelente Sketches of Spain. Este último quebrou barreiras musicais com a famosa interpretação do segundo andamento do Concerto de Aranjuez de Joaquín Rodrigo numa versão que funde o jazz, a orquestra e o folk espanhol. Em Out of the Cool, as influências são ainda mais vastas, com óbvios contornos dos blues em Stratusphunk, do West Coast jazz em Where Flamingos Fly e da música latino-americana no já referido La Nevada.

Podem escutar excertos de Out of the Cool da Gil Evans Orchestra aqui.

Projecto 200 anos de música. A ideia é simples. Ao longo de duzentas entradas, o Piano na Floresta vai listar duzentas obras musicais, uma por cada ano, iniciando a contagem decrescente a partir do ano 2000. Se tudo correr conforme planeado, será possível identificar um disco ou uma obra composta em cada um dos anos no intervalo entre o ano 1800 e o ano 2000. Não há limitações de género musical. A qualidade e a reputação da obra não constituem critério de escolha, embora se entenda que ela é, de algum modo, representativa do ano em questão.

domingo, dezembro 14, 2008

1962. Coltrane - John Coltrane

John Coltrane foi o melhor saxofonista de todos os tempos. Em Coltrane, o seu quarteto interpreta originais do músico (Tunji e Miles' Mode) ao lado de versões de clássicos, como é o caso de Soul Eyes. O quarteto é composto por Coltrane nos saxofones, tenor e soprano, McCoy Tyner no piano, Jimmy Garrison, agora como baixista permanente e Elvis Jones na bateria.

O tema de abertura - Out of This World - é um portento de energia, empenho e arrebatação. Durante mais de 14 minutos, o quarteto expõe o original de Arlen e Mercer com elementos de improvisação típicos da obra de Coltrane e que constituem a sua marca no jazz e os que mais se destacam na sua interpretação de clássicos do jazz. Se é verdade que Coltrane é um disco com uma sonoridade mais conservadora na obra do saxofonista, também não é menos verdade que Out of This World demonstra a incrível capacidade de entrega que sempre caracterizaram o músico nascido na Carolina do Norte.

Embora Coltrane não seja o disco mais marcante da carreira do saxofonista, perdendo esse estatuto para os excelentes Blue Train (1957) e A Love Supreme (1964), ainda é o disco que mais ouço. Permite-me ter o melhor dos dois mundos: o John Coltrane das longas improvisações ao lado do John Coltrane mais acessível em termos melódicos. O melhor exemplo desta segunda vertente é a interpretação lânguida e sensual de Soul Eyes, um original de Mal Waldron.
Na impossibilidade de encontrar interpretações originais em vídeo de temas do álbum, optei por escolher uma interpretação pelos mesmos músicos do tema Afro Blue (1960):


Projecto 200 anos de música. A ideia é simples. Ao longo de duzentas entradas, o Piano na Floresta vai listar duzentas obras musicais, uma por cada ano, iniciando a contagem decrescente a partir do ano 2000. Se tudo correr conforme planeado, será possível identificar um disco ou uma obra composta em cada um dos anos no intervalo entre o ano 1800 e o ano 2000. Não há limitações de género musical. A qualidade e a reputação da obra não constituem critério de escolha, embora se entenda que ela é, de algum modo, representativa do ano em questão.

terça-feira, dezembro 09, 2008

1963. Ring of Fire - Johnny Cash

Para ouvir música em 1963, este era o formato de eleição. Entre a música popular, os LPs não tinham ainda a reputação que vieram a ganhar mais tarde, pelo que os 45 rotações, vulgo singles, eram o formato do dia. Este, em particular, foi um bocadinho mais importante do que os outros. Este é Ring of Fire de Johnny Cash, o poeta maldito da música country americana, que ficou conhecido como Homem de Negro. Apesar de todos os demónios que o atormentaram, ou, se calhar, graças a eles, Johnny Cash foi capaz de compor temas sobre Amor, Deus e Morte como nenhum outro músico seu contemporâneo.

