sábado, junho 13, 2009

1946. La Vie En Rose - Edith Piaf

O ano que se seguiu ao final da II Guerra Mundial foi, compreensivelmente, o ano de La Vie en Rose. É na inconfundível voz anasalada de Edith Piaf que La Vie en Rose nasce pela primeira vez, com música de Louis Gugliemi e letra da própria Piaf. Embora seja uma chanson d' Amour, ao tema está também associado o optimismo inerente ao fim do conflito, marcando um momento a partir do qual tudo é possível e a vida só pode melhorar.

Des yeux qui font baisser les miens
Un rire qui se perd sur sa bouche
Voilà le portrait sans retouche
De l'homme auquel j'appartiens

Quand il me prend dans ses bras
Il me parle tout bas
Je vois la vie en rose

Il me dit des mots d'amour
Des mots de tous les jours
Et ça me fait quelque chose

Il est entré dans mon cœur
Une part de bonheur
Dont je connais la cause

C'est lui pour moi, moi pour lui
Dans la vie
Il me l'a dit, l'a juré pour la vie

Et dès que je l'aperçois
Alors je sens en moi
Mon cœur qui bat

Des nuits d'amour à ne plus en finir
Un grand bonheur qui prend sa place
Les ennuis, les chagrins s'effacent
Heureux, heureux à en mourir

Quand il me prend dans ses bras
Il me parle tout bas
Je vois la vie en rose

Il me dit des mots d'amour
Des mots de tous les jours
Et ça me fait quelque chose

Il est entré dans mon cœur
Une part de bonheur
Dont je connais la cause

C'est toi pour moi, moi pour toi
Dans la vie
Il me l'a dit, l'a juré pour la vie

Et dès que je l'aperçois
Alors je sens en moi
Mon cœur qui bat

A lista de nomes que recriaram a canção inclui Cyndy Lauper, Ella Fitzgerald, Louis Armstrong, Amália Rodrigues (!), Luciano Pavarotti, entre muitos outros.

Projecto 200 anos de música. A ideia é simples. Ao longo de duzentas entradas, o Piano na Floresta vai listar duzentas obras musicais, uma por cada ano, iniciando a contagem decrescente a partir do ano 2000. Se tudo correr conforme planeado, será possível identificar um disco ou uma obra composta em cada um dos anos no intervalo entre o ano 1800 e o ano 2000. Não há limitações de género musical. A qualidade e a reputação da obra não constituem critério de escolha, embora se entenda que ela é, de algum modo, representativa do ano em questão.

sexta-feira, maio 29, 2009

Lets Grow Old Together...


A comparação com os Joy Division é demasiado óbvia. Mais interessante é ouvir Duran Duran no refrão de To Lose My Life, Adrian Borland (The Sound) na voz e anos 80 espalhados por todo o álbum.

domingo, maio 17, 2009

Música Suave e Idealismo

Antony Hagerty deslumbrou todos os que ontem à noite se deslocaram ao Theatro Circo em Braga. A sua música centrada no piano e acompanhada por dois violinos, violoncelo, baixo e guitarra eléctrica ou clarinete (alternadamente) seduz todos os ouvidos por onde passa e a sua suavidade contrasta, por vezes de forma chocante, com as letras controversas dos temas interpretados. A inquietude em Another World, o masoquismo e a violência doméstica em Cripple and the Starfish, ou a ambiguidade de género em For Today I Am a Boy e I Fell in Love with a Dead Boy demonstram que Antony não hesita nas palavras necessárias para veicular uma mensagem, mas o concerto torna também evidente que a música não tem que ser transtornada ou violenta para transmitir a essa mesma mensagem.

Os pontos altos do concerto foram, a meu ver, Kiss My Name, pela execução luxuosa das cordas, The Crying Light, pela simplicidade da voz e piano e Shake That Devil pela improvisão que se lhe seguiu. A minha maior surpresa foi a excelente interpretação de Hope Mountain, acompanhada pela explicação impressionista do próprio Antony sobre como o suave teclar do piano significaria a segunda vinda de Cristo, reincarnado como mulher, caminhando sobre as águas num rio do Afeganistão.

