quarta-feira, maio 16, 2007

13. Dark Side of the Moon (1973) - Pink Floyd


Tinha 15 anos. Foi numa tarde de semana em que não tive aulas e fui para casa de um amigo chamado Rui que o ouvi a primeira vez. Certamente influenciado pelo pai, Rui era fã de ficção científica, o que explica termos visto 2001-Odisseia no Espaço vezes sem conta. O filme é, ainda hoje, um dos meus favoritos de sempre, pelas questões que coloca sobre a natureza humana e sobre os condicionamentos provocados pela tecnologia, mas a crítica fica para outra entrada. Aqui vai falar-se de Dark Side, que aborda alguns dos mesmos tópicos e que escutamos inúmeras vezes.

O disco é, a todos os títulos, invulgar. Lançado em 1973, é o primeiro mega-sucesso dos Pink Floyd, que já tinham editado 7 discos anteriormente, "menos convencionais", com uma sonoridade críptica e psicadélica. Estranhamente, Dark Side of the Moon tornou-se um sucesso de forma lenta e persistente: esteve mais de 700 (setecentas!!!) semanas (14 anos!!!) classificado no Billboard 200, top americano de vendas. (Apesar disso, não é o disco mais vendido de todos os tempos.) Este facto chegaria para tornar o disco mítico, mas há mais, muito mais.

Já apelidei muitas edições musicais de "obra-prima", mas provavelmente a nenhuma outra a expressão se adapta melhor do que a Dark Side. É o primeiro disco gravado em som quadrifónico, o que torna a audição nas aparelhagens de som "último modelo" uma delícia e a única capaz de proporcionar a verdadeira apreciação do detalhe sonoro. Produzido por Alan Parsons e pelos Floyd, Dark Side é pura e simplesmente perfeito, em termos de letra, música e produção. As únicas críticas que ouvi a este disco é que é demasiado perfeito, fazendo com que se perca o encanto, a improvisação e alguma "aspereza" de produção que caracteriza habitualmente a criação artística e musical. Mas o perfeccionismo também pode ser uma vertente relevante da arte e aqui revela-se em todo o seu esplendor.

Tal como sobre outros discos memoráveis se contam certos mitos, também de Dark Side se diz que deve ser ouvido com uma experiência visual. Se colocarmos o disco e o filme O Feiticeiro de Oz simultaneamente, as coincidências são espantosas, quase se podendo dizer que o primeiro constitui a banda sonora do segundo. Eu próprio já fiz essa experiência e fiquei surpreendido. Se a experiência for acompanhada por "substâncias", digamos, favoráveis à abertura do corpo e do espírito, o prazer pode ser infinitamente superior. E mais não digo...

Quanto à música propriamente dita, toca ininterruptamente em cada um dos lados do vinil. Desde a primeira batida cardíaca até à última, experimentamos todas as sensações que um ser humano conhece, desde que nasce até à sua morte. Mas as letras centram-se fundamentalmente:

No stress da vida quotidiana em Breathe:
"Run, rabbit run.
Dig that hole, forget the sun,
And when at last the work is done
Don't sit down it's time to dig another one."

e em Time:
"So you run and you run to catch up with the sun but it's sinking
Racing around to come up behind you again.
The sun is the same in a relative way but you're older,
Shorter of breath and one day closer to death."

Na ganância, em Money:
"Money, it's a crime.
Share it fairly but don't take a slice of my pie.
Money, so they say
Is the root of all evil today.
But if you ask for a raise it's no surprise that they're
giving none away."

E na alienação, em Brain Damage:
"The lunatic is in my head.
The lunatic is in my head
You raise the blade, you make the change
You re-arrange me 'til I'm sane.
You lock the door
And throw away the key
There's someone in my head but it's not me."

O disco termina de uma forma nihilista, com a frase:
"There is no dark side of the moon really. Matter of fact it's all dark."
Até a batida cardíaca se extinguir por completo...