À primeira vista, e pelo título, Ring of Fire não parece uma canção de amor, mas antes uma dissertação sobre motoqueiros a investir contra aneis de fogo. Nada de mais errado. A letra é inequívoca: Love is a burning thing / And it makes a firery ring / Bound by wild desire / I fell in to a ring of fire... Cercado pelo desejo, não resta outra solução que não seja mergulhar num anel de fogo, uma imagem que transmite a sensação de alguém que se apaixona perdidamente. E continua: The taste of love is sweet / When hearts like our's meet / I fell for you like a child / Oh, but the fire went wild... O sabor do amor é doce quando os nossos corações se tocam, apaixonei-me irremediavelmente e o fogo consome(-me) sem limite.

As letras simples, mas poderosas, cantadas com a voz impressionante de Cash e acompanhadas pelas sonoridades do Sudoeste americano que tanto adoro, são um cocktail musical perfeito. A influência da canção é comprovada por mais de 70 versões registadas na Wikipedia, incluindo nomes tão distintos como Bob Dylan, Frank Zappa, Ray Charles, Blondie, Social Distortion, entre muitos outros.



Projecto 200 anos de música. A ideia é simples. Ao longo de duzentas entradas, o Piano na Floresta vai listar duzentas obras musicais, uma por cada ano, iniciando a contagem decrescente a partir do ano 2000. Se tudo correr conforme planeado, será possível identificar um disco ou uma obra composta em cada um dos anos no intervalo entre o ano 1800 e o ano 2000. Não há limitações de género musical. A qualidade e a reputação da obra não constituem critério de escolha, embora se entenda que ela é, de algum modo, representativa do ano em questão.

sábado, dezembro 06, 2008

Caros visitantes do fim-de-semana prolongado...

...tirem 10 minutos do vosso tempo para apreciarem Festival (mp3) dos Sigur Ròs. É por sons como estes que considero a música como a forma mais bela de expressão dos sentimentos e aquela que mais frequentemente me comove. O crescendo que se inicia aos 5 minutos é sublime, uma explosão de alegria que nos faz acreditar que o impossível é possível!...


Um dos melhores do ano de 2008, sem dúvida alguma!

sexta-feira, dezembro 05, 2008

1964. Getz/Gilberto - Stan Getz e João Gilberto

1964 é o ano de lançamento do disco que tornou a bossanova conhecida à escala mundial. O saxofonista americano Stan Getz e o guitarrista brasileiro João Gilberto formaram a dupla que fundiu o jazz e o samba num estilo inconfundível e cuja dimensão só pode ser compreendida devidamente mais de quatro décadas após a sua edição. A voz de Astrud Gilberto é o açúcar que nos vicia no género e adoça o consumar do amor ao som desta música. Os sons da bossanova são ternos e românticos, uma verdadeira linguagem universal do amor, com a extraordinária vantagem de serem cantados em português. Garota de Ipanema, Desafinado e Corcovado são os temas mais conhecidos do álbum, onde dominam composições de António Carlos Jobim, escritos a solo ou em parceria com Vinicius de Moraes.

A influência mundial do disco e a dimensão do fenómeno bossanova são comprovadas seguramente pelas centenas de artistas e versões dos temas mais conhecidos e o seu impacto na carreira de milhares de artistas dificilmente poderá ser comprovado apenas pelo número de vendas desta obra. A título de exemplo pessoal, quando conheci a Rebecca já ela ouvia bossanova, que posteriormente se revelaria numa influência decisiva na sua carreira musical.