Alinhamento:

1. Where Is My Power?
2. Her Eyes Are Underneath the Ground
3. Epilepsy Is Dancing
4. One Dove
5. For Today I Am a Boy
6. Kiss My Name
7. Everglade
8. Another World
9. Shake That Devil
10. The Crying Light
11. I Fell in Love With a Dead Boy
12. Fistful of Love
13. You Are My Sister
14. Hope Mountain
15. Twilight
16. Aeon
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17. Cripple and the Starfish
18. Hope There's Someone

terça-feira, maio 12, 2009

Antony and the Johnsons

Os bilhetes estão comprados há três meses. Sábado é a grande noite. Antony and the Johnsons ao vivo no Theatro Circo.
A fotografia apresenta uma previsão do alinhamento. O conjunto de temas anuncia-se fenomenal, sendo este Shake That Devil um dos pontos altos.


sábado, maio 09, 2009

1947. Abril em Portugal (Coimbra) - José Galhardo/ Raul Ferrão

Antes de ser acusado de ignorar integralmente a música portuguesa, resolvi prestar homenagem a um dos temas mais universalmente consagrados: Abril em Portugal (Coimbra). Com letra de José Galhardo e música de Raul Ferrão, este tema já foi interpretado por Jane Morgan, Eartha Kitt, Perez Prado & His Orchestra, Les Baxter & Orchestra, entre muitos outros. Mais de 60 anos após a sua composição, Abril em Portugal é, quase de certeza, o tema composto por portugueses com maior número de versões, o que o transporta para um patamar de relevo único.
A versão escolhida para integrar este post é, e não poderia deixar de o ser, a de Amália Rodrigues:

Projecto 200 anos de música. A ideia é simples. Ao longo de duzentas entradas, o Piano na Floresta vai listar duzentas obras musicais, uma por cada ano, iniciando a contagem decrescente a partir do ano 2000. Se tudo correr conforme planeado, será possível identificar um disco ou uma obra composta em cada um dos anos no intervalo entre o ano 1800 e o ano 2000. Não há limitações de género musical. A qualidade e a reputação da obra não constituem critério de escolha, embora se entenda que ela é, de algum modo, representativa do ano em questão.

segunda-feira, maio 04, 2009

1948. Sonatas e Interlúdios para Piano Preparado - John Cage

Os puristas acusaram-no de ser um "destruidor de pianos", mas a palavra "génio" é manifestamente insuficiente para descrever o americano John Cage (1912-1992). Admirador de Arnold Schoenberg e influenciado pelo Budismo Zen, John Cage teve como objectivo de vida explorar a utilização musical do ruído, numa tentativa de se distanciar da composição musical enquanto forma de comunicação.

Em 1940, quando instado a compor uma peça de dança para um teatro com espaço insuficiente para um ensemble de percussão, Cage conclui que o problema era do piano e não da sala. Assim, decide introduzir vários objectos entre as cordas do piano - elásticos, porcas, parafusos, borrachas, entre outros - que permitem ao pianista produzir um conjunto de sons semelhantes a um ensemble de percussão.

Lutando contra os preconceitos associados à composição, Cage procurou que esta dependesse mais das escolhas do executante e do contexto da interpretação do que das escolhas prévias do compositor. Em 4'33'' (1952) o silêncio impera durante os 4 minutos e 33 segundos de duração da peça, em que o pianista permanece sentado, imóvel, em frente ao piano. Tal facto torna a peça integralmente dependente dos ruídos aleatórios produzidos na sala (tosse, espirros, ranger de cadeiras, bater de portas, entre outros ruídos da audiência), o que conduz a que cada interpretação seja única e irrepetível.