Podem ler mais curiosidades sobre The Dark Side of the Moon aqui.
O final glorioso do álbum pode ser escutado neste "film-clip" kitsch acompanhado por imagens de algumas figuras dominantes da época como Nixon, Arafat ou o eterno Fidel Castro e milhares de discos de vinil a explodirem.

sábado, maio 12, 2007

12. Aion (1990) - Dead Can Dance


Na lista dos 20 discos da minha vida, este é um dos mais excêntricos. Os Dead Can Dance são frequentemente associados com um estilo musical conhecido como dark wave, que é manifestamente redutor para o alcance e diversidade da música praticada por este duo global: Lisa Gerrard vive na Austrália e Brendan Perry na Irlanda, encontrando-se ocasionalmente para gravar. A combinação da voz celestial e onírica de Lisa com a voz sinistra e etérea de Brendan, associada a uma grande quantidade de instrumentos acústicos e electrónicos converteu os Dead Can Dance numa das bandas mais amadas em todo o mundo, quer pelos críticos musicais, quer pelo público em geral.

Em Aion (1990), os Dead Can Dance transportam-nos para tempos antigos e música imemorial. Saltarello é uma dança instrumental de um compositor italiano anónimo do século XIV; The Song of Sybil é uma versão de um tema tradicional da Catalunha com raízes no século XVI; e a canção mais intensa é Fortune Presents Gifts Not According to the Book, com poema de Luis de Góngora, poeta e dramaturgo espanhol do final do século XVI conhecido pela corrente literária que gerou: o gongorismo. Toda a sonoridade é mística e misteriosa, com evidentes ligações ao folclore celta, às danças tradicionais italianas, ao canto gregoriano e à música barroca, com paisagens remotas a servirem de inspiração a toda a composição.

A capa do disco é um detalhe do "Jardim das Delícias" de Hieronymus Bosch é a cereja em cima de um bolo muito bem recheado. Outros discos excelentes dos Dead Can Dance são Within the Realm of a Dying Sun (1987), Into the Labyrinth (1993) e Toward the Within (ao vivo) (1994). O ecletismo do duo pode ser constatado nas influências do Médio Oriente que perpassam Rakim, o tema de abertura de Toward the Within:

sexta-feira, maio 11, 2007

11. The Doors (1967) - The Doors


Adivinha: Para além de sermos do signo Sagitário, o que é que eu (Fernando Piano) e o Jim Morrison (vocalista dos Doors) temos em comum?

Ouvi este disco pela primeira vez quando tinha 18 anos de vida e era facilmente impressionável. Para além da energia que transpira por todos os poros, o disco marcou-me pela mudança paradigmática que provocou na música rock: era possível encontrar nas trevas, na revolta e no incorformismo, uma alternativa à luz, às flores, aos hippies e ao sol da California dos Beach Boys. Até este disco, os meus ouvidos escutavam maioriamente música pop comercial, mas foi com os Doors que dei os primeiros passos na escuridão...

Os solos de teclas de Ray Manzarek, a guitarra blues de Robby Krieger, a bateria de John Densmore e a voz intensa/alucinada/sussurada do deus sexual Jim Morrison tranformaram o que seria uma banda de blues rock vulgar num inesquecível portento musical. Deste disco em particular diz-se que demorou apenas 6 dias a gravar, o que ilustra bem o génio explosivo e criativo da banda, que ainda viria a gravar outro (Strange Days) durante o ano de 1967. Mas o que mais impressiona no primeiro álbum dos Doors é a riqueza da composição musical associada à inspiração poética de Jim. Se é verdade que a poesia de Jim Morrison nunca recebeu o acolhimento da crítica que o seu autor desejava, também não é menos verdade que foram os seus melhores escritos que acabaram musicados.

Os temas mais fortes do disco são o hit Light My Fire, o teatral Alabama Song (Whiskey Bar), a balada Crystal Ships, a batida infecciosa de Break On Through e o épico edipiano The End. Para recordarem o fabuloso The End:

terça-feira, maio 08, 2007

10. Tindersticks II (1995) - Tindersticks


A minha relação com esta obra é especial. Foi de coração apaixonado que os conheci e de coração partido que os vi ao vivo pela primeira vez no Coliseu do Porto, em 1997, num dos concertos mais memoráveis da minha vida.

Quando saiu Tindersticks II, o segundo disco de originais da banda, não conhecia Tindersticks I, mas a música encantou-me desde o primeiro acorde. A voz sedutora de Stuart Staples, a mistura dos instrumentos tradicionais do rock tocados de forma gentil e uma secção de cordas quase sempre arrebatada transformou a face da música alternativa. Quase arrisco que, pelo menos em Portugal, o conceito de música “alternativa” se tornou uma moda com os Tindersticks, em particular quando o álbum “Curtains” chegou aos primeiros lugares do top nacional e a banda encheu os Coliseus.