Garota de Ipanema (mp3)
Desafinado (mp3)
Corcovado (mp3)
Doralice (mp3)
Projecto 200 anos de música. A ideia é simples. Ao longo de duzentas entradas, o Piano na Floresta vai listar duzentas obras musicais, uma por cada ano, iniciando a contagem decrescente a partir do ano 2000. Se tudo correr conforme planeado, será possível identificar um disco ou uma obra composta em cada um dos anos no intervalo entre o ano 1800 e o ano 2000. Não há limitações de género musical. A qualidade e a reputação da obra não constituem critério de escolha, embora se entenda que ela é, de algum modo, representativa do ano em questão.

segunda-feira, dezembro 01, 2008

1965. Rubber Soul - The Beatles

Os Beatles nunca foram uma das minhas bandas favoritas, mas devo reconhecer o seu mérito em atingir diferentes audiências ao longo dos anos, acabando por se tornar no mais famoso agrupamento musical da história. É também importante distinguir os Beatles dos primeiros álbuns, mais comerciais, mais melosos e mais pop, dos Beatles após Rubber Soul, muito mais profundos em termos poéticos e musicais.

Em 1965, longe vão já os tempos de "Love, love me do/You know I love you". Tal não significa que os Beatles se tenham tornado cínicos, o que provavelmente nunca seriam capazes, mas Rubber Soul já não é apenas música pop despreocupada sobre amores correspondidos na adolescência. O tom mudou. O disco é marcado pelas influências da música folk, dos poemas de Bob Dylan e da música do oriente.

Em termos poéticos, o tratamento do amor surge de forma mais pessimista, com relatos ambíguos sobre relações tumultuosas, amores extra-conjugais e vinganças passionais. Embora Norwegian Wood (This Bird Has Flown) constitua o exemplo mais visível das mudanças nas composições da dupla Lennon/McCartney, as canções I'm Looking Through You, Girl e Wait relatam igualmente outro tipo de tensões emocionais presentes numa relação, como sejam as mudanças numa relação produzidas pela passagem do tempo, o desprezo pelo cônjuge em situações sociais ou a distância emocional associada às ausências físicas. A escrita é mais madura e os temas são mais sérios do que era habitual na carreira dos Beatles até então.

Musicalmente, a gama de instrumentos musicais é alargada com a introdução da cítara (Norwegian Wood) e do cravo (In My Life), o que contribui para algum exotismo que sempre valorizo na música pop. Ainda não são as experiências grandiosas, induzidas pelos alucinogéneos, de Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band (1967), mas há definitivamente um progresso que permite vislumbrar uma maturidade em termos de composição e criatividade musical.

Norwegian Wood (mp3)
Nowhere Man (mp3)
Michelle (mp3)
In My Life (mp3)

Projecto 200 anos de música. A ideia é simples. Ao longo de duzentas entradas, o Piano na Floresta vai listar duzentas obras musicais, uma por cada ano, iniciando a contagem decrescente a partir do ano 2000. Se tudo correr conforme planeado, será possível identificar um disco ou uma obra composta em cada um dos anos no intervalo entre o ano 1800 e o ano 2000. Não há limitações de género musical. A qualidade e a reputação da obra não constituem critério de escolha, embora se entenda que ela é, de algum modo, representativa do ano em questão.

sábado, novembro 29, 2008

1966. Portrait - The Walker Brothers

Portrait é o segundo álbum dos The Walker Brothers, que não eram irmãos nem se chamavam Walker: Scott Engel, John Maus e Gary Leeds. À partida, os leitores podem pensar tratar-se de uma boys band da época, mas nada de mais errado. O som que caracteriza a banda é dominado pela voz de barítono de Scott 'Walker' e pela secção de cordas luxuosas que saturam todo o som. Ao produzirem uma versão muito própria da famosa wall of sound, criada pelo conhecidíssimo produtor Phil Spector, os The Walker Brothers viriam a influenciar músicos que merecem hoje o máximo respeito dos seus pares, como sejam os Tindersticks, Divine Comedy ou Nick Cave.

Portrait não é um álbum particularmente diferente dos três editados pela banda nos anos 60. Contém temas originais compostos por Scott (Saturday's Child ou I Can See It Now), alternados com clássicos do jazz e dos blues (Summertime, de Gershwin ou People Get Ready, de Curtis Mayfield). A reedição de que sou orgulhoso proprietário inclui ainda os lados A e B dos singles que foram lançados contemporaneamente ao álbum, dos quais se destaca naturalmente The Sun Ain't Gonna Shine Anymore, uma versão do original dos The Four Seasons, que recebe o tratamento habitual da banda e do seu produtor (Bob Crewe), transformando-o no sucesso que ainda hoje é plenamente reconhecido por quem gosta de clássicos da pop.