As Sonatas e Interlúdios para Piano Preparado foram compostas durante 2 anos e terminadas em 1948. A sonoridade oscila, segundo o próprio Cage, entre as influências da música ocidental nos sons semelhantes a sinos e as da música oriental, sugerida pelos sons de tambores. De um modo geral, a harmonia musical encontra-se ausente, sendo a estrutura rítmica a preocupação central. Cage comparou a composição desta peça ao caminhar pela praia à descoberta de conchas e búzios que nos agradam. À medida que explorava o piano preparado, retinha as sonoridades que combinavam com a estrutura rítmica, abandonando as restantes. No limite deste método, Cage acaba por deixar cair toda a intencionalidade da composição para privilegiar a aleatoriedade.

A melhor performance disponível no You Tube das "Sonatas e Interlúdios" é de Tim Ovens a interpretar a Sonata IV. O vídeo demora um pouco a carregar, mas vale a pena apreciar a preparação técnica do piano.


Projecto 200 anos de música. A ideia é simples. Ao longo de duzentas entradas, o Piano na Floresta vai listar duzentas obras musicais, uma por cada ano, iniciando a contagem decrescente a partir do ano 2000. Se tudo correr conforme planeado, será possível identificar um disco ou uma obra composta em cada um dos anos no intervalo entre o ano 1800 e o ano 2000. Não há limitações de género musical. A qualidade e a reputação da obra não constituem critério de escolha, embora se entenda que ela é, de algum modo, representativa do ano em questão.

segunda-feira, abril 06, 2009

1949. Birth of Cool - Miles Davis

As obras verdadeiramente revolucionárias resultam frequentemente de uma conjugação única de factores. Birth of Cool não é, sob esse aspecto, uma excepção à regra. Depois de ter surgido duas vezes neste projecto (1969 e 1959), Miles Davis volta a aparecer, desta vez em 1949, com mais um trabalho de vanguarda. Desta vez, Miles opera a transição do jazz "clássico", associado ao bebop, para o jazz "moderno", na vertente cool jazz. A importância desta obra é particularmente notória no desenvolver de um novo estilo de jazz na Califórnia, que ficou conhecido como West Coast jazz e que terá Dave Brubeck e Chet Baker como alguns dos expoentes.

Gravado maioritariamente em 1949, Birth of Cool é um álbum luxuoso sob o ponto de vista orquestral, marcado pela colaboração de Gil Evans com o grupo de 8 músicos que acompanha Miles Davis (trompete): Mike Zwerin (trombone), Bill Barber (tuba), Junior Collins (trompa), Gerry Mulligan (saxofone barítono), Lee Konitz (saxofone alto), John Lewis (piano), Al McKibbon (baixo) e Max Roach (bateria).

Para os leitores e ouvintes que têm maior dificuldade com o jazz, esta será uma óptima forma de começar neste género, dado que Birth of Cool possui ritmos de swing, toques clássicos e sonoridades easy listening. No disco destacam-se os tema Jeru, Move e Boplicity, com este último a aparecer em destaque nesta selecção retirada do You Tube:


Projecto 200 anos de música. A ideia é simples. Ao longo de duzentas entradas, o Piano na Floresta vai listar duzentas obras musicais, uma por cada ano, iniciando a contagem decrescente a partir do ano 2000. Se tudo correr conforme planeado, será possível identificar um disco ou uma obra composta em cada um dos anos no intervalo entre o ano 1800 e o ano 2000. Não há limitações de género musical. A qualidade e a reputação da obra não constituem critério de escolha, embora se entenda que ela é, de algum modo, representativa do ano em questão.

terça-feira, março 31, 2009

1950. Pure Ella - Ella Fitzgerald

A voz cristalina e a invulgar longevidade de Ella Fitzgerald justificam plenamente a utilização do termo diva para descrever esta magnífica mulher do jazz. Depois de Billie Holiday (1958) e Sarah Vaughan (1952), Ella Fitzgerald é a terceira grande voz feminina do jazz a aparecer nesta lista.

Em Pure Ella, a voz de Ella Fitzgerald e o piano tocado por Ellis Larkins reunem-se de forma mágica para interpretar temas compostos por George Gershwin e letras de Ira Gershwin. Destaca-se a memorável interpretação de Someone To Watch Over Me, assim como a suavidade de But Not For Me.

Ella Fitzgerald - But Not For Me



Projecto 200 anos de música. A ideia é simples. Ao longo de duzentas entradas, o Piano na Floresta vai listar duzentas obras musicais, uma por cada ano, iniciando a contagem decrescente a partir do ano 2000. Se tudo correr conforme planeado, será possível identificar um disco ou uma obra composta em cada um dos anos no intervalo entre o ano 1800 e o ano 2000. Não há limitações de género musical. A qualidade e a reputação da obra não constituem critério de escolha, embora se entenda que ela é, de algum modo, representativa do ano em questão.

terça-feira, março 24, 2009

1951.Concerto para Piano e Orquestra Nº 2 - Lukas Foss

Lukas Foss faleceu no início do mês de Fevereiro de 2009, aos 86 anos. Foss tinha 28 anos quando concluiu o seu segundo concerto para piano e orquestra, uma obra de grande fôlego e revelando uma maturidade muito superior à do seu antecessor, que sofre de típicos defeitos de juventude, já que foi composto aos 17 anos.

Após uma longa introdução da orquestra, o piano entra, solitário, aos 3 minutos e 20 segundos do primeiro andamento, fortemente marcado pelas tonalidades da América dos espaços abertos, das grandes distâncias e da natureza em bruto. Em contraste, o segundo andamento segue um registo adagietto, de uma musicalidade esparsa e mais próxima da sonoridade cinematográfica. Mas é o terceiro andamento que representa o ponto alto desta obra, sobretudo a cadenza, que o próprio Lukas Foss definiu como "louca e obsessiva"(1), realçando o virtuosismo necessário à sua execução.

Entre as influências do compositor americano contam-se Paul Hindemith e, numa fase mais adiantada da sua obra, Igor Stravinsky. Este Concerto para Piano e Orquestra segue a forma do Concerto para Piano e Orquestra Nº5 (Imperador) de Ludwing Van Beethoven, mas as influências sonoras são claramente de Stravinsky, que Lukas Foss conheceu pessoalmente pela altura da première desta obra e de quem mais tarde se tornaria amigo.

(1) Lukas Foss, notas da edição Piano Concertos / Elegy for Anne Frank. Jon Nakamatsu (piano), Yakov Kasman (piano), Lukas Foss (piano), Eliza Foss (narrador), Pacific Symphony Orchestra /Carl St. Clair (maestro). Harmonia Mundi, 2001.

Projecto 200 anos de música. A ideia é simples. Ao longo de duzentas entradas, o Piano na Floresta vai listar duzentas obras musicais, uma por cada ano, iniciando a contagem decrescente a partir do ano 2000. Se tudo correr conforme planeado, será possível identificar um disco ou uma obra composta em cada um dos anos no intervalo entre o ano 1800 e o ano 2000. Não há limitações de género musical. A qualidade e a reputação da obra não constituem critério de escolha, embora se entenda que ela é, de algum modo, representativa do ano em questão.

sábado, março 07, 2009

1952. In Hi-Fi - Sarah Vaughan

Os anos 50 marcam o encontro de três divas do jazz - Billie Holiday, Ella Fitzgerald e Sarah Vaughan. Das três, a vocalista e pianista Sarah Vaughan (1924-1990) foi a que teve a vida mais equilibrada e menos marcada por traumas de infância, adolescência e jovem adulta. Por altura do lançamento de In Hi-Fi, em 1952, já Sarah era uma veterana dos blues e do jazz, apesar de ter apenas 28 anos.

O álbum é uma magnífica selecção de clássicos do jazz, incluindo Nice Work If you Can Get It, Can't Get Out of this Mood e Ain't Misbehavin', e conta com a participação de Miles Davis no trompete. As composições alternam o small ensemble com a orquestra alargada em estúdio, mas em todas elas sobressai a voz emotiva, sofisticada e segura de Vaughan.

Come Rain or Come Shine - Sarah Vaughan & Miles Davis:


Projecto 200 anos de música. A ideia é simples. Ao longo de duzentas entradas, o Piano na Floresta vai listar duzentas obras musicais, uma por cada ano, iniciando a contagem decrescente a partir do ano 2000. Se tudo correr conforme planeado, será possível identificar um disco ou uma obra composta em cada um dos anos no intervalo entre o ano 1800 e o ano 2000. Não há limitações de género musical. A qualidade e a reputação da obra não constituem critério de escolha, embora se entenda que ela é, de algum modo, representativa do ano em questão.

sábado, fevereiro 28, 2009

1953. Sinfonia Nº 10 - Dmitri Shostakovich

A Sinfonia Nº10 de Dmitri Shostakovich marca a reabilitação do compositor na União Soviética, graças à morte de Josef Staline em 1953. O final do quarto andamento é, diz-se, um retrato musical do ditador, realçando a sua brutalidade e sugerindo a "banalidade do mal"(1). A utilização do metrónomo num ritmo alucinante é a marca distintiva da gravação dirigida por Herbert Von Karajan, que conduz a Orquestra Filarmónica de Berlim a uma performance memorável.

O Allegro do 2º andamento desperta em mim sentimentos intensos, furiosos, quase violentos. Tal não surpreende. Nesse sentido, o contraste entre andamentos dificilmente poderia ser mais pronunciado. Por contraposição, o primeiro andamento é de uma beleza melódica trágica, marcado por oscilações entre a contenção sinistra e as explosões sonoras de contornos épicos. Há qualquer coisa de verdadeiramente inquietante neste primeiro andamento, em que o cronómetro ultrapassa os 22 minutos. Não sei se é a ausência de uma estrutura facilmente apreensível nas primeiras audições, ou o "sentimento avassalador de uma angústia sublimada" (2) de que falam as críticas à obra. Mas é impossível não sentir essa inquietude perante música tão densa e crispada.
1. Moderato (mp3 excerto)
2. Allegro (mp3 excerto)
3. Allegretto
4. Andante - Allegro

(1) Solomon Volkov, Testimony: The Memoirs of Dmitri Shostakovich, Limelight Editions, 2004.
(2) Richard Osborne, notas da edição Shostakovich, Symphony nº10 in E Minor, Op.93, Berliner Philarmoniker conducted by Herbert Von Karajan, Deutsche Grammophon, 1981

Projecto 200 anos de música. A ideia é simples. Ao longo de duzentas entradas, o Piano na Floresta vai listar duzentas obras musicais, uma por cada ano, iniciando a contagem decrescente a partir do ano 2000. Se tudo correr conforme planeado, será possível identificar um disco ou uma obra composta em cada um dos anos no intervalo entre o ano 1800 e o ano 2000. Não há limitações de género musical. A qualidade e a reputação da obra não constituem critério de escolha, embora se entenda que ela é, de algum modo, representativa do ano em questão.

sábado, fevereiro 07, 2009

1954. Louis Armstrong Plays W.C. Handy

Louis Armstrong é provavelmente o mais famoso músico de jazz de todos os tempos. Na interpretação dos temas mais famosos de W.C.Handy, considerado o pai dos blues, o vocalista e trompetista atinge níveis de intensidade, perfeição e exigência só acessíveis a um predestinado. A orquestração é excelente e a produção límpida ao ponto de permitir aos restantes músicos um lugar de destaque para além do próprio Louis, com particular destaque para Barney Bigard no clarinete e Billy Kyle no piano. Os duetos de Louis com a voz encantadora de Velma Middleton transmitem a química das grandes parcerias, sobretudo em Lovess Love, Long Gone (from the Bowlin' Green) e na épica versão de St. Louis Blues.

Ouvir os blues de W.C.Handy interpretados por Louis Armstrong and His All-Stars é quase uma experiência religiosa, porque deve ser saboreada em condições apropriadas. Um sofá confortável, um Jack Daniels na mão e a ausência de companhia, são indispensáveis para poder disfrutar dos blues na sua plenitude. A tristeza toma outra dimensão quando é partilhada, ainda que seja discutível se ela aumenta ou diminui em função dessa partilha. Tal como a partilha da tristeza não nos deixa indiferentes, o mesmo se pode dizer deste disco memorável, uma das últimas grandes interpretações de Louis Armstrong.

A gigantesca versão de Saint Louis Blues, uma das melhores de todos os tempos, pode ser escutada integralmente no You Tube:

Projecto 200 anos de música. A ideia é simples. Ao longo de duzentas entradas, o Piano na Floresta vai listar duzentas obras musicais, uma por cada ano, iniciando a contagem decrescente a partir do ano 2000. Se tudo correr conforme planeado, será possível identificar um disco ou uma obra composta em cada um dos anos no intervalo entre o ano 1800 e o ano 2000. Não há limitações de género musical. A qualidade e a reputação da obra não constituem critério de escolha, embora se entenda que ela é, de algum modo, representativa do ano em questão.

quarta-feira, janeiro 14, 2009

Euforia

Changing Your Strut When You Know I'm Behind You
Changing Your Ways Cause You Don't Know What To Do
I Only Wanna Tell You
How I Feel Inside
If Only You Could Listen
Try To Change Your Mind

So I Walk Right Up To You
And You Walk All Over Me
And I Ask You What You Want
And You Tell Me What You Need
Can't You Feel It All Come Down
Can't You Hear It All Around
At The Place Where Lost Is Found
That Great Love Sound

Talking To You Makes Me Wanna Shake And Shout
Touching You Makes Me Wanna Come Right Out
You Could Never Want Me
The Same Way I Want You
I'm Love Tornado Struck
I Don't Know What To Do

sábado, janeiro 10, 2009

1955. Maybellene - Chuck Berry

A Rolling Stone disse que o rock'n'roll começou aqui. A importância de Chuck Berry no nascimento do rock'n'roll é por demais evidente. Os acordes simples, a energia debitada, a produção caseira e as letras sobre carros e mulheres apontaram o caminho para o garage rock e para o rockabilly, catapultaram Elvis Presley para o estrelato, influenciaram bandas memoráveis como Pixies, Jesus and The Mary Chain ou Straycats e ainda hoje têm dignos descendentes nos Black Rebel Motorcycle Club ou The Raveonettes.
Maybellene é uma canção simples, directa, com apenas 2 minutos e 21 segundos, mas o seu impacto ultrapassa em muito a sua qualidade intrínseca. É a atitude rock'n'roll que nasce com esta canção e ignorar esse impacto é esquecer que toda a música popular tem uma dívida para com nomes fundadores como Chuck Berry. A justiça tem sido feita ao longo dos anos, com inúmeras homenagens e referências no contexto da cultura popular. Por exemplo, quem não se recorda de Michael J. Fox a fazer de Marty McFly em Regresso ao Futuro (1985) a tocar Johnny B. Good em 1955 em frente a uma plateia de teenagers atónitos?

Maybellene (mp3) - Chuck Berry
Projecto 200 anos de música. A ideia é simples. Ao longo de duzentas entradas, o Piano na Floresta vai listar duzentas obras musicais, uma por cada ano, iniciando a contagem decrescente a partir do ano 2000. Se tudo correr conforme planeado, será possível identificar um disco ou uma obra composta em cada um dos anos no intervalo entre o ano 1800 e o ano 2000. Não há limitações de género musical. A qualidade e a reputação da obra não constituem critério de escolha, embora se entenda que ela é, de algum modo, representativa do ano em questão.

domingo, janeiro 04, 2009

Vazio

Rooms by the Sea (1951) by Edward Hopper
Música: Popstar Researching Oblivion by Flotation Toy Warning (mp3)

sábado, janeiro 03, 2009

1956. Elvis Presley - Elvis Presley

Elvis Presley foi um pioneiro. Mesmo não sendo apreciador dos primórdios do rock'n'roll, tenho de admitir que a sua influência ultrapassa em muito a sua geração. Na verdade, o gingar de ancas de Elvis fez mais pelo progresso da música popular contra as mentalidades conservadoras e estagnadas do que Lennon e Ono nus na cama pela paz, o arrancar da cabeça de um periquito vivo por Ozzy Osborne ou o soutien cone de Jean-Paul Gautier usado por Madonna.