Apesar da sedução comercial exercida por Curtains, é com Tindersticks II que a banda atinge o seu zénite. São 70 minutos de música perfeita, letras de um sarcasmo romântico inigualável e um alinhamento memorável, incluindo Tiny Tears, She's Gone, Another Night In, e o fabuloso My Sister, com uma prosa trágico-cómica de primeira apanha. A introdução pontual de instrumentos pouco vulgares no horizonte rock, como sejam o trombone, o violoncelo e o serrote (!) proporcionam momentos musicais surpreendentes que constituem uma delícia sonora para os ouvidos mais sensíveis.

Outro dos momentos mais intenso de Tindersticks II é Travelling Light, um dueto com Carla Togerson (vocalista dos Walkabouts) que podem ver e ouvir aqui:

domingo, abril 22, 2007

9. Lift Your Skinny Fists Like Antennas to Heaven (2000) - Godspeed You Black Emperor!

Já muito foi escrito sobre os Godspeed You Black Emperor!, mas nada substitui a audição integral de Lift Your Skinny Fists Like Antennas to Heaven (2000). Considerados praticantes de música para o novo milénio, os GYBE! têm sido enquadrados no género pós-rock, mas tal limita mais do que facilita a divulgação. A capacidade dos Godspeed You Black Emperor! para nos surpreender é quase infinita. As influências são muitas: dos Sonic Youth aos Swans, de Michael Nyman a John Cage.

A obra abre com o tema-título, construído segundo uma estrutura em crescendo, semelhante ao Bolero de Maurice Ravel, embora eu duvide que seja isso que os GYBE! tivessem em mente. Começa com uma guitarra eléctrica gentilmente dedilhada e termina numa apoteótica sinfonia de dezenas de instrumentos a repetirem a melodia inicial. Uma marcha quasi-wagneriana, uma verdadeira orquestra rock que inclui guitarras eléctricas, baixo, 2 sets de bateria, violino, violoncelo e uma secção de metais.

Esta não é uma obra para espíritos fracos. Os GYBE! demonstram ao longo de 90 minutos a razão pela qual são um dos maiores fenómenos de culto mundial do género e uma bandeira dos movimentos anti-globalização. Dois cds e quatro longas faixas (Storm, Static, Sleep e Antennas to Heaven) de mais de 20 minutos cada uma e com secções muito diversas, quase integralmente instrumentais, entre-cortadas por samplers de altifalantes repetindo mensagens de aviso em aeroportos e bombas de gasolina e pregadores religiosos com retórica do apocalipse, entre outros pedaços editados que transmitem a opressão, alienação e stress presentes nos tempos modernos. Uma sinfonia urbano-depressiva, banda sonora desse longo filme a preto e branco que são as nossas vidas.

Declaração dos GYBE! no interior do cd:
"This tape recording is the last stanza of a 3page chapter; we dedicate this stanza to quiet refusals, loud refusals and sad refusals. we dedicate it to every prisoner in the world... (we dedicate it to empty streets at dawn.)"

Podem ouvir um extracto de um dos temas dos Godspeed You Black Emperor! aqui: http://www.youtube.com/watch?v=5S_AvEaUPYM

sábado, abril 21, 2007

8. Mellon Collie and the Infinite Sadness (1995) - Smashing Pumpkins

Um disco memorável! Uma obra-prima inigualável! Mellon Collie and the Infinite Sadness é um título perfeito para descrever 28 temas e duas horas de música sempre surpreendente e poesia inspiradíssima. Este duplo álbum encontra-se dividido em duas partes: Dawn to Dusk e Twilight to Starlight. A produção de Flood, Alan Moulder e Billy Corgan é quase perfeita. A arte gráfica é lindíssima e inspira-se em George Meliés. Os animais e seres inanimados representados ganham personalidade e comportamentos humanos e fazem-nos sorrir.

