sexta-feira, junho 27, 2008

1991. White Light From the Mouth of Infinity - Swans

Na costa oeste dos EUA, vivia-se o ano do grunge. Pearl Jam, Alice in Chains, Soundgarden e, sobretudo, os Nirvana eram o centro das atenções. Um dos temas mais populares da década, Smell Like Teen Spirit, servia de hino de revolta a uma geração e conduzia os Nirvana a um ponto de não-retorno. Na América, Nevermind é o álbum de uma geração de revoltados contra o establishment do rock decadente dos Def Leppard, Motley Crue, Ratt e Poison. Tal como o punk no seu tempo, o grunge promoveu uma saudável "limpeza étnica" no seio da música popular. Tal como o punk no seu tempo, o grunge acabaria por cometer os mesmos excessos.

Mas na Costa Leste o tempo era de reinvenção. Os Swans de Michael Gira abandonavam uma das suas muitas peles e renasciam com White Light From the Mouth of Infinity. A voz de Gira é grave, profunda, e transpira arrogância. As letras manifestam revolta, egoísmo, desolação, isolamento e morte. A música alterna as melodias suaves com momentos de descarga sonora.

O álbum vale fundamentalmente pelo seu conjunto, pela forma como os temas estão encadeados e pela utilização de um vasto leque de instrumentos, dos quais se destaca a percussão poderosa, que contribui para uma textura musical sufocante. Os temas mais marcantes são, porventura, Love Will Save You, Miracle of Love, e Song For the Sun. O poema de Failure é o mais notável do disco e um dos mais impressionantes relatos do que a obsessão com um sucesso pode fazer para a destruição de um ser humano.

Em 1991 merecem ainda destaque os álbuns:
  • Yerself is Steam - Mercury Rev
  • The Orb's Adventures Beyond the Ultraworld - The Orb
  • Out of Time - REM
  • Trompe Le Monde - Pixies
  • Loveless - My Bloody Valentine
  • Achtung Baby - U2
  • Island - Current 93
  • On the Way Down From the Moon Palace - Lisa Germano
Projecto 200 anos de música. A ideia é simples. Ao longo de duzentas entradas, o Piano na Floresta vai listar duzentas obras musicais, uma por cada ano, iniciando a contagem decrescente a partir do ano 2000. Se tudo correr conforme planeado, será possível identificar um disco ou uma obra composta em cada um dos anos no intervalo entre o ano 1800 e o ano 2000. Não há limitações de género musical. A qualidade e a reputação da obra não constituem critério de escolha, embora se entenda que ela é, de algum modo, representativa do ano em questão.

quarta-feira, junho 25, 2008

1992. Thunder Perfect Mind - Current 93

Thunder Perfect Mind é o mais longo disco de originais dos Current 93, com quase 79 minutos de música, e um dos mais consistentes e articulados do início ao fim. É considerada uma obra-prima dentro do pouco divulgado género do folk apocalíptico, termo usado para descrever música à base de guitarra acústica sombria e letras melancólicas e depressivas. Os textos são notoriamente inspirados na poesia de William Blake e a música nos temas folk inglês de Shirley Collins. Embora a guitarra acústica seja predominante, há aspectos muito pouco convencionais neste disco. Os primeiros 30 minutos (9 faixas) são extremamente melódicos, marcados pela guitarra acústica e pela flauta gentilmente tocadas e pela voz do “outro mundo” de David Tibet. Os meus momentos favoritos são In the Heart of the Wood and What I Found There e A Lament For My Suzanne.

Este excelente disco de música folk muda significativamente de sonoridade a partir da faixa número 10, All the Stars are Dead Now. Inesperadamente, é aqui introduzido um sampler de Saint Louis Blues, um original dos anos 20, do swing e das big-bands. Simplesmente desconcertante. Mas nada prepara o ouvinte para o que se segue. Entra um repetitivo riff de guitarra acústica tocado até à náusea e acompanhado por Tibet a recitar um longo poema, de conteúdo largamente obscuro e ininterpretável, mas que, tanto quanto consigo compreender, é uma profecia sobre o apocalipse. O tom sinistro prossegue com Rosy Stars Tears From Heaven e a voz de Tibet, sinistra na faixa anterior, torna-se aqui simplesmente diabólica, ainda que sussuradamente diabólica.

Como a surpresa é, por vezes, a mãe da genialidade, When the May Rain Comes, uma versão de um original dos Sand, é lindíssima. Os instrumentos usados (baixo, flauta e guitarra) produzem uma sonoridade melódica e a interpretação pelo dueto David Tibet e Rose McDowall faz estragos na mais empedernida insensibilidade. Segue-se o tema título, Thunder Perfect Mind, um crescendo musical ameaçador acompanhado pela leitura de textos do livro homónimo.

Depois de 55 minutos de música deslumbrante, faltava um tema épico para atirar tudo o que é convencional pela janela. Hitler as Kalki dura 16 minutos e 28 segundos e é dedicado ao pai de David Tibet, já falecido, que combateu na II Guerra Mundial. O início é influenciado por música tradicional hindu, mas a peça musical transfigura-se lentamente numa espiral eléctrica, levemente tocada pelo minimalismo, com David Tibet a dissertar sobre Hitler e o apocalipse. No texto que acompanha o cd, Tibet explica-nos que algumas pessoas consideram que Hitler foi Kalki, a décima e última incarnação do Deus Hindu Vishnu, que vem num cavalo branco para destruir o cosmos no final de cada ciclo universal. Tibet incita à reflexão e à oração para que a destruição termine e um novo paraíso e uma nova Terra possam surgir.

Para além de ser um disco místico e experimental, Thunder Perfect Mind é também uma obra complexa sob o ponto de vista lírico. Já tentei interpretar muita da poesia contida nesta obra, mas as conclusões são pouco satisfatórias. Os conteúdos genéricos são o apocalipse, o arrependimento, a piedade e a salvação, mas qualquer interpretação imediata dos textos aqui contidos será, muito provavelmente, precipitada.

Ouvir A Sad Sadness Song

A minha crítica ao disco Thunder Perfect Mind apareceu publicada pela primeira vez na Rede 2020, Vol. 3, Nº5

Projecto 200 anos de música. A ideia é simples. Ao longo de duzentas entradas, o Piano na Floresta vai listar duzentas obras musicais, uma por cada ano, iniciando a contagem decrescente a partir do ano 2000. Se tudo correr conforme planeado, será possível identificar um disco ou uma obra composta em cada um dos anos no intervalo entre o ano 1800 e o ano 2000. Não há limitações de género musical. A qualidade e a reputação da obra não constituem critério de escolha, embora se entenda que ela é, de algum modo, representativa do ano em questão.

segunda-feira, junho 23, 2008

1993. So Tonight That I Might See - Mazzy Star

Este é um daqueles discos que passou despercebido. A sobriedade da capa, a diminuta visibilidade comercial da banda e a atitude algo despojada da música conduziram os Mazzy Star a um quase anonimato, do qual foram salvos pela impressionante voz de Hope Sandoval. A música oscila entre o psicadelismo dos Velvet Underground, a distorção de guitarras dos Jesus & The Mary Chain e o blues-rock dos Doors. Mas o papel da exótica e enigmática vocalista dos Mazzy Star é tão preponderante, que a música quase assume papel secundário sobre o qual desfila a voz de seda de Sandoval.

Fady Into You é quase celestial. Mary of Silence é de uma textura musical densa, a fazer lembrar os Velvet Underground na sua vertente mais negra. Blue Light é uma balada doce e espiritual. Into Dust é a voz lacónica de Hope Sandoval a pregar no deserto sobre uma guitarra dedilhada que impõe uma nostalgia avassaladora. Seria curioso descobrir o que inspira esta banda de culto que, após três discos excelentes, nada editou nos últimos 12 anos. Mas a personalidade esquiva e distante dos seus elementos impede qualquer vislumbrar de luz nesta paisagem sonora crepuscular.

Ouvir Into Dust

Projecto 200 anos de música. A ideia é simples. Ao longo de duzentas entradas, o Piano na Floresta vai listar duzentas obras musicais, uma por cada ano, iniciando a contagem decrescente a partir do ano 2000. Se tudo correr conforme planeado, será possível identificar um disco ou uma obra composta em cada um dos anos no intervalo entre o ano 1800 e o ano 2000. Não há limitações de género musical. A qualidade e a reputação da obra não constituem critério de escolha, embora se entenda que ela é, de algum modo, representativa do ano em questão.

sábado, junho 21, 2008

1994. Dummy - Portishead

Os Portishead são um duo de Bristol, Inglaterra, e representam o apogeu de um género musical que ficou conhecido como trip-hop e que integra igualmente os Massive Attack e Tricky, só para mencionar os mais conhecidos fundadores.

A figura franzina de voz frágil é Beth Gibbons, mas a mensagem transmitida é poderosa. Dummy é um disco que me marca pela capacidade dos músicos em abdicarem da estrutura tradicional de uma "banda pop-rock" e apostarem no sampling, nos loops e no scratch para produzirem uma sonoridade original, associada a temáticas intemporais como o amor, o sonho, a verdade e a vida. Embora o disco tenha sido editado em 1994, foi só entre 1998 e 2001 que o ouvi centenas de vezes, uma por cada tarde que passava na Epitome Coffee House, em Tallahassee, a estudar para o meu doutoramento. Naquele local, caracterizado pela irreverência e inconformismo de um bando de não-alinhados na cultura americana dominante, era habitual ouvir Dead Can Dance, Blues Traveller ou Björk. Os Portishead também faziam parte do lote de escolhas do barista/dj de circunstância.

Projecto 200 anos de música. A ideia é simples. Ao longo de duzentas entradas, o Piano na Floresta vai listar duzentas obras musicais, uma por cada ano, iniciando a contagem decrescente a partir do ano 2000. Se tudo correr conforme planeado, será possível identificar um disco ou uma obra composta em cada um dos anos no intervalo entre o ano 1800 e o ano 2000. Não há limitações de género musical. A qualidade e a reputação da obra não constituem critério de escolha, embora se entenda que ela é, de algum modo, representativa do ano em questão.

sexta-feira, junho 20, 2008

1995. Tindersticks II - Tindersticks

O primeiro álbum homónimo dos Tindersticks foi lançado em 1993, tornando-se um sucesso junto da crítica e criando um fenómeno de culto que se propagou rapidamente. Por altura do segundo álbum homónimo, toda a crítica vaticinava o fiasco, segundo o princípio que quando uma banda atinge sucesso de forma fulgurante com o primeiro disco, limita-se a repetir a fórmula de sucesso no segundo. Neste caso, a crítica estava enganada.

Tindersticks II é um disco fenomenal. São 70 minutos de música perfeita, que utiliza luxuosas secções de cordas e combinações de acordes invulgares. Os enigmáticos sussurros de El Diablo en el Ojo, a decadência das relações amorosas em Talk To Me, a promiscuidade em No More Affairs, e o serrote de Vertrauen III proporcionam uma densidade musical única e de elevada intensidade poética e lírica. Juro-vos que, a certa altura, a voz de Stuart Staples a murmurar aquela poesia carregada de fina ironia, é veludo puro para os meus ouvidos.

Depois, há esse furacão chamado My Sister, que já ouvi seguramente mais de um milhar de vezes! Que mente lunática seria capaz de conceber tal peça de poesia? Um esquizofrénico, talvez… E quanta coragem é necessária para assumir 8 minutos e 15 segundos de banda sonora a uma história delirante sobre uma família que atrai todas as tragédias possíveis e imaginárias? Quem se lembraria de combinar baixo, guitarra acústica e bateria, com vibrafone, trombone, violoncelo e serrote? Se nunca ouviram My Sister, não conhecem a combinação perfeita de letra, música e voz. Podem ouvir alguns temas do álbum no site da banda.

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sábado, junho 14, 2008

1996. Beautiful Freak - Eels

Para além dos bons momentos que passei a ouvir este álbum, há uma relação afectiva que se estabeleceu com os estranhos personagens de olhos arregalados que perpassam a arte da capa e do interior. A música é de uma ternura comovente, a começar pela suavidade instrumental que acompanha as letras emotivas e atormentadas de Mark Oliver Everett e a acabar nos nomes das canções Beautiful Freak e My Beloved Monster. Esta última é tão amorosa que acabou na banda sonora do filme Shrek. O grande êxito do álbum é Novocaine for the Soul, que podem ouvir aqui. Ali ao lado, toca outro excelente tema aqui mencionado: My Beloved Monster.

Projecto 200 anos de música. A ideia é simples. Ao longo de duzentas entradas, o Piano na Floresta vai listar duzentas obras musicais, uma por cada ano, iniciando a contagem decrescente a partir do ano 2000. Se tudo correr conforme planeado, será possível identificar um disco ou uma obra composta em cada um dos anos no intervalo entre o ano 1800 e o ano 2000. Não há limitações de género musical. A qualidade e a reputação da obra não constituem critério de escolha, embora se entenda que ela é, de algum modo, representativa do ano em questão.

sexta-feira, junho 13, 2008

1997. Ladies and Gentlemen We Are Floating In Space - Spiritualized

Variando entre o rock-'n'-roll puro e o rock cósmico de influência Pink Floyd, os Spiritualized de Jason Pierce sempre foram uma anomalia no panorama pop-rock britânico. Criticado pelo uso excessivo de instrumentação sinfónica (um dos álbuns inclui arranjos para uma sinfonia com mais de 100 músicos!), o líder e único membro permanente da banda é um caso raro de genialidade comercialmente reconhecida, com Ladies and Gentlemen We Are Floating In Space a bater os álbuns Ok Computer dos Radiohead e Urban Hymns dos Verve como álbum do ano de 1997 para o New Musical Express.

O título do álbum é retirado do livro de Jostein Gaarder, O Mundo de Sofia, e a sua aparência exterior e interior aproxima-se de uma caixa de medicamentos, incluindo substância activa, dose recomendada, efeitos secundários e contra-indicações. Ao longo de 70 minutos somos transportados para uma enorme variedade de sons, incluindo canções rock (Electricity e Come Together), temas românticos (I Think I'm in Love e Broken Heart), culminando numa peça épica, inebriante e atonal com 17 minutos de duração (Cop Shoot Cop).

Projecto 200 anos de música. A ideia é simples. Ao longo de duzentas entradas, o Piano na Floresta vai listar duzentas obras musicais, uma por cada ano, iniciando a contagem decrescente a partir do ano 2000. Se tudo correr conforme planeado, será possível identificar um disco ou uma obra composta em cada um dos anos no intervalo entre o ano 1800 e o ano 2000. Não há limitações de género musical. A qualidade e a reputação da obra não constituem critério de escolha, embora se entenda que ela é, de algum modo, representativa do ano em questão.

quinta-feira, junho 12, 2008

1998. F # A # Infinity - Godspeed You Black Emperor!

"The car is on fire/and there is no driver at the wheel". É com esta tirada lynchiana que se inicia o monólogo sinistro do magnífico álbum de estreia dos canadianos Godspeed You Black Emperor! Esqueçam tudo o que já ouviram nas vossas vidas. Este disco desafia todas as convenções musicais e apresenta o apocalipse em versão enigmática. Não existem canções ou temas no sentido canónico do termo e as faixas sucedem-se sem clara separação entre elas.

A produção cola discursos apocalípticos de pregadores de rua com loops intermináveis em Fá sustenido e Lá sustenido; daí o título do disco. O mais extraordinário é que esta obra é muito mais acessível do que aparenta à partida, muito por via dos arranjos orquestrais caracterizados por crescendos grandiosos e explosões sonoras controladas. Para um disco com mais de uma década, ainda é avançado para o nosso tempo, talvez porque o fim do mundo ainda não está próximo... Para ficarem com uma ideia do que é o álbum, podem ouvir (e ver) os primeiros 9 minutos:



Projecto 200 anos de música. A ideia é simples. Ao longo de duzentas entradas, o Piano na Floresta vai listar duzentas obras musicais, uma por cada ano, iniciando a contagem decrescente a partir do ano 2000. Se tudo correr conforme planeado, será possível identificar um disco ou uma obra composta em cada um dos anos no intervalo entre o ano 1800 e o ano 2000. Não há limitações de género musical. A qualidade e a reputação da obra não constituem critério de escolha, embora se entenda que ela é, de algum modo, representativa do ano em questão.
http://sendmedeadflowers.com/music/hungover.mp3

domingo, junho 08, 2008

1999. The Fragile - Nine Inch Nails

The Fragile é o momento mais alto da carreira dos Nine Inch Nails (NIN). É um duplo álbum denso, deprimente e com poucos pontos de luz: "she shines/in a world full of ugliness/she matters/when everything is meaningless". Até por definição, os NIN são uma banda pesada, mas, muitas vezes, a violência da música esconde a qualidade das letras. Em The Fragile, talvez pela maior textura atmosférica da instrumentação, as letras aparecem mais realçadas, permitindo um maior reconhecimento de Trent Reznor enquanto compositor. Os poemas curtos que acompanham quase todos os temas transmitem cinismo, desespero e ausência de esperança. Ouvir The Great Below.

Projecto 200 anos de música. A ideia é simples. Ao longo de duzentas entradas, o Piano na Floresta vai listar duzentas obras musicais, uma por cada ano, iniciando a contagem decrescente a partir do ano 2000. Se tudo correr conforme planeado, será possível identificar um disco ou uma obra composta em cada um dos anos no intervalo entre o ano 1800 e o ano 2000. Não há limitações de género musical. A qualidade e a reputação da obra não constituem critério de escolha, embora se entenda que ela é, de algum modo, representativa do ano em questão.

quinta-feira, junho 05, 2008

2000. Felt Mountain - Goldfrapp

A atmosfera etérea é proporcionada pela fusão entre a suavidade da electrónica, a batida do Trip-Hop e a voz de Alison Goldfrapp, plena de sedução. Não sendo um campeão de vendas, marcou o ano 2000 e representa bem a passagem do milénio, com as hesitações constantes entre a segurança do passado e a incerteza do mundo global futuro.

Projecto 200 anos de música. A ideia é simples. Ao longo de duzentas entradas, o Piano na Floresta vai listar duzentas obras musicais, uma por cada ano, iniciando a contagem decrescente a partir do ano 2000. Se tudo correr conforme planeado, será possível identificar um disco ou uma obra composta em cada um dos anos no intervalo entre o ano 1800 e o ano 2000. Não há limitações de género musical. A qualidade e a reputação da obra não constituem critério de escolha, embora se entenda que ela é, de algum modo, representativa do ano em questão.

Projecto 200 Anos de Música

A ideia é simples. Ao longo de duzentas entradas, o Piano na Floresta vai listar duzentas obras musicais, uma por cada ano, iniciando a contagem decrescente a partir do ano 2000. Se tudo correr conforme planeado, será possível identificar um disco ou uma obra composta em cada um dos anos no intervalo entre o ano 1800 e o ano 2000. Não há limitações de género musical. A qualidade e a reputação da obra não constituem critério de escolha, embora se entenda que ela é, de algum modo, representativa do ano em questão.

sexta-feira, maio 30, 2008

quarta-feira, maio 28, 2008

Coco Rosie: Surrealismo em Palco

É sempre um prazer ser surpreendido. Ontem à noite, no Theatro Circo, Coco Rosie fizeram exactamente isso. A apresentação do 3º álbum, o sucessor de Noah's Ark, com o estranho título "The Adventures of Ghosthorse and Stillborn", foi coroada de sucesso, ainda que se verifique uma ligeira alteração na direcção musical da banda. A música é definida no sítio My Space como "Chinese Pop, Acappella, Drum and Bass", mas estes epítetos são demasiado redutores para tanta diversidade musical. As vozes de Sierra e Bianca oscilam entre o lírico e o "cana rachada", mas sempre de uma doçura comovente.

A combinação de instrumentos é invulgar. Para além dos convencionais piano e guitarra acústica, tudo o resto são formas excêntricas, deliciosamente excêntricas, de fazer música. Uma harpa, um telefone de brinquedo, vários samplers de animais e uma extraordinária "beatbox humana", ou seja, um MC que substitui a caixa de ritmos electrónica. Uma das principais diferenças em palco reside na projecção de filmes surrealistas ao longo de todo o concerto, com uma estética muito semelhante a "The Grandmother", a infâme curta-metragem do início da carreira de David Lynch. O conjunto da instalação - música, poesia e filme - demonstram uma criatividade e uma irreverência apaixonante. Confesso-me rendido.

Aqui fica Tekno Love Song, uma das minhas favoritas:

sexta-feira, maio 02, 2008

Plan 9 - From Outer Space (1959) by Ed Wood Jr.

Todos nós já vimos filmes maus, daqueles em que nos arrependemos profundamente de ter entrado no cinema ou no clube de vídeo. No entanto, poucos assistimos a filmes maus por opção.

Plan 9 - From Outer Space é um filme tão mau, tão mau... que é bom! O narrador do filme oscila entre o kitsch e o creepy. Os discos voadores são pratos de cozinha suspensos por fios (pouco) transparentes. Os mortos vivos, erguidos do túmulo, imitam os movimentos de alguém a mexer-se numa sala completamente às escuras. Os extra-terrestres parecem demasiado... terrestres. Os efeitos sonoros assemelham-se à ventania que assobia nas esquinas dos edifícios. A interpretação de Bela Lugosi é demasiado breve para ultrapassar a deliciosa mediocridade em que o filme decorre.

Plan 9 é uma caldeirada hilariante, servida por aquele que muitos classificaram como o pior realizador de todos os tempos: Edward Wood Jr.

sexta-feira, abril 25, 2008

4. Persona (1966) - Ingmar Bergman


Persona é provavelmente um dos filmes mais "difíceis" que já vi. Para além da surreal sequência de abertura, que mistura uma crucifixão, uma tarântula, um pénis erecto, uma ovelha a ser abatida, excertos de filmes mudos e vários corpos inertes/mortos em camas de hospital, o filme é trespassado por uma aura misteriosa e demencial. Bergman não é um cineasta fácil. Já o sabia. Mas Persona é, de entre os objectos cinematográficos do autor, o mais intrigante.

Elizabeth Vogler (Liv Ullmann), uma actriz que interpreta o papel de Elektra numa peça deixa subitamente de falar e é internada num hospital. Alma (Bibi Andersson) é a enfermeira encarregue de cuidar de Elizabeth, acabando ambas por se instalarem numa casa de praia da directora do hospital. Ao longo do seu contacto, a enfermeira fala com Elizabeth como se ela fosse sua interlocutora e revela-lhe as suas experiência sexuais precoces e um aborto ocorrido na sequência de uma relação com um homem casado, entre outros sentimentos e emoções.

Após meses sem que Elizabeth pronuncie uma palavra, Alma oferece-se para depositar no correio a correspondência pessoal da actriz. Movida pela curiosidade, acaba por ler a carta dirigida à administradora, na qual Elizabeth afirma estudar em detalhe o comportamento da enfermeira. A partir deste momento, a personagem de Alma transfigura-se por completo, passando a expressar o seu ódio e desprezo pela actriz.

O aspecto mais complexo do filme reside no facto de, sobretudo após a leitura da carta, as personalidades de Elizabeth e Alma se confundirem, ao ponto de confundir o espectador sobre quem exerce a actividade profissional e quem é a paciente (um fenómeno designado de transferência em psicanálise). Mais do que isso, uma interpretação alternativa sugere que as duas personagens são uma só pessoa, sendo Elizabeth a pessoa "interior" e Alma a sua versão "exterior" ou "revelada". Várias cenas ao longo do filme contribuem para algum fundamento desta explicação.

Para mais informação e "interpretações alternativas" sobre Persona, aconselha-se a leitura do longo artigo em inglês na Wikipedia.

terça-feira, abril 22, 2008

The Birth of a Nation (1915) - D. W. Griffith

No passado dia 9 de Abril comemoraram-se 143 anos do fim da Guerra Civil Americana, tantos quantos nos separaram, no dia 14 de Abril, do assassinato do Presidente Abraham Lincoln. Foi com alguma dose de coragem que cometi a proeza de ver, sem interrupções, a versão original e integral (duração superior a 3 horas) de “O Nascimento de uma Nação” (The Birth of a Nation) (1915) de Douglas W. Griffith.

O filme encontra-se dividido em duas partes, iniciando-se com o dealbar da Guerra Civil, retratando o assassinato do Presidente Lincoln e culminando com o período da Reconstrução no pós-guerra. A história das famílias Cameron (do Sul) e Stoneman (do Norte) é contada sob a perspectiva da primeira, pelo que o filme está embebido de um racismo quase omnipresente, visível nos textos e nas representações caricatas nos negros, quase sempre associados a comportamento patetas e destituídos de significado racional. Nesse aspecto, o filme é quase obsceno para os dias de hoje, mas não deixa de ser um documento histórico, sobretudo no modo como retrata a visão transmitida pelos brancos colonizadores e pró-esclavagistas no tempo em que a acção decorre e mesmo no momento em que a obra foi realizada.

The Birth of a Nation é igualmente famoso pelo tratamento nobre que dá à Ku Klux Klan, retratando a organização como defensora da ordem e da democracia, contra a anarquia representada pela atribuição do poder aos negros no pós-Guerra Civil. No entanto, esta organização racista e segregacionista viria a ser responsável, ao longo dos seus mais de cem anos de existência, por centenas de episódios criminosos contra os negros do sul dos Estados Unidos.

Os meios utilizados são notáveis: 5000 cenas diferentes, 1357 planos individuais, 18000 actores e figurantes, 3000 cavalos e 7 meses de produção. Para compreenderem quão extraordinários são estes números, lembrem-se que o filme é considerado o primeiro grande épico do cinema mudo e foi realizado apenas três anos após o afundamento do Titanic! As notas da edição realçam igualmente que nenhum outro filme se pode gabar de um esforço tão gigantesco, sobretudo na actualidade, em que os meios digitais dispensam cada vez mais a presença do elemento humano nas cenas mais grandiosas.

Apesar das observações sobre a qualidade dos actores do cinema mudo serem, como é lógico, altamente subjectivas, não posso deixar de destacar a encantadora Lillian Gish. As suas expressões ternas e arrebatadas ainda hoje apaixonam e, correndo o risco de parecer ridículo, sinto-me enfeitiçado pelo seu desempenho. Tanto assim que já adquiri mais um par de filmes em que Lillian Gish é a actriz principal, também estes mudos e a preto-e-branco. O poder dos clássicos!

sábado, abril 05, 2008

Diário Mali (2003)

Não sei como é possível este disco ter-me passado ao lado. Diário Mali é uma colaboração de Ludovico Einaudi, um pianista italiano e do guitarrista Ballaké Sissoko, originário do Mali. Interpretações brilhantes, explorando diversos géneros músicais através do diálogo constante entre a guitarra acústica e o piano, transportam-nos mentalmente para as paisagens africanas dos nossos sonhos e dos nossos filmes predilectos.

Altamente recomendado para amantes, sonhadores e outros exploradores.

domingo, fevereiro 17, 2008

Belo Mundo

Depois de 36 anos de vida e mais de um milhar de filmes, posso afirmar que já não fico impressionado com a maioria dos filmes que vejo. Não tendo sequer especial apreciação por romances históricos, foi com alguma surpresa que constatei que ainda me surpreendo com o trabalho de alguns realizadores.

A história inicia-se em 1607, com a chegada de três embarcações inglesas à costa da Virginia para iniciar a colonização daquela parte do continente americano e na expectativa de descobrir a passagem por ocidente para as Índias Orientais. O grupo de pouco mais de uma centena de colonizadores depara-se imediatamente com doenças e fome que dizimam quase por completo os habitantes do Forte de Jamestown. A relação entre os índios e os colonos é cheia de tensões e incompreensões, mas, apesar disso, é a amizade que se desenvolve entre a Princesa Pocahontas (filha do chefe da Tribo) e o capitão John Smith que permite que os colonos sejam salvos pelos mantimentos fornecidos pelos índios durante o longo e duro Inverno do primeiro ano. O resto do filme incide sobretudo na adaptação de Pocahontas ao modo de vida dos ingleses, bem como o seu casamento e constituição de família com John Rolfe.

O que mais me impressionou no filme foi a fidelidade da recriação histórica. Os índios das tribos Powhatan e Algonquin da Virginia são mesmo representados por descendentes de índios, as suas pinturas, cortes de cabelo e vestes são fiéis às dessas tribos, as embarcações inglesas são verdadeiras (emprestadas por um museu), as armas são reproduções fiéis utilizando os materiais usados naquele tempo, as construções das tendas e do forte obedecem à "tecnologia" da época e a linguagem e os rituais índios reflectem a cultura transmitida por via da tradição oral.

Por tudo isto, o filme é extraordinário, mas há alguns aspectos que o tornam ainda mais belo. A realização de Terrence Malick é prodigiosa. Para além de uma mise-en-scène excelente, a forma cuidada como a câmara é operada, os planos muito demorados, sem pressa de avançar para a cena seguinte, e a fotografia fantástica, tornam o filme um colírio para os olhos e para a alma de quem vê, isto apesar da visão algo negra dos seres humanos que perpassa grande parte da história. Conheço quem tenha achado o filme monótono, mas julgo que essa crítica se deve ao facto de não estarmos habituados a ver filmes comerciais americanos com um tratamento tão cuidado da imagem e da realização.

sábado, fevereiro 02, 2008

Hopper

Se um dia ganhar o Euromilhões, compro um original de Edward Hopper. A representação da luz, a nostalgia de uma América passada e o ambiente misterioso que transmitem os seus quadros... fascinam-me.

Western Motel (1957) by Edward Hopper

sábado, janeiro 26, 2008

O famoso Rach 3

Como podem depreender pelo nome do blogue, o piano é o meu instrumento musical favorito. No contexto da chamada música clássica, o piano tem um conjunto variado de utilizações. Em primeiro lugar, pode ser utilizado individualmente, em sonatas (como em Beethoven, Brahms, Schubert, Prokofiev, etc.), nocturnos (Chopin, Fauré, Poulenc, etc.), prelúdios (Chopin, Rachmaninov) canções sem palavras (Mendelssohn) ou outras peças avulsas (Bartok, Grieg, Sibelius). O piano é também usado em conjunto com outro(s) instrumento(s), como é o caso das sonatas para violino e piano, quintetos (Schubert, Rimsky-Korsakov) ou sextetos (Glinka).

Mas, para mim, a utilização mais magnífica e genial do piano é no contexto dos concertos para piano e orquestra. Quase todos os grandes compositores produziram obras deste tipo, incluindo Beethoven, Tchaikovsky, Brahms, Chopin e Liszt entre os românticos ou Rachmaninov, Shostakovitch, Ravel ou Gershwin entre os pós-românticos.

De todos os concertos para piano e orquestra já compostos, nenhum atingiu a notoriedade do Concerto para Piano e Orquestra Nº3 em Ré menor, Op. 30 de Sergei Rachmaninov. Perdoe-se-me a comparação, mas o estatuto deste concerto assemelha-se a um tema de música rock, tal a controvérsia gerada. Entre os amantes do cinema, a peça é conhecida por ser o célebre tema de "Shine", um filme que conta a história dramática do pianista David Helfgott, um génio autista maltratado pelo pai e cujo grande desafio é interpretar ao piano o dito concerto.

Porém, o principal motivo para o estatuto da peça é o facto de ser considerada "impossível de tocar". Não será exactamente assim, mas digamos que nem todas as interpretações que podem encontrar em cd obedecem à partitura original escrita por Rachmaninoff, em particular pela não inclusão da cadenza Ossia, que nem o próprio compositor-pianista conseguia tocar. Para piorar as coisas, as composições para piano da autoria do compositor russo são conhecidas por exigirem mãos grandes (!), devido à quantidade de teclas abrangidas pelos acordes. Esta exigência coloca um obstáculo imediato às mulheres intérpretes e explica, em parte, as variações relativamente à partitura original. Ainda assim, estão disponíveis no You Tube interpretações brilhantes de Olga Kern e Martha Argerich, provavelmente a melhor pianista de sempre. A polémica é adensada pelo facto de Rachmaninov, ele próprio pianista, ter afirmado que a sua interpretação do tema por si composto estava longe de ser satisfatória, sobretudo após ter ficado maravilhado ao assistir à interpretação de Vladimir Horowitz em 1930.

No You Tube, esta situação dá origem a discussões acaloradas, por vezes a raiar o insulto, sobre quem é o melhor intérprete deste concerto. A coisa é tão doentia que, um internauta mais empenhado disponibilizou 12 interpretações não identificadas do início do 3º andamento, para que os defensores de uma particular interpretação pudessem testar os seus conhecimentos. Demorou mais de um mês para que todas as interpretações fossem correctamente identificadas.

A audição repetida 12 vezes de cerca de um minuto e meio é um pouco obsessiva e pode deixar-vos tontos, mas um ouvido treinado, que assumo não ter, detecta diferenças evidentes entre interpretações: diferenças de ritmo, notas mal dadas (mais frequente do que se pensa), determinação no ataque ao instrumento (um dos pianistas intérpretes é acusado de carniceiro num dos comentários) e, no limite, variação no grau de paixão colocado na interpretação.

Como é pouco provável que vocês queiram fazer o teste, deixo-vos com os links para o You Tube e a lista das 12 interpretações do Rach 3:
1-Alexis Weissenberg
2-Emil Gilels
3-Van Cliburn
4-Vladimir Horowitz
5-Martha Argerich
6-Arcadi Volodos
7-David Helfgott
8-Zoltán Kocsis
9-Vladimir Ashkenazy
10-Andrei Gavrilov
11-Jorge Bolet
12-Bart Berman
De todas as interpretações disponíveis no mercado, sou proprietário de apenas duas: Martha Argerich e André Watts (não está na lista).


sábado, janeiro 19, 2008

Toponímia Floridiana

A toponímia portuguesa é, todos o sabemos, hilariante. Portugal é o único país do mundo em que se pode ir da Pica (Fafe) à Coina (perto de Setúbal) e parar em Venda de Raparigas (próximo de Leiria) para descansar.
Tendo passado anos a lidar com as bases de dados dos municípios da Florida, posso afirmar que não somos assim tão imaginativos. É verdade que os nomes dos lugares americanos sofreram influências muito variadas, nomeadamente dos nativos americanos, dos escravos provenientes de África e dos próprios europeus, que exportaram os nomes das suas cidades para as novas cidades que surgiram na América durante a colonização.
Para além da conhecida Nova Amsterdão (Nova York), podemos encontrar inúmeros exemplos de nomes de cidades que se repetem na Europa e nos Estados Unidos. No estado da Geórgia podemos encontrar as cidades de Rome, Athens, Dublin e Macon. Viajando para o Ohio, no midwest Americano, temos uma amostra mais impressionante: Aberdeen, Amsterdam, Antwerp, Berlin, Bremen, Dresden, Geneva, Genoa, Hanover, Lisbon, London, Madeira, Manchester, Milan, Montpellier, Parma, Sardinia e Toledo. Estes nomes são, pelo menos em parte, resultado da nacionalidade dos colonos que se instalaram nestes locais, mas demonstram alguma falta de imaginação no baptizar dos municípios.
Na Florida, a toponímia é muito mais fascinante para nós ocidentais, em larga medida por influência das tribos de nativos americanos, em particular, Seminoles e Osceola. Essa influência é bem visível em nomes como Apalachicola, Apopka, Chattahoochee, Ocoee, Okeechobee, Opa-Locka, Pahokee, Palatka ou Tallahassee. A influência europeia é menos notada, tendo apenas identificado as localidades de Dover, Dundee, Naples, Oviedo e Venice.
Por último, alguns habitantes da Florida moram em locais tão inspiradores como Anna Maria, Aventura, Bagdad, Boca Raton, Cinco Bayou, Clarcona, Hypoluxo, Kissimmee, Tampa, Pensacola ou Wauchula. Outros municípios têm nomes simplesmente cómicos quando traduzidos: Marathon ("Maratona"), Holiday ("Férias"), Frostproof (literalmente "À prova de gelo"), Fruitland Park ("Parque da Terra das Frutas"), Niceville ("Terra Simpática") e Lazy Lake ("Lago Preguiçoso").
Claro que a minha cidade preferida da Florida é Tavares, apelido de alguém que os leitores bem conhecem.

Vícios

"Many a good man has been put under the bridge by a woman"

Henry Chinaski in Women by Charles Bukowski

sexta-feira, janeiro 11, 2008

Sofa Station

O Pedro, a Cláudia e eu decidimos formar uma parceria bloguística sob o título Sofa Station. As razões para o nome variam segundo os participantes e só depois de concordarmos no nome é que percebemos os múltiplos significados da palavra "estação" em português.

O Sofa Station é um local de encontro de amigos que raramente se vêem, e por isso escolhem formato blog para trocarem ideias e manterem contacto entre si. Em português, a Estação do Sofá também é como as estações do ano: varia em termos de temperatura, clima e pressão atmosférica.

Para iniciar as hostilidades, escrevi uma entrada sobre a Lei nº37/2007, de 14 de Agosto, mais conhecida como "lei do tabaco". É o meu regresso às opiniões polémicas e temas fracturantes com o post Uma bacalhoada sem fumo, por favor. Já não escrevia assim desde o tempo do meu blog Angústias de um Professor...

quinta-feira, janeiro 03, 2008

Um Piano Erudito

Comecei a ouvir música erudita no berço. Afirmam os meus pais que eu chorava ao ouvir o célebre "Adagio em Sol menor" (ouvir) de Tomaso Albinoni a tocar no gira-discos. Não me lembro disso, é claro; mas recordo os discos de vinil que o meu pai tocava quando eu tinha 7 ou 8 anos. As valsas da família Strauss, as sonatas para piano de Beethoven, os études de Chopin e as aberturas de óperas de Rossini e Wagner. É destas raízes que desponta o meu amor pela música, tanto como ouvinte como coleccionador.

Hoje em dia, a minha colecção conta com três centenas de cds de música erudita, incluindo todos os sub-géneros: barroco, clássico, romântico, pós-romântico e contemporâneo. É difícil identificar os meus compositores favoritos (são tantos!). Destaco dois de cada género: Vivaldi e Bach (período barroco), Mozart e Krommer (período clássico), Beethoven e Wagner (período romântico), Sibelius e Rachmaninoff (período pós-romântico) e Glass e Pärt (período contemporâneo).

Quanto às minhas peças favoritas, a escolha é uma tarefa "mastodôntica", mas aqui fica uma selecção abreviada, por período:

Período Barroco:
Adagio em Sol menor - Tomaso Albinoni (arranjo de Remo Giazotto)
Canon em Ré Maior - Johann Pachelbel (ouvir)

Período Clássico:
Requiem - Wolfgang A. Mozart (ouvir excerto)
Sinfonia nº39 - Wolfgang A. Mozart (ouvir Menuetto-3º andamento)
Concerto para Piano e Orquestra nº 20 em Ré menor K.466 - Wolfgang A. Mozart (ouvir excerto do Allegro-1º andamento)

Período Romântico:
Concerto para Trompete e Orquestra em Mi bemol Maior - Joseph Haydn (ouvir 3º andamento-Allegro)
Concerto para Piano e Orquestra nº 5 em Mi bemol Maior, Op. 73 - Ludwig Van Beethoven (ouvir excerto Rondo. Allegro.-3º andamento)
Sonata Nº 14 em Dó sustenido menor, Op. 27 nº2 "Moonlight" - Ludwig Van Beethoven (ouvir 3º andamento)
Quinteto em Lá Maior, D. 667 "A Truta" - Franz Schubert (ouvir 4º andamento)
Sheherazade (Suite Sinfónica), Op. 35 - Rimsky-Korsakov (ouvir excerto)
Abertura da ópera William Tell - Giacomo Rossini (ouvir excerto)
Abertura da ópera Tannhäuser - Richard Wagner (ouvir excerto)
A Morte de Siegfried e Marcha Fúnebre (da ópera O Crepúsculo dos Deuses) - Richard Wagner (ouvir)

Período Pós-Romântico:
Concerto para Piano e Orquestra nº 3 em Ré menor, Op. 30 - Sergei Rachmaninoff (ouvir excerto do 1º andamento)
Concerto para Piano e Orquestra nº 3, Sz 119 - Béla Bartók (ouvir Allegretto-1º andamento)
Concerto para Violino e Orquestra em Ré menor, Op. 47 - Jean Sibelius (ouvir Allegro Moderato-1º andamento)
Prelude à l'aprés midi d'un faune - Claude Debussy (ouvir)

Período Contemporâneo:
Sinfonia nº 3, Op.36 "Symphony of Sorrowful Songs" - Henryk Górecki (ouvir 3º andamento)
Spiegel Im Spiegel - Arvo Pärt (ouvir)
Fratres - Arvo Pärt (ouvir)
Different Trains - Steve Reich (ouvir excerto)
Short Ride in a Fast Machine - John Adams (ouvir)
Metamorfoses - Philip Glass (ouvir Metamorfose 2)

segunda-feira, dezembro 31, 2007

quinta-feira, dezembro 27, 2007

Melhores Canções do Ano de 2007

Se a minha lista de cds causou algumas surpresas, a lista das 10 canções do ano também vai surpreender. Ao K. tenho a dizer que conheço pouco dos LCD Soundsystem e a lista só reflecte cds sobre os quais tenho opinião formada. Já relativamente aos Radiohead, digo ao Vasco que me parece mais do mesmo.

De todas as listas que vi publicadas na Internet em sites de música, muitas mencionam Panda Bear, Arcade Fire e Blonde Redhead. Poucas mencionam Bright Eyes e Andrew Bird. Todas ignoram Björk (uma tremenda injustiça!), Amiina (pelas semelhanças com Sigur Ròs) e Autumn Shade (por desconhecimento). Rufus Wainwright merece uma referência especial. Sendo este o seu quinto álbum, é também o mais brilhante. As orquestrações grandiosas, a emoção da voz e a paixão das letras justificam a minha escolha. O desprezo dos outros fica a dever-se, muito provavelmente, à atitude contestatária e quase anti-patriota de algumas canções ("Going to a town", por exemplo).

Aqui ficam as melhores do ano:

1. Antichrist Television Blues – Arcade Fire
Se Bruce Springsteen escrevesse canções sobre religião soaria assim. Um poema gigante, em dimensão e conteúdo: críticas ao fanatismo religioso (evangélico, islâmico…), Torres Gémeas, exploração de crianças para fins religiosos (leia-se €€€€€ ou $$$$$$). Win Butler e os Arcade Fire, mestres do apocalipse…

Ouvir: Aqui


2. Scythian Empires – Andrew Bird
Um prodígio de melodia, composição e execução. Andrew Bird no auge.
Ouvir:
http://www.box.net/shared/static/803d3eoqhx.mp3

3. Earth Intruders – Björk

Um pódio bem merecido. Björk em plena forma. Ela é única e a sua música desafia classificação.

Ver e ouvir: http://www.youtube.com/watch?v=p3YMf5sRnDs

Ao vivo no Saturday Night Live:
http://www.youtube.com/watch?v=p9wZ_P4v3bI

4. Sparrow/Home – Autumn Shade

A primeira vez que ouvi esta música pensei que tinha sido gravada num celeiro de tamanho gigantesco. Depois de saber que os Autumn Shade são de Tulsa, Oklahoma, tenho a certeza que foi gravada num celeiro. Jes Lenee é a descoberta musical do ano.

Ouvir Home: Aqui

Ouvir o disco Ezra Moon:
http://www.autumn-shade.com/

5. Inte
rvention – Arcade Fire
Fico com pele de galinha sempre que ouço esta. Tentem lá descobrir o último grande êxito musical em que um órgão de tubos tem papel principal...

Ouvir: Aqui


6. Sunflower’s Here to Stay – Angels of Light

Infelizmente, esta não está disponível em lado nenhum. Podem ouvir um excerto fraquinho aqui: http://www.midheaven.com/fi/audio2/wearehim09.m3u

Em alternativa, Black River Song também do álbum We Are Him: http://www.thankscaptainobvious-music.net/Songs/01%20-%20Black%20River%20Song.mp3


7. Going to a Town – Rufus Wainwright

Ok, esta não ganha o prémio de popularidade entre os americanos. Acontece que nós somos europeus e, política à parte, uma boa canção basta.

Ver e ouvir: http://www.youtube.com/watch?v=dUIsQo4K70Y


8. Make a Plan to Love Me – Bright Eyes
É a canção de amor do ano.

Ouvir: http://www.youtube.com/watch?v=rElUB2meWsU


9.
La Dame et la Licorne – Shearwater
Vagas semelhanças com os Talk Talk em final de carreira... o que é sempre uma boa referência.
Ouvir: Aqui

10. 23 – Blonde Redhead
Alguns dizem que faz lembrar My Bloody Valentine, mas é “apenas” excelente música pop.

Ver e ouvir: http://www.youtube.com/watch?v=a7FqUNlEdwA

sexta-feira, dezembro 21, 2007

Melhores Álbuns de 2007 / Best CDs of 2007

1. Neon Bible - Arcade Fire
2. Release the Stars - Rufus Wainwright
3. Ezra Moon - Autumn Shade
4. Armchair Apocrypha - Andrew Bird
5. Kurr - Amiina
6. We Are Him - Angels of Light
7. Volta - Björk
8. Cassadaga - Bright Eyes9. Person Pitch - Panda Bear
10. North Star Deserter - Vic Chesnutt

Menções Honrosas:
Ghost Will Come and Kiss Our Eyes - Hrsta
Ongiara - Great Lake Swimmers
Palo Santo - Shearwater

You, You're a History in Rust - Do Make Say Think
23 - Blonde Redhead

Amateur - Alog

sábado, dezembro 08, 2007

Um cruzamento entre o visual de Marco Paulo e a música de António Variações

Uma amplitude vocal inacreditável, uma atitude de desafio e música pop electrizante levaram à glória Billy Mackenzie e Alan Rankine, a banda que ficou mundialmente conhecida como The Associates. Nasceram em 1979, mas o reconhecimento só chegou em 1982 com o álbum Sulk, uma obra-prima da música pop, admirada por nomes tão diferentes quanto Marc Almond ou Siouxsie Sioux.

Billy Mackenzie cantava com uma intensidade rara, oscilando entre falsettos quase impossíveis nuns momentos e uma voz quase cavernosa noutros. White Car in Germany demonstra estes extremos. Noutro contexto seria apenas mais um exemplo de música euro-trash, tipo Modern Talking ou Bananarama, mas na voz de Billy, naquela voz que parece vinda do além, transforma-se numa peça de música pop sinistra, se é que o rótulo faz sentido...

Na sua fase mais extravagante, os Associates praticavam um pop melódico e energético, com rumores rampantes de falsettos movidos a hélio. Tudo a contribuir para a projecção de Billy até à eternidade. Em termos de letras e música, existem curiosas semelhanças com António Variações, mas já em termos visuais foi em Marco Paulo que pensei. Vejam 18 Carat Love Affair para avaliarem o "Marco Variações" escocês...

Os Associates dissociaram-se em 1984 e Billy segui uma carreira a solo com sucesso intermitente durante a década seguinte.

Billy Mackenzie cometeu suícidio por overdose em 1996.

sexta-feira, novembro 30, 2007

Vou dizer baixinho para nao assustar: Supertramp

Eu sei que os Supertramp são uma banda pirosa e que a voz aguda de Roger Hodgson é detestável para muita gente. Mas recentemente apeteceu-me recordar os meus 18 anos e o primeiro contacto com a banda. A entrada memorável de "School", o dramatismo de "Crime of the Century" e o chilrear de passarinhos em "Even in the Quietest Moments" transportam-me para uma altura em que, para além de feliz, era inocente. Inocente por acreditar na bondade das pessoas, na simplicidade da vida, na evidência das decisões a tomar. Acho que perdi essa inocência quando saí de casa aos mesmíssimos 18 anos. Ou melhor, quando mudei de cidade (Gaia por Braga).

Há alguns dias atrás, o Luís falava de provincianismo. O provincianismo tem vantagens quando observado sob o ponto de vista da inocência. Impede a confrontação dos nossos medos e das nossas insuficiências, poupa-nos a tarefa árdua das escolhas e, em última análise, torna a nossa vida mais segura. Mais segura, mas muito menos interessante.

Ouvir A Soap Box Opera, na sua plenitude orquestral, lembrou-me como pode ser importante olharmos as nossas raízes e rever o percurso que fizemos. Dezoito anos depois, quase todas as premissas foram abandonadas ou reequacionadas. Perguntar-me se ainda reconheço quem era, é demasiado complexo para responder e provavelmente irrelevante para quem só contempla o futuro como opção.

"A Soap Box Opera" performed by Supertramp

PS: O meu agradecimento ao Pedro pela sugestão do título do post

segunda-feira, novembro 26, 2007

Josh Rouse ao vivo no Theatro Circo

Hoje à noite, a partir das 23 horas, eu, ele e ela, numa estranha associação bloguista, vamos prestar culto a um dos melhores "cantautores" da nova geração de músicos americanos.

Miracle - Josh Rouse ao vivo em Londres

quinta-feira, novembro 22, 2007

sábado, novembro 17, 2007

Argumentos (I)lógicos

Facto número 1: Hugo Chavez foi eleito Presidente da Venezuela em eleições livres.

Argumento utilizado, implícita ou explicitamente, pelos comentadores políticos e bloggers com base no facto número 1: Como Chavez foi eleito não é ditador.

Facto número 2: Hitler também venceu eleições com o Partido Nazi e chegou ao poder por meios democráticos.

Corolário: Ganhar eleições democráticas é irrelevante para julgar um político como potencial ditador. O tempo no poder e sobretudo os expedientes e artimanhas utilizados para a manutenção desse mesmo poder são indicadores muito mais fidedignos.

quinta-feira, novembro 15, 2007

quarta-feira, novembro 14, 2007

Pérolas da Dark Wave - Clan of Xymox


Os anos 80 viram nascer um estilo musical conhecido como dark wave. No saco cabiam muitas bandas, desde The Cure a Dead Can Dance, mas em comum tinham o preto como cor dominante na música, na poesia e na indumentária. Os Clan of Xymox, nascidos em 1984, são uma banda holandesa desta corrente e já com um conjunto apreciável de obras, das quais se destacam o homónimo Clan of Xymox (1985), Medusa (1987), Hidden Faces (1997) e o mais recente Breaking Point (2006).

Um excelente vídeo filmado em New York (com Torres Gémeas e tudo) e ao vivo na Cidade do México para o tema Stranger, um dos melhores de sempre dos Clan of Xymox. Visualmente muito bom graças aos contrastes do preto-e-branco e musicalmente apresentando a banda no seu auge, Stranger é uma curta metragem arrojada e a fugir ao estilo estafado dos vídeoclips convencionais. Um must!

terça-feira, outubro 30, 2007

(...)

fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas fraldas

sexta-feira, outubro 26, 2007

3. La Valée (1972) - Barbet Schroeder

No que toca a obscuros objectos de desejo, La Valée de Barbet Schroeder é ainda mais difícil de encontrar do que More, o primeiro filme destas crónicas. Desta vez, os hippies de Schroeder viajam até à longínqua e francamente desconhecida Papua Nova Guiné e encontram a mulher de um diplomata francês, Viviane, obcecada pelas penas das exóticas aves-do-paraíso e com demasiado tempo para gastar. À boa maneira francesa, Viviane toma um dos rapazes como amante e, juntamente com os restantes hippies, embarca numa viagem à procura das ditas penas e do vale "obscurecido pelas nuvens" (Obscured by Clouds é o título do álbum dos Pink Floyd que contém a banda sonora deste filme). Ao longo do seu percurso pelo interior da Nova Guiné deparam-se com tribos indígenas que contactam pela primeira vez com a civilização ocidental e com o "homem branco". Ignorando a Papua Nova Guiné enquanto país, senti-me motivado, após a visualização do filme, a procurar mais informação sobre esta nação do sudeste asiático.
O mito do "bom selvagem" é o tema filosófico, mas num ambiente tão excêntrico quanto misterioso, o que fica é a componente quase documental de alguns momentos. Durante largos períodos do filme somos confrontados com um relato quase antropológico da tribo dos Kambouga, sugerindo claramente uma nostalgia do movimento hippie pelo Homem pré-contaminação da civilização ocidental. No entanto, o realismo regressa ao relato quando Olivier, acometido por um momento de lucidez, recorda Viviane que também na tribo há regras de comportamento rígidas, obediência cega ao tabu e exploração laboral e sexual das mulheres, que tornam a vivência muito menos romântica da que é sugerida pelo mito do "bom selvagem".
Muito menos directo do que More, La Valée provoca no espectador uma sensação mais reconfortante, talvez pela absoluta serenidade que trespassa toda a obra, demonstrada pela total ausência de violência física ou verbal.

segunda-feira, outubro 22, 2007

Kimi "Iceman" Raikkonen


Inacreditável! Os dois pilotos da McLaren, Lewis Hamilton e Fernando Alonso, conseguiram o feito impossível de perder o campeonato do mundo de Fórmula 1 na última corrida, quando levavam à partida respectivamente 7 e 2 pontos de avanço para o finlandês Kimi Raikkonen. Fui grande fã, diria quase de forma doentia, do brasileiro Nelson Piquet e, depois disso, o único piloto que me fazia vibrar era Mika Hakkinen. Agora, 7 anos após a última vitória de Hakkinen, o meu favorito vence o campeonato na última corrida, com um ponto de vantagem sobre Lewis Hamilton e Fernando Alonso, na mais emotiva temporada de sempre da Fórmula 1.

Todos os pilotos de Fórmula 1 são narcisistas e, embora Raikkonen não fuja à regra, é um gentleman, sobretudo quando comparado com os outros dois. Raikkonen, conhecido por ser um dos mais azarentos pilotos da modalidade pelas inúmeras desistências inglórias, teve hoje um merecidíssimo dia de sorte!

sexta-feira, outubro 19, 2007

"Encontrei o Fernando em Braga..."

Este é um post cretino... Não o levem muito a sério. Estou cansado e sem inspiração para mais.

Não é habitual recorrer ao sitemeter para saber quem me visita, mas hoje à noite, durante um momento de tédio na internet (semelhante ao zapping televisivo), descobri que alguém de Aveiro (ou arredores) realizou uma pesquisa no Sapo com a frase: "Encontrei o Fernando em Braga..." O resultado aparecia na página 8 da pesquisa, o que significa que a pessoa até se esforçou...

O meu lado narcisista ficou curioso. Que alguém escreva isto num email a um amigo ainda se percebe, mas o que motivará um internauta a usar esta frase num motor de pesquisa?

Não sei se serei o Fernando que a pessoa encontrou, mas é possível que sim. Para lhe facilitar a tarefa, da próxima vez que tal frase seja usada num motor de pesquisa, esta entrada será o primeiro link a aparecer. Sugiro que deixe um comentário que explique a razão de tão estranha pesquisa...

PS: Por falar em pessoas a quem não falo há muito tempo... Lenita: se leres esta mensagem manda-me um email. O email do Angústias não funciona, perdi o teu e não consegui responder ao teu comentário sobre baby-sitting.

quinta-feira, outubro 11, 2007

2. The Grandmother (1970) - David Lynch


Antes de Eraserhead (1977), houve The Grandmother, uma curta metragem em que David Lynch experimenta pela primeira vez com as temáticas que apareceriam de modo mais consolidado em Eraserhead.

O filme combina animação com acção real e retrata um rapazinho incontinente que é tratado com desprezo e violência pelos pais e planta uma semente na sua cama a partir da qual se desenvolve um útero que, eventualmente, dá à luz uma mulher: a avó do título do filme. Em contraste com a relação com os pais, o rapaz recebe carinho, atenção e compreensão da avó, que nasce, literalmente, para dar amor à criança.

O ambiente é sinistro, marcado pelo constraste entre a pele muito branca das personagens e o fundo escuro no qual se movem. Em termos substantivos, trata-se de uma sucessão de metáforas sobre o nascimento, a sexualidade e a morte, filmadas de modo bizarro e grotesco e sem qualquer diálogo. Apenas música, ruídos, grunhidos, assobios e outros sons incompreensíveis que, apesar disso, constituem um notável esforço amador no domínio da sonoplastia e contribuem para tornar o filme mais inteligível.

Há momentos desconcertantes para o cinéfilo que espera uma trama linear e escorreita. É certo que talvez não se deva esperar isso de Lynch, pelo menos de um Lynch tão jovem, mas ainda assim The Grandmother tem um argumento suficientemente compreensível para merecer o estatuto de filme de culto e intrigar os mais curiosos sobre este marco do cinema marginal.

sábado, outubro 06, 2007

Então agora já não dão 100?

No futebol americano, sobretudo no futebol universitário, mandam as normas informais de cortesia que, quando uma equipa está a vencer o adversário por mais de 40 ou 50 pontos, coloque os suplentes a jogar e evite resultados humilhantes de tipo 70-0 ou 80-0.

A selecção profissional da Nova Zelândia, que resolveu humilhar a selecção amadora de Portugal com um desnecessário 108-13 na Taça do Mundo de Rugby, acaba de ser eliminada nos quartos-de-final da competição ao perder por 20-18 com a França.

Não posso negar que senti uma certa justiça poética no ar...

sexta-feira, outubro 05, 2007

1. More (1969) - Barbet Schroeder

O primeiro filme do realizador franco-alemão Barbet Schroeder retrata a descida ao abismo de um jovem alemão que se apaixona por uma americana com vasta experiência no mundo da droga. Stefan viaja à boleia para Paris, onde conhece Estelle Miller que o convence a passar o Verão consigo em Ibiza. Aqui, na pequena ilha de Formentera onde todos se conhecem, Stefan experimenta vários tipos de drogas, partindo dos inocentes charros, para as anfetaminas, passando pelo LSD e acabando dependente do cavalo (heroína).

O filme surge na ressaca do movimento hippie, do flower power e do Verão do Amor, assumindo uma surpreendente postura crítica do consumo de drogas. O argumento é simples, quase diria amadoresco, e os actores têm desempenhos relativamente fracos, ainda que Mimsy Farmer (Estelle) vista, de forma convincente, a pele de anjo negro. Um dos principais méritos do filme reside na forma como trata o tema da toxicodependência, em contracorrente com o optimismo prevalecente durante grande parte dos anos 60. Nesse sentido, pode ser considerado um percursor, fraco, é certo, de Trainspotting, ou de relatos como os de Christiane F. ou Sid & Nancy.

A banda sonora foi composta integralmente pelos Pink Floyd e constitui outro ponto alto do filme. A música alterna longas sequências psicadélicas (Quicksilver) com interlúdios que contextualizam a acção (Party Sequence ou A Spanish Piece) Os temas mais marcantes são Cirrus Minor, Crying Song e Cymbaline (com voz de Roger Waters e não de David Gilmour, como acontece no álbum original). A paisagem sonora é acompanhada por uma excelente fotografia das paisagens sublimes de Ibiza (pôr-do-sol, mar, falésias, etc.). Não fosse o tema sério, tratado de forma realista, quase diria que se trata de um óptimo filme de Verão, mas provavelmente o contraste entre a vitalidade da paisagem e a decadência das personagens não é casual.

PS: Não deixa de ser curioso o facto de, tanto no cinema como na vida real, os relatos de casais de toxicodependentes atribuírem à mulher o papel de víbora (Sid Vicious & Nancy Spungen, Kurt Cobain & Courtney Love, Estelle & Stefan em More).

segunda-feira, outubro 01, 2007

A Hora da Siesta

Entre os dias 19 e 23 de Setembro estive em Madrid para apresentar o artigo "Understanding Intergovernmental Cooperation in a Context of Decentralization: An Empirical Study of Collaboration among Portuguese Municipalities" na conferência do European Group of Public Administration (EGPA).

Fiquei horrorizado com o facto de os espanhóis terem obrigado todos os conferencistas a painéis/sessões paralelas entre as 12 e as 14 horas, o que em alguns casos adiou o almoço para lá das 14:30. Este hábito cultural resultou na "fúria" de muitos participantes, menos habituados à hora da "siesta".

A ideia politicamente correcta de que não se pode ofender as tradições do país organizador pareceu-me totalmente descabida e ineficiente, não só porque os espanhóis eram uma minoria, mas sobretudo em termos de rendimento intelectual dos participantes durante o painel às ditas horas. Incomodado, sussurrava-me um vizinho britânico: "Acabem lá com as perguntas e vamos mas é almoçar!"