A atitude rebelde, anti-sistema, seria retomada nos primórdios do punk-rock, em particular na versão que casou com sucesso a música e a atitude, como foi o caso dos The Clash. A admiração da banda de Joe Strummer por Elvis era tão grande, que até a capa de London Calling é um tributo.

O primeiro disco de Elvis Presley foi editado em 1956 e tem título homónimo. São apenas 28 minutos, mas o poder avassalador desta música para partir corações e provocar revoluções é evidente desde a abertura com Blue Suede Shoes (mp3). Nenhum dos temas foi escrito por Elvis, mas as suas interpretações tornaram-se hinos para uma geração de teenagers brancos da América que nunca tinham ouvido coisa semelhante.

Blue Suede Shoes (mp3); Trying to Get to You (mp3); Blue Moon (mp3).

Projecto 200 anos de música. A ideia é simples. Ao longo de duzentas entradas, o Piano na Floresta vai listar duzentas obras musicais, uma por cada ano, iniciando a contagem decrescente a partir do ano 2000. Se tudo correr conforme planeado, será possível identificar um disco ou uma obra composta em cada um dos anos no intervalo entre o ano 1800 e o ano 2000. Não há limitações de género musical. A qualidade e a reputação da obra não constituem critério de escolha, embora se entenda que ela é, de algum modo, representativa do ano em questão.

quarta-feira, dezembro 31, 2008

1957. Such Sweet Thunder - Duke Ellington

A homenagem de Duke Ellington a William Shakespeare tomou o formato de uma suite orquestral inspirada em personagens e peças de teatro do dramaturgo inglês. A união da música de Ellington com o teatro de Shakespeare pode parecer, à partida, algo estranha, já que as suas obras se encontram separadas por quase 400 anos. Mas, segundo relata John Edward Haase em Beyond Category - The Life and Genius of Duke Ellington, tal como Shakespeare escreveu para a mesma companhia de teatro e para os mesmos actores durante 19 anos, também Ellington compôs quase exclusivamente para os músicos da sua orquestra durante quase 50 anos.

Para além do brilhante The Star-Crossed Lovers inspirado em Romeu e Julieta, destacam-se igualmente nesta obra Madness In Great Ones retratando a loucura de Hamlet e as três bruxas de Macbeth em The Telecasters.

Duke Ellington - The Star-Crossed Lovers

Projecto 200 anos de música. A ideia é simples. Ao longo de duzentas entradas, o Piano na Floresta vai listar duzentas obras musicais, uma por cada ano, iniciando a contagem decrescente a partir do ano 2000. Se tudo correr conforme planeado, será possível identificar um disco ou uma obra composta em cada um dos anos no intervalo entre o ano 1800 e o ano 2000. Não há limitações de género musical. A qualidade e a reputação da obra não constituem critério de escolha, embora se entenda que ela é, de algum modo, representativa do ano em questão.

sábado, dezembro 27, 2008

1958. Lady in Satin - Billie Holiday

Com uma vida marcada pela controvérsia, associada aos desgostos amorosos, ao abuso do álcool e das drogas e às relações problemáticas com a justiça, Billie Holiday é a primeira diva do jazz a aparecer no Projecto 200 anos de música. É também o primeiro disco de jazz cantado a merecer referência, ainda que possa ser altamente questionável que se trate de jazz... mas adiante!

A voz de Billie Holiday transmite tristeza. Quando gravou Lady In Satin, o seu penúltimo álbum de estúdio, Billie já não tinha a voz de outrora, mas o disco é tocante pela emoção arrebatada que transmite, sublimada pelo acompanhamento da orquestra de Ray Ellis, que dá aos temas uma sonoridade quase celestial. O que se perde em vitalidade na voz de Billie é ganho em maturidade. Ao ouvir Lady In Satin fico com a sensação que Billie já viveu mais do que qualquer um de nós, simples mortais, poderá algum dia aspirar a viver. É uma voz carregada de sentimento, de intensidade, de emoção e premonitória do fim... Billie Holiday morreria menos de um ano após esta gravação, deixando para a posteridade um disco de uma beleza dificilmente igualável por qualquer outra voz do jazz.

I'm a Fool to Want You, escrito por Frank Sinatra, é o tema de abertura:
Billie Holiday - I'm a fool to want you




The End of a Love Affair fecha o disco:
Billie Holiday - The End of a Love Affair




Projecto 200 anos de música. A ideia é simples. Ao longo de duzentas entradas, o Piano na Floresta vai listar duzentas obras musicais, uma por cada ano, iniciando a contagem decrescente a partir do ano 2000. Se tudo correr conforme planeado, será possível identificar um disco ou uma obra composta em cada um dos anos no intervalo entre o ano 1800 e o ano 2000. Não há limitações de género musical. A qualidade e a reputação da obra não constituem critério de escolha, embora se entenda que ela é, de algum modo, representativa do ano em questão.

quarta-feira, dezembro 24, 2008

1959. Kind of Blue - Miles Davis

"Não aprecio jazz..." Se os leitores se identificam com a afirmação, talvez devam considerar ouvir esta obra-prima de Miles Davis. Responsável por sucessivas reinvenções no âmbito da música jazz, Miles Davis já era um músico consagrado quando gravou e editou Kind of Blue (1959). O sexteto que gravou o disco é a combinação perfeita de músicos de jazz: Miles Davis (trompete), John Coltrane (saxofone tenor), "Cannonball" Adderley (saxofone alto), Bill Evans (piano), Paul Chambers (baixo) e Jimmy Cobb (bateria).

O álbum enquadra-se no jazz modal e foi um dos primeiros a romper com o estilo bebop, dominado pelo objectivo dos músicos tocarem o mais rápido possível sobre os acordes de cada tema, improvisando harmonias cada vez mais complexas. Ora, no jazz modal de Kind of Blue, a melodia predomina, a música é muito mais esparsa e o som muito menos preenchido do que acontece no jazz típico dos anos 40 e 50, sobretudo com Charlie Parker e Dizzy Gillespie.

Por essa razão, em termos emocionais, o jazz de Kind of Blue é mais relaxante e menos "stressante", permitindo ao ouvinte desligar-se dos problemas do seu dia-a-dia e mergulhar nesta massagem auditiva. Kind of Blue promove a nostalgia, aguça as emoções e seduz os sentidos, mas está muito longe de ser um disco deprimente. Pelo contrário, ouvido em boa companhia, Kind of Blue é um disco romântico, sensual e fisicamente estimulante. Quase apetece dizer que, se por altura do último tema, Flamenco Sketches, ainda não vos apeteceu tirar a roupa ao(à) parceiro(a), há qualquer coisa de errado na vossa relação! Se quiserem fazer a experiência, aqui ficam links para o download (quase) integral do álbum. Bom proveito!

So What (mp3)
Blue in Green (mp3)
All Blues (mp3)
Flamenco Sketches (mp3)

Se estiverem interessados em compreender o contexto em que surge Kind of Blue, podem escutar um excerto de 4 minutos do documentário Ken Burns Jazz em que o disco é analisado.

Projecto 200 anos de música. A ideia é simples. Ao longo de duzentas entradas, o Piano na Floresta vai listar duzentas obras musicais, uma por cada ano, iniciando a contagem decrescente a partir do ano 2000. Se tudo correr conforme planeado, será possível identificar um disco ou uma obra composta em cada um dos anos no intervalo entre o ano 1800 e o ano 2000. Não há limitações de género musical. A qualidade e a reputação da obra não constituem critério de escolha, embora se entenda que ela é, de algum modo, representativa do ano em questão.