terça-feira, março 31, 2009

1950. Pure Ella - Ella Fitzgerald

A voz cristalina e a invulgar longevidade de Ella Fitzgerald justificam plenamente a utilização do termo diva para descrever esta magnífica mulher do jazz. Depois de Billie Holiday (1958) e Sarah Vaughan (1952), Ella Fitzgerald é a terceira grande voz feminina do jazz a aparecer nesta lista.

Em Pure Ella, a voz de Ella Fitzgerald e o piano tocado por Ellis Larkins reunem-se de forma mágica para interpretar temas compostos por George Gershwin e letras de Ira Gershwin. Destaca-se a memorável interpretação de Someone To Watch Over Me, assim como a suavidade de But Not For Me.

Ella Fitzgerald - But Not For Me



Projecto 200 anos de música. A ideia é simples. Ao longo de duzentas entradas, o Piano na Floresta vai listar duzentas obras musicais, uma por cada ano, iniciando a contagem decrescente a partir do ano 2000. Se tudo correr conforme planeado, será possível identificar um disco ou uma obra composta em cada um dos anos no intervalo entre o ano 1800 e o ano 2000. Não há limitações de género musical. A qualidade e a reputação da obra não constituem critério de escolha, embora se entenda que ela é, de algum modo, representativa do ano em questão.

terça-feira, março 24, 2009

1951.Concerto para Piano e Orquestra Nº 2 - Lukas Foss

Lukas Foss faleceu no início do mês de Fevereiro de 2009, aos 86 anos. Foss tinha 28 anos quando concluiu o seu segundo concerto para piano e orquestra, uma obra de grande fôlego e revelando uma maturidade muito superior à do seu antecessor, que sofre de típicos defeitos de juventude, já que foi composto aos 17 anos.

Após uma longa introdução da orquestra, o piano entra, solitário, aos 3 minutos e 20 segundos do primeiro andamento, fortemente marcado pelas tonalidades da América dos espaços abertos, das grandes distâncias e da natureza em bruto. Em contraste, o segundo andamento segue um registo adagietto, de uma musicalidade esparsa e mais próxima da sonoridade cinematográfica. Mas é o terceiro andamento que representa o ponto alto desta obra, sobretudo a cadenza, que o próprio Lukas Foss definiu como "louca e obsessiva"(1), realçando o virtuosismo necessário à sua execução.

Entre as influências do compositor americano contam-se Paul Hindemith e, numa fase mais adiantada da sua obra, Igor Stravinsky. Este Concerto para Piano e Orquestra segue a forma do Concerto para Piano e Orquestra Nº5 (Imperador) de Ludwing Van Beethoven, mas as influências sonoras são claramente de Stravinsky, que Lukas Foss conheceu pessoalmente pela altura da première desta obra e de quem mais tarde se tornaria amigo.

(1) Lukas Foss, notas da edição Piano Concertos / Elegy for Anne Frank. Jon Nakamatsu (piano), Yakov Kasman (piano), Lukas Foss (piano), Eliza Foss (narrador), Pacific Symphony Orchestra /Carl St. Clair (maestro). Harmonia Mundi, 2001.

Projecto 200 anos de música. A ideia é simples. Ao longo de duzentas entradas, o Piano na Floresta vai listar duzentas obras musicais, uma por cada ano, iniciando a contagem decrescente a partir do ano 2000. Se tudo correr conforme planeado, será possível identificar um disco ou uma obra composta em cada um dos anos no intervalo entre o ano 1800 e o ano 2000. Não há limitações de género musical. A qualidade e a reputação da obra não constituem critério de escolha, embora se entenda que ela é, de algum modo, representativa do ano em questão.

sábado, março 07, 2009

1952. In Hi-Fi - Sarah Vaughan

Os anos 50 marcam o encontro de três divas do jazz - Billie Holiday, Ella Fitzgerald e Sarah Vaughan. Das três, a vocalista e pianista Sarah Vaughan (1924-1990) foi a que teve a vida mais equilibrada e menos marcada por traumas de infância, adolescência e jovem adulta. Por altura do lançamento de In Hi-Fi, em 1952, já Sarah era uma veterana dos blues e do jazz, apesar de ter apenas 28 anos.

O álbum é uma magnífica selecção de clássicos do jazz, incluindo Nice Work If you Can Get It, Can't Get Out of this Mood e Ain't Misbehavin', e conta com a participação de Miles Davis no trompete. As composições alternam o small ensemble com a orquestra alargada em estúdio, mas em todas elas sobressai a voz emotiva, sofisticada e segura de Vaughan.

Come Rain or Come Shine - Sarah Vaughan & Miles Davis:


Projecto 200 anos de música. A ideia é simples. Ao longo de duzentas entradas, o Piano na Floresta vai listar duzentas obras musicais, uma por cada ano, iniciando a contagem decrescente a partir do ano 2000. Se tudo correr conforme planeado, será possível identificar um disco ou uma obra composta em cada um dos anos no intervalo entre o ano 1800 e o ano 2000. Não há limitações de género musical. A qualidade e a reputação da obra não constituem critério de escolha, embora se entenda que ela é, de algum modo, representativa do ano em questão.

sábado, fevereiro 28, 2009

1953. Sinfonia Nº 10 - Dmitri Shostakovich

A Sinfonia Nº10 de Dmitri Shostakovich marca a reabilitação do compositor na União Soviética, graças à morte de Josef Staline em 1953. O final do quarto andamento é, diz-se, um retrato musical do ditador, realçando a sua brutalidade e sugerindo a "banalidade do mal"(1). A utilização do metrónomo num ritmo alucinante é a marca distintiva da gravação dirigida por Herbert Von Karajan, que conduz a Orquestra Filarmónica de Berlim a uma performance memorável.

O Allegro do 2º andamento desperta em mim sentimentos intensos, furiosos, quase violentos. Tal não surpreende. Nesse sentido, o contraste entre andamentos dificilmente poderia ser mais pronunciado. Por contraposição, o primeiro andamento é de uma beleza melódica trágica, marcado por oscilações entre a contenção sinistra e as explosões sonoras de contornos épicos. Há qualquer coisa de verdadeiramente inquietante neste primeiro andamento, em que o cronómetro ultrapassa os 22 minutos. Não sei se é a ausência de uma estrutura facilmente apreensível nas primeiras audições, ou o "sentimento avassalador de uma angústia sublimada" (2) de que falam as críticas à obra. Mas é impossível não sentir essa inquietude perante música tão densa e crispada.
1. Moderato (mp3 excerto)
2. Allegro (mp3 excerto)
3. Allegretto
4. Andante - Allegro

(1) Solomon Volkov, Testimony: The Memoirs of Dmitri Shostakovich, Limelight Editions, 2004.
(2) Richard Osborne, notas da edição Shostakovich, Symphony nº10 in E Minor, Op.93, Berliner Philarmoniker conducted by Herbert Von Karajan, Deutsche Grammophon, 1981

Projecto 200 anos de música. A ideia é simples. Ao longo de duzentas entradas, o Piano na Floresta vai listar duzentas obras musicais, uma por cada ano, iniciando a contagem decrescente a partir do ano 2000. Se tudo correr conforme planeado, será possível identificar um disco ou uma obra composta em cada um dos anos no intervalo entre o ano 1800 e o ano 2000. Não há limitações de género musical. A qualidade e a reputação da obra não constituem critério de escolha, embora se entenda que ela é, de algum modo, representativa do ano em questão.

sábado, fevereiro 07, 2009

1954. Louis Armstrong Plays W.C. Handy

Louis Armstrong é provavelmente o mais famoso músico de jazz de todos os tempos. Na interpretação dos temas mais famosos de W.C.Handy, considerado o pai dos blues, o vocalista e trompetista atinge níveis de intensidade, perfeição e exigência só acessíveis a um predestinado. A orquestração é excelente e a produção límpida ao ponto de permitir aos restantes músicos um lugar de destaque para além do próprio Louis, com particular destaque para Barney Bigard no clarinete e Billy Kyle no piano. Os duetos de Louis com a voz encantadora de Velma Middleton transmitem a química das grandes parcerias, sobretudo em Lovess Love, Long Gone (from the Bowlin' Green) e na épica versão de St. Louis Blues.

Ouvir os blues de W.C.Handy interpretados por Louis Armstrong and His All-Stars é quase uma experiência religiosa, porque deve ser saboreada em condições apropriadas. Um sofá confortável, um Jack Daniels na mão e a ausência de companhia, são indispensáveis para poder disfrutar dos blues na sua plenitude. A tristeza toma outra dimensão quando é partilhada, ainda que seja discutível se ela aumenta ou diminui em função dessa partilha. Tal como a partilha da tristeza não nos deixa indiferentes, o mesmo se pode dizer deste disco memorável, uma das últimas grandes interpretações de Louis Armstrong.

A gigantesca versão de Saint Louis Blues, uma das melhores de todos os tempos, pode ser escutada integralmente no You Tube:

Projecto 200 anos de música. A ideia é simples. Ao longo de duzentas entradas, o Piano na Floresta vai listar duzentas obras musicais, uma por cada ano, iniciando a contagem decrescente a partir do ano 2000. Se tudo correr conforme planeado, será possível identificar um disco ou uma obra composta em cada um dos anos no intervalo entre o ano 1800 e o ano 2000. Não há limitações de género musical. A qualidade e a reputação da obra não constituem critério de escolha, embora se entenda que ela é, de algum modo, representativa do ano em questão.

quarta-feira, janeiro 14, 2009

Euforia

Changing Your Strut When You Know I'm Behind You
Changing Your Ways Cause You Don't Know What To Do
I Only Wanna Tell You
How I Feel Inside
If Only You Could Listen
Try To Change Your Mind

So I Walk Right Up To You
And You Walk All Over Me
And I Ask You What You Want
And You Tell Me What You Need
Can't You Feel It All Come Down
Can't You Hear It All Around
At The Place Where Lost Is Found
That Great Love Sound

Talking To You Makes Me Wanna Shake And Shout
Touching You Makes Me Wanna Come Right Out
You Could Never Want Me
The Same Way I Want You
I'm Love Tornado Struck
I Don't Know What To Do

sábado, janeiro 10, 2009

1955. Maybellene - Chuck Berry

A Rolling Stone disse que o rock'n'roll começou aqui. A importância de Chuck Berry no nascimento do rock'n'roll é por demais evidente. Os acordes simples, a energia debitada, a produção caseira e as letras sobre carros e mulheres apontaram o caminho para o garage rock e para o rockabilly, catapultaram Elvis Presley para o estrelato, influenciaram bandas memoráveis como Pixies, Jesus and The Mary Chain ou Straycats e ainda hoje têm dignos descendentes nos Black Rebel Motorcycle Club ou The Raveonettes.
Maybellene é uma canção simples, directa, com apenas 2 minutos e 21 segundos, mas o seu impacto ultrapassa em muito a sua qualidade intrínseca. É a atitude rock'n'roll que nasce com esta canção e ignorar esse impacto é esquecer que toda a música popular tem uma dívida para com nomes fundadores como Chuck Berry. A justiça tem sido feita ao longo dos anos, com inúmeras homenagens e referências no contexto da cultura popular. Por exemplo, quem não se recorda de Michael J. Fox a fazer de Marty McFly em Regresso ao Futuro (1985) a tocar Johnny B. Good em 1955 em frente a uma plateia de teenagers atónitos?

Maybellene (mp3) - Chuck Berry
Projecto 200 anos de música. A ideia é simples. Ao longo de duzentas entradas, o Piano na Floresta vai listar duzentas obras musicais, uma por cada ano, iniciando a contagem decrescente a partir do ano 2000. Se tudo correr conforme planeado, será possível identificar um disco ou uma obra composta em cada um dos anos no intervalo entre o ano 1800 e o ano 2000. Não há limitações de género musical. A qualidade e a reputação da obra não constituem critério de escolha, embora se entenda que ela é, de algum modo, representativa do ano em questão.

domingo, janeiro 04, 2009

Vazio

Rooms by the Sea (1951) by Edward Hopper
Música: Popstar Researching Oblivion by Flotation Toy Warning (mp3)

sábado, janeiro 03, 2009

1956. Elvis Presley - Elvis Presley

Elvis Presley foi um pioneiro. Mesmo não sendo apreciador dos primórdios do rock'n'roll, tenho de admitir que a sua influência ultrapassa em muito a sua geração. Na verdade, o gingar de ancas de Elvis fez mais pelo progresso da música popular contra as mentalidades conservadoras e estagnadas do que Lennon e Ono nus na cama pela paz, o arrancar da cabeça de um periquito vivo por Ozzy Osborne ou o soutien cone de Jean-Paul Gautier usado por Madonna.

A atitude rebelde, anti-sistema, seria retomada nos primórdios do punk-rock, em particular na versão que casou com sucesso a música e a atitude, como foi o caso dos The Clash. A admiração da banda de Joe Strummer por Elvis era tão grande, que até a capa de London Calling é um tributo.

O primeiro disco de Elvis Presley foi editado em 1956 e tem título homónimo. São apenas 28 minutos, mas o poder avassalador desta música para partir corações e provocar revoluções é evidente desde a abertura com Blue Suede Shoes (mp3). Nenhum dos temas foi escrito por Elvis, mas as suas interpretações tornaram-se hinos para uma geração de teenagers brancos da América que nunca tinham ouvido coisa semelhante.

Blue Suede Shoes (mp3); Trying to Get to You (mp3); Blue Moon (mp3).

Projecto 200 anos de música. A ideia é simples. Ao longo de duzentas entradas, o Piano na Floresta vai listar duzentas obras musicais, uma por cada ano, iniciando a contagem decrescente a partir do ano 2000. Se tudo correr conforme planeado, será possível identificar um disco ou uma obra composta em cada um dos anos no intervalo entre o ano 1800 e o ano 2000. Não há limitações de género musical. A qualidade e a reputação da obra não constituem critério de escolha, embora se entenda que ela é, de algum modo, representativa do ano em questão.

quarta-feira, dezembro 31, 2008

1957. Such Sweet Thunder - Duke Ellington

A homenagem de Duke Ellington a William Shakespeare tomou o formato de uma suite orquestral inspirada em personagens e peças de teatro do dramaturgo inglês. A união da música de Ellington com o teatro de Shakespeare pode parecer, à partida, algo estranha, já que as suas obras se encontram separadas por quase 400 anos. Mas, segundo relata John Edward Haase em Beyond Category - The Life and Genius of Duke Ellington, tal como Shakespeare escreveu para a mesma companhia de teatro e para os mesmos actores durante 19 anos, também Ellington compôs quase exclusivamente para os músicos da sua orquestra durante quase 50 anos.

Para além do brilhante The Star-Crossed Lovers inspirado em Romeu e Julieta, destacam-se igualmente nesta obra Madness In Great Ones retratando a loucura de Hamlet e as três bruxas de Macbeth em The Telecasters.

Duke Ellington - The Star-Crossed Lovers

Projecto 200 anos de música. A ideia é simples. Ao longo de duzentas entradas, o Piano na Floresta vai listar duzentas obras musicais, uma por cada ano, iniciando a contagem decrescente a partir do ano 2000. Se tudo correr conforme planeado, será possível identificar um disco ou uma obra composta em cada um dos anos no intervalo entre o ano 1800 e o ano 2000. Não há limitações de género musical. A qualidade e a reputação da obra não constituem critério de escolha, embora se entenda que ela é, de algum modo, representativa do ano em questão.

sábado, dezembro 27, 2008

1958. Lady in Satin - Billie Holiday

Com uma vida marcada pela controvérsia, associada aos desgostos amorosos, ao abuso do álcool e das drogas e às relações problemáticas com a justiça, Billie Holiday é a primeira diva do jazz a aparecer no Projecto 200 anos de música. É também o primeiro disco de jazz cantado a merecer referência, ainda que possa ser altamente questionável que se trate de jazz... mas adiante!

A voz de Billie Holiday transmite tristeza. Quando gravou Lady In Satin, o seu penúltimo álbum de estúdio, Billie já não tinha a voz de outrora, mas o disco é tocante pela emoção arrebatada que transmite, sublimada pelo acompanhamento da orquestra de Ray Ellis, que dá aos temas uma sonoridade quase celestial. O que se perde em vitalidade na voz de Billie é ganho em maturidade. Ao ouvir Lady In Satin fico com a sensação que Billie já viveu mais do que qualquer um de nós, simples mortais, poderá algum dia aspirar a viver. É uma voz carregada de sentimento, de intensidade, de emoção e premonitória do fim... Billie Holiday morreria menos de um ano após esta gravação, deixando para a posteridade um disco de uma beleza dificilmente igualável por qualquer outra voz do jazz.

I'm a Fool to Want You, escrito por Frank Sinatra, é o tema de abertura:
Billie Holiday - I'm a fool to want you




The End of a Love Affair fecha o disco:
Billie Holiday - The End of a Love Affair




Projecto 200 anos de música. A ideia é simples. Ao longo de duzentas entradas, o Piano na Floresta vai listar duzentas obras musicais, uma por cada ano, iniciando a contagem decrescente a partir do ano 2000. Se tudo correr conforme planeado, será possível identificar um disco ou uma obra composta em cada um dos anos no intervalo entre o ano 1800 e o ano 2000. Não há limitações de género musical. A qualidade e a reputação da obra não constituem critério de escolha, embora se entenda que ela é, de algum modo, representativa do ano em questão.

sexta-feira, dezembro 26, 2008

quarta-feira, dezembro 24, 2008

1959. Kind of Blue - Miles Davis

"Não aprecio jazz..." Se os leitores se identificam com a afirmação, talvez devam considerar ouvir esta obra-prima de Miles Davis. Responsável por sucessivas reinvenções no âmbito da música jazz, Miles Davis já era um músico consagrado quando gravou e editou Kind of Blue (1959). O sexteto que gravou o disco é a combinação perfeita de músicos de jazz: Miles Davis (trompete), John Coltrane (saxofone tenor), "Cannonball" Adderley (saxofone alto), Bill Evans (piano), Paul Chambers (baixo) e Jimmy Cobb (bateria).

O álbum enquadra-se no jazz modal e foi um dos primeiros a romper com o estilo bebop, dominado pelo objectivo dos músicos tocarem o mais rápido possível sobre os acordes de cada tema, improvisando harmonias cada vez mais complexas. Ora, no jazz modal de Kind of Blue, a melodia predomina, a música é muito mais esparsa e o som muito menos preenchido do que acontece no jazz típico dos anos 40 e 50, sobretudo com Charlie Parker e Dizzy Gillespie.

Por essa razão, em termos emocionais, o jazz de Kind of Blue é mais relaxante e menos "stressante", permitindo ao ouvinte desligar-se dos problemas do seu dia-a-dia e mergulhar nesta massagem auditiva. Kind of Blue promove a nostalgia, aguça as emoções e seduz os sentidos, mas está muito longe de ser um disco deprimente. Pelo contrário, ouvido em boa companhia, Kind of Blue é um disco romântico, sensual e fisicamente estimulante. Quase apetece dizer que, se por altura do último tema, Flamenco Sketches, ainda não vos apeteceu tirar a roupa ao(à) parceiro(a), há qualquer coisa de errado na vossa relação! Se quiserem fazer a experiência, aqui ficam links para o download (quase) integral do álbum. Bom proveito!

So What (mp3)
Blue in Green (mp3)
All Blues (mp3)
Flamenco Sketches (mp3)

Se estiverem interessados em compreender o contexto em que surge Kind of Blue, podem escutar um excerto de 4 minutos do documentário Ken Burns Jazz em que o disco é analisado.

Projecto 200 anos de música. A ideia é simples. Ao longo de duzentas entradas, o Piano na Floresta vai listar duzentas obras musicais, uma por cada ano, iniciando a contagem decrescente a partir do ano 2000. Se tudo correr conforme planeado, será possível identificar um disco ou uma obra composta em cada um dos anos no intervalo entre o ano 1800 e o ano 2000. Não há limitações de género musical. A qualidade e a reputação da obra não constituem critério de escolha, embora se entenda que ela é, de algum modo, representativa do ano em questão.

segunda-feira, dezembro 22, 2008

Abandono

Summer Interior (1909) by Edward Hopper
Música: Summertime - Scarlett Johansson (mp3)

sábado, dezembro 20, 2008

1960. Apache - The Shadows

Falar de Apache dos The Shadows é falar da minha infância. O meu gosto pela música foi muito influenciado pelo meu pai. As suas preferências oscilam entre a música clássica do período romântico e o pop-rock dos anos 60, sobretudo dos Beatles e dos Shadows. Os instrumentais dos The Shadows são algumas das primeiras músicas que me lembro de ouvir tocar no gira-discos e no leitor de cassettes do meu pai. O seu gosto pelos Shadows explica a paixão conjunta que, mais tarde, desenvolveríamos pelos Dire Straits, em particular pela forma de tocar guitarra de Mark Knopfler.
Apache (1954), um filme de Robert Aldrich, foi a inspiração de Jerry Lordan para compor o tema numa versão para ukelele e que os Shadows adaptaram e gravaram pela primeira vez em 1960. O ritmo tribal da bateria, o baixo inebriante e o galope sugerido pela guitarra twang dão a Apache uma sonoridade tão distintiva que até pessoas indiferentes à música reconhecem o tema quando o escutam.
Apache (1960) - The Shadows (mp3)
Apache (1973) - The Incredible Bongo Band (mp3)
Apache (1998) - Fat Boy Slim (mp3)
Os portugueses GNR prestaram uma espécie de tributo aos Shadows plagiando subtilmente o riff de Apache em Hardcore (1º Escalão) do excelente álbum Independança (1982). Embora seja mais notório no original, podem tentar descobrir os compassos roubados aqui:



Projecto 200 anos de música. A ideia é simples. Ao longo de duzentas entradas, o Piano na Floresta vai listar duzentas obras musicais, uma por cada ano, iniciando a contagem decrescente a partir do ano 2000. Se tudo correr conforme planeado, será possível identificar um disco ou uma obra composta em cada um dos anos no intervalo entre o ano 1800 e o ano 2000. Não há limitações de género musical. A qualidade e a reputação da obra não constituem critério de escolha, embora se entenda que ela é, de algum modo, representativa do ano em questão.

quarta-feira, dezembro 17, 2008

1961. Out of the Cool - The Gil Evans Orchestra

A música contida em Out of the Cool é impressionista. Ao ouvir os 15 minutos de La Nevada ficamos com a nítida sensação que efectivamente neva lá fora. Gil Evans consegue neste tema um balanço sólido entre o pouco que é composto e o muito que é improvisado, ainda que o meu coração balance fortemente a favor dos longos momentos de improvisação. A sonoridade é original, fundindo a improvisação típica dos small ensembles de jazz com as texturas mais densas proporcionadas pelo grupo mais alargado de 14 músicos que compõe a Gil Evans Orchestra.

Assim, não se tratando de um álbum de jazz convencional para a época, Out of the Cool marca um período em que as fronteiras do jazz se expandem, como já havia ficado demonstrado no ano anterior com a colaboração entre Miles Davis e Gil Evans no excelente Sketches of Spain. Este último quebrou barreiras musicais com a famosa interpretação do segundo andamento do Concerto de Aranjuez de Joaquín Rodrigo numa versão que funde o jazz, a orquestra e o folk espanhol. Em Out of the Cool, as influências são ainda mais vastas, com óbvios contornos dos blues em Stratusphunk, do West Coast jazz em Where Flamingos Fly e da música latino-americana no já referido La Nevada.

Podem escutar excertos de Out of the Cool da Gil Evans Orchestra aqui.

Projecto 200 anos de música. A ideia é simples. Ao longo de duzentas entradas, o Piano na Floresta vai listar duzentas obras musicais, uma por cada ano, iniciando a contagem decrescente a partir do ano 2000. Se tudo correr conforme planeado, será possível identificar um disco ou uma obra composta em cada um dos anos no intervalo entre o ano 1800 e o ano 2000. Não há limitações de género musical. A qualidade e a reputação da obra não constituem critério de escolha, embora se entenda que ela é, de algum modo, representativa do ano em questão.

domingo, dezembro 14, 2008

1962. Coltrane - John Coltrane

John Coltrane foi o melhor saxofonista de todos os tempos. Em Coltrane, o seu quarteto interpreta originais do músico (Tunji e Miles' Mode) ao lado de versões de clássicos, como é o caso de Soul Eyes. O quarteto é composto por Coltrane nos saxofones, tenor e soprano, McCoy Tyner no piano, Jimmy Garrison, agora como baixista permanente e Elvis Jones na bateria.

O tema de abertura - Out of This World - é um portento de energia, empenho e arrebatação. Durante mais de 14 minutos, o quarteto expõe o original de Arlen e Mercer com elementos de improvisação típicos da obra de Coltrane e que constituem a sua marca no jazz e os que mais se destacam na sua interpretação de clássicos do jazz. Se é verdade que Coltrane é um disco com uma sonoridade mais conservadora na obra do saxofonista, também não é menos verdade que Out of This World demonstra a incrível capacidade de entrega que sempre caracterizaram o músico nascido na Carolina do Norte.

Embora Coltrane não seja o disco mais marcante da carreira do saxofonista, perdendo esse estatuto para os excelentes Blue Train (1957) e A Love Supreme (1964), ainda é o disco que mais ouço. Permite-me ter o melhor dos dois mundos: o John Coltrane das longas improvisações ao lado do John Coltrane mais acessível em termos melódicos. O melhor exemplo desta segunda vertente é a interpretação lânguida e sensual de Soul Eyes, um original de Mal Waldron.
Na impossibilidade de encontrar interpretações originais em vídeo de temas do álbum, optei por escolher uma interpretação pelos mesmos músicos do tema Afro Blue (1960):


Projecto 200 anos de música. A ideia é simples. Ao longo de duzentas entradas, o Piano na Floresta vai listar duzentas obras musicais, uma por cada ano, iniciando a contagem decrescente a partir do ano 2000. Se tudo correr conforme planeado, será possível identificar um disco ou uma obra composta em cada um dos anos no intervalo entre o ano 1800 e o ano 2000. Não há limitações de género musical. A qualidade e a reputação da obra não constituem critério de escolha, embora se entenda que ela é, de algum modo, representativa do ano em questão.

terça-feira, dezembro 09, 2008

1963. Ring of Fire - Johnny Cash

Para ouvir música em 1963, este era o formato de eleição. Entre a música popular, os LPs não tinham ainda a reputação que vieram a ganhar mais tarde, pelo que os 45 rotações, vulgo singles, eram o formato do dia. Este, em particular, foi um bocadinho mais importante do que os outros. Este é Ring of Fire de Johnny Cash, o poeta maldito da música country americana, que ficou conhecido como Homem de Negro. Apesar de todos os demónios que o atormentaram, ou, se calhar, graças a eles, Johnny Cash foi capaz de compor temas sobre Amor, Deus e Morte como nenhum outro músico seu contemporâneo.

À primeira vista, e pelo título, Ring of Fire não parece uma canção de amor, mas antes uma dissertação sobre motoqueiros a investir contra aneis de fogo. Nada de mais errado. A letra é inequívoca: Love is a burning thing / And it makes a firery ring / Bound by wild desire / I fell in to a ring of fire... Cercado pelo desejo, não resta outra solução que não seja mergulhar num anel de fogo, uma imagem que transmite a sensação de alguém que se apaixona perdidamente. E continua: The taste of love is sweet / When hearts like our's meet / I fell for you like a child / Oh, but the fire went wild... O sabor do amor é doce quando os nossos corações se tocam, apaixonei-me irremediavelmente e o fogo consome(-me) sem limite.

As letras simples, mas poderosas, cantadas com a voz impressionante de Cash e acompanhadas pelas sonoridades do Sudoeste americano que tanto adoro, são um cocktail musical perfeito. A influência da canção é comprovada por mais de 70 versões registadas na Wikipedia, incluindo nomes tão distintos como Bob Dylan, Frank Zappa, Ray Charles, Blondie, Social Distortion, entre muitos outros.



Projecto 200 anos de música. A ideia é simples. Ao longo de duzentas entradas, o Piano na Floresta vai listar duzentas obras musicais, uma por cada ano, iniciando a contagem decrescente a partir do ano 2000. Se tudo correr conforme planeado, será possível identificar um disco ou uma obra composta em cada um dos anos no intervalo entre o ano 1800 e o ano 2000. Não há limitações de género musical. A qualidade e a reputação da obra não constituem critério de escolha, embora se entenda que ela é, de algum modo, representativa do ano em questão.