A brilhante carreira a solo de Scott Walker demonstra igualmente que o sucesso meteórico da banda não foi casual e se propagou no tempo com uma resistência invulgar, sobretudo no que se poderia pensar ser um estilo musical datado. Talvez a principal explicação para semelhante durabilidade resida na voz de Scott Walker, que considero das mais maravilhosas que já escutei.

The Sun Ain't Gonna Shine Anymore (mp3)

Projecto 200 anos de música. A ideia é simples. Ao longo de duzentas entradas, o Piano na Floresta vai listar duzentas obras musicais, uma por cada ano, iniciando a contagem decrescente a partir do ano 2000. Se tudo correr conforme planeado, será possível identificar um disco ou uma obra composta em cada um dos anos no intervalo entre o ano 1800 e o ano 2000. Não há limitações de género musical. A qualidade e a reputação da obra não constituem critério de escolha, embora se entenda que ela é, de algum modo, representativa do ano em questão.

quarta-feira, novembro 19, 2008

1967. O Melhor Ano de Sempre da Música Popular

O que dizer de 1967? Nunca um único ano gerou tanta música de qualidade. Fortemente coadjuvada pelo consumo maciço de drogas, sobretudo marijuana e LSD, a genialidade deste conjunto de músicos ficaria para a história e influenciaria quase todos os subgéneros musicais e bandas das décadas seguintes.
Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band - The Beatles (8º álbum)
Por várias vezes considerado pela crítica como o melhor álbum de música popular de todos os tempos. A Day in the Life (mp3)
Velvet Underground & Nico - Velvet Underground & Nico (1º álbum)
Da sua influência diz-se que apenas 1000 pessoas adquiriram a edição original, mas quase todas formaram um banda. Capa de Warhol. Heroin (mp3)

The Piper at the Gates of Dawn - Pink Floyd (1º álbum)
Astronomy Domine (mp3) e Interstellar Overdrive deram origem ao subgénero do space rock e transformaram o álbum de estreia dos Floyd numa obra-prima do psicadélico.
The Doors - The Doors (1º álbum)
Música fabulosa tocada e gravada em apenas 6 dias. The End (mp3)
Goodbye and Hello - Tim Buckley (1º álbum)
A voz soturna de Tim Buckley em Phantasmagoria in Two (mp3) é pop deprimente perfeita.
Forever Changes - Love (3º álbum)
O Summer of Love em versão discográfica. Alone Again Or (mp3)
Are You Experienced - Jimi Hendrix Experience (1º álbum)
Tocar guitarra com os dentes e depois pegar-lhe fogo, tanto metafórica quanto literalmente. FoxyLady (mp3)
Their Satanic Majesties Request - Rolling Stones
She's a Rainbow (mp3) desculpa estes dinossauros de todos os seus pecados posteriores.
Surrealistic Pillow - Jefferson Airplane (2º álbum)
Alice cresce e não cresce... Nunca mais olhei para Alice no País das Maravilhas do mesmo modo inocente. White Rabbit (mp3)
Chelsea Girl - Nico (1º álbum a solo)
Música folk de uma fonte inesperada, sobretudo pela influência dos Velvet. I'll Keep It with Mine (mp3)
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segunda-feira, novembro 17, 2008

1968. A Saucerful of Secrets - Pink Floyd

Por alguma razão as grandes bandas da música rock se tornaram grandes... No início das suas carreiras fizeram música com que ninguém sonhava. A fase psicadélica dos Pink Floyd é menos conhecida do que a generalidade dos seus trabalhos, mas nem por isso é pouco estimulante. Tal como aconteceria posteriormente, os Floyd iniciais estavam destinados a constituir uma influência para as décadas seguintes.

Let There Be More Light, tema de abertura do álbum A Saucerful of Secrets, foi recentemente alvo de um plágio descarado pela banda canadiana Hrsta, no tema Swallow's Tail do seu trabalho Stem Stem in Electro. Como o plágio é, segundo dizem, "a melhor forma de elogio", seguramente que a banda de Mike Moya tem uma admiração incontida por este álbum dos Floyd. Para ser inteiramente justo, hoje em dia os músicos inventam muito pouco. Tenho um amigo ainda mais fanático por música do que eu, que afirma que toda a música pop-rock foi inventada nos anos 60. Tudo o que se seguiu foi simplesmente redução, reciclagem e reutilização.
Nesse espírito, A Saucerful of Secrets é, como o próprio nome indicia, um maná de ideias para músicos da actualidade. Corporal Clegg é música de feira com uma guitarra distorcida proto-Pixies. Set the Controls for the Heart of the Sun é marcado pela percussão e pela voz quase sussurada de Roger Waters, sob um suave manto de teclas psicadélicas e um baixo em destaque. É completamente invulgar na sua estrutura: tem um nome longo, ausência de letras, presta-se à improvisação e tornar-se-ia um dos favoritos dos Floyd ao vivo nesta primeira fase da sua carreira. A terminar, Jugband Blues é o opus final de Syd Barrett com os Floyd.

Mas é o tema que dá título ao disco que o torna um produto radical para a era em que foi lançado. Os 12 minutos de A Saucerful of Secrets são uma experiência alucinogénica só ultrapassável por The End dos The Doors. Os primeiros 7 minutos são quase cacofonia sonora, difícil de ouvir para a maioria, mas extremamente interessante enquanto exercício de improvisação dissonante. Cada instrumento - guitarra eléctrica, bateria e piano - assume à vez o papel principal na condução do ouvinte para paisagens sonoras inexploradas no contexto do rock e que só têm paralelo nos trabalhos do compositor de música contemporânea György Ligeti. Por esse motivo, é absolutamente surpreendente que, lá pelos 8 minutos, se inicie uma secção final que suaviza tudo o que se ouve anteriormente. A Saucerful of Secrets é quase uma demonstração de como do caos sonoro pode surgir a música mais celestial e melódica, apenas porque os seus autores assim o desejaram.

Set the Controls for the Heart of the Sun (mp3)
A Saucerful of Secrets (mp3)

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sábado, novembro 15, 2008

Back to Black...

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quarta-feira, novembro 12, 2008

1969. Bitches Brew - Miles Davis

Miles Davis reinventou o jazz várias vezes ao longo da sua carreira, com o seu pecúlio de álbuns originais a roçar a meia centena. De todas as revoluções que operou, a fusão jazz-rock terá sido a mais radical, e aquela que lhe custou o maior número de fãs do "velho jazz". Bitches Brew (1969) é a face mais alucinante dessa revolução, perfeitamente visível no surrealismo da capa e da música.

Escrever sobre este duplo álbum, gravado em 1969, é uma tarefa quase impossível. A música não é melodiosa, previsível ou estruturada. Com duração superior a 20 minutos cada, os dois primeiros temas - Pharaoh's Dance e Bitches Brew - constituem longas improvisações do trompete de Miles Davis sobre um fundo caótico de sonoridades eléctricas, tecidas pelo piano e baixo eléctricos e pelo saxofone soprano. Tentar encontrar padrões melódicos no seio destas imensas improvisações pode ser tarefa hercúlea, sobretudo para ouvidos pouco pacientes para explorar texturas musicais densas.

Pelo que foi escrito no parágrafo anterior, ninguém esperaria que este fosse um best seller. Mas o facto é que Bitches Brew foi o primeiro disco de ouro de Miles Davis, vendendo mais de meio milhão de cópias nos Estados Unidos. Embora não seja um adepto fervoroso da Wikipedia, podem consultar o artigo referente ao álbum para constatarem o seu impacto em termos de inovação, gravação e pós-produção.

Bitches Brew (mp3)
Miles Runs the Voodoo Down (mp3)

Projecto 200 anos de música. A ideia é simples. Ao longo de duzentas entradas, o Piano na Floresta vai listar duzentas obras musicais, uma por cada ano, iniciando a contagem decrescente a partir do ano 2000. Se tudo correr conforme planeado, será possível identificar um disco ou uma obra composta em cada um dos anos no intervalo entre o ano 1800 e o ano 2000. Não há limitações de género musical. A qualidade e a reputação da obra não constituem critério de escolha, embora se entenda que ela é, de algum modo, representativa do ano em questão.

sexta-feira, outubro 31, 2008

Everybody gets a little lost sometimes...

Bairro alto. Galeria ZDB. 30 de Outubro de 2008.

Depois de uma experiência inesquecível com os Godspeed You Black Emperor! há uns anos atrás no Teatro Sá da Bandeira, desta vez assisti a uma versão stripped-down de um colectivo pós-rock: Thee Silver Mount Zion Memorial Orchestra and Tra-la-la Band with Choir.

A banda de Efrim Menuck é extremamente fluida na forma como se apresenta em palco. Desta vez, guitarra eléctrica, bateria, contra-baixo e dois violinos bastaram para interpretar temas dos álbuns mais recentes do colectivo de Montreal. Antes de mais, dizer que é inacreditável que uma banda quase acústica toque tão alto (!), mas acrescentar que a voz dos seus membros contribui para um caos sonoro permanente, que subsiste mesmo nos momentos mais calmos da interpretação. A razão prende-se com o “choir” de que fala o longo nome da banda, que assume a desarmonia das suas vozes como imagem de marca, levando o ouvinte a questionar-se sobre se não se trata de um puro e simples desafinar colectivo, por sinal bastante competente.

Os ASMZ são polémicos e políticos. Os temas longos e as letras particularmente esparsas escondem, por vezes, o carácter contestatário da banda inspirada de Efrim (na foto). God Bless Our Dead Marines é uma marcha fúnebre que expressa a revolta de uma geração contra o instigar do medo do terrorismo pela Administração Bush. As letras não deixam dúvidas sobre a hipocrisia dos líderes face à mortandade da guerra.

There's fresh meat in the club tonight
God bless our dead marines
Someone had an accident
Above the burning trees
While somewhere distant peacefully
Our vulgar princes sleep
Dead kids dont get photographed
God bless this century

God Bless Our Dead Marines demonstra esta veia intervencionista, embora com um cunho pessoal assumido, o que a torna emocionalmente arrasadora. Cantada de forma apaixonada e sofrida, é difícil ficar indiferente à mensagem. Arrepiei-me quando comecei a escutar este crescendo, simultaneamente épico e funéreo:

Lost a friend to cocaine
A couple friends to smack
Troubled hearts map deserts
And they rarely do come back
Lost a friend to oceans
Lost a friend to hills
Lost a friend to suicide
Lost a friend to pills
Lost a friend to monsters
Lost a friend to shame
Lost a friend to marriage
Lost a friend to blame
Lost a friend to worry and
Lost a friend to wealth
Lost a friend to stubborn pride
And then i lost myself

Quanto à música, há claramente pontos de contacto com as bandas mais conhecidas de Montreal e que gravam no mesmo estúdio Hotel 2 Tango, como sejam os Arcade Fire ou os Godspeed You Black Emperor. No entanto, os ASMZ parecem ter dado um passo atrás, recusando entrar em “excessos” melódicos e preferindo a distorção das guitarras, os riffs dissonantes e a cantoria desafinada como imagem de marca. Por isso mesmo, têm um número de fãs mais diminuto e menos afoito que, apesar da recepção calorosa, estiveram longe de entrar em transe ou histeria colectiva. Um concerto eficaz para quem não conhecia a banda, mas que deixa a chorar por mais quem os adora.

Set List:

1. 13 blues for thirteen moons
2. One million died to make this sound
3. God bless our dead marines
4. Take these hands and throw them in the river
5. There is a light
6. Microphones in the trees