Os Smashing Pumpkins passam por 30 anos de influências e sonoridades distintas. O grunge de Chicago está aqui mais diluído do que no disco anterior, Siamese Dream, e misturado com canções de amor de influência beatliana e épicos à la Pink Floyd, mas tudo temperado com uma apreciável dose de irreverência e inconformismo.

O duplo álbum inicia-se com Mellon Collie and the Infinite Sadness um instrumental de piano a solo que bem podia ser a banda sonora deste blog. É Billy Corgan que faz tudo: vocalista, compositor, produtor, multi-instrumentista e génio musical que liderou os Pumpkins durante os seus mais de 10 anos de existência. Os grandes êxitos comerciais deste disco aparecem no primeiro cd: Tonight, Tonight, Zero e Bullet With Buttefly Wings. Dois épicos inesquecíveis (Porcelina of the Vast Oceans e Thru the Eyes of Ruby) rompem com a rigidez da canção pop-rock de 3 ou 4 minutos e apresentam-se como poemas sinfónicos do rock. Duas melodias românticas, Beautiful e By Starlight, povoavam os meus amores dos vinte e poucos anos.

As letras caracterizam-se por tópicos tão diversificados como a fúria e alienação social (“Despite all my rage I am still just a rat in a cage”), o nihilismo (“Emptiness is loneliness, loneliness is cleanliness, cleanliness is godliness and god is empty just like me”), o voyeurismo (“I know I’m silly cause I’m hanging in this tree in the hopes that she will catch a glimpse of me”) ou a manipulação emocional (“wrap me up in always, and drag me in with maybes; your innocence is treasure, your innocence is death your innocence is all I have”).

Doze anos passados desde a saída deste trabalho, ainda é um disco que ouço com regularidade e que não perdeu o impacto inicial. A vertente maníaco-depressiva da obra não é, provavelmente, para todos, pois oscila entre temas muito melódicos e belos (Galapogos, Cupid de Locke ou By Starlight) e a violência sonora ao nível do melhor grunge alguma vez feito (Fuck you (an ode to no one), Tales of a scorched earth ou X.Y.Z.)

Depois do auge, a carreira dos Smashing Pumpkins seria sempre a descer...

segunda-feira, abril 16, 2007

Solidariedade para Blacksburg, VA

A minha amiga (e colega de trabalho) Joana está em Blacksburg de visita ao namorado que trabalha na Virginia Tech. Para ti, Joana, e para o Nick um beijo, um abraço forte e a minha total solidariedade neste momento difícil que atravessam.

sábado, abril 14, 2007

7. Thunder Perfect Mind (1992) - Current 93


Uma das vantagens de ouvir muita música é ser capaz de separar obras vulgares de raros momentos de beleza poética e sonora. Não há muitos discos que possam ser classificados de eternos, mas Thunder Perfect Mind (1992) dos Current 93 é inegavelmente um deles. Dito isto, é importante dizer que este não é um disco fácil. Numa carreira que conta com mais de 40 discos e 22 anos de existência, havia muito por onde escolher, mas as razões que se seguem explicam, em parte, a escolha.

Thunder Perfect Mind é o mais longo disco de originais dos Current 93, com quase 79 minutos de música, e um dos mais consistentes e articulados do início ao fim. É considerada uma obra-prima dentro do pouco divulgado género do folk apocalíptico, termo usado para descrever música à base de guitarra acústica sombria e letras melancólicas e depressivas. Os textos são notoriamente inspirados na poesia de William Blake e a música nos temas folk inglês de Shirley Collins. Embora a guitarra acústica seja predominante, há aspectos muito pouco convencionais neste disco. Os primeiros 30 minutos (9 faixas) são extremamente melódicos, marcados pela guitarra acústica e pela flauta gentilmente tocadas e pela voz do “outro mundo” de David Tibet. Os meus momentos favoritos são In the Heart of the Wood and What I Found There e A Lament For My Suzanne.

Este excelente disco de música folk muda significativamente de sonoridade a partir da faixa número 10, All the Stars are Dead Now. Inesperadamente, é aqui introduzido um sampler de Saint Louis Blues, um original dos anos 20, do swing e das big-bands. Simplesmente desconcertante. Mas nada prepara o ouvinte para o que se segue. Entra um repetitivo riff de guitarra acústica tocado até à náusea e acompanhado por Tibet a recitar um longo poema, de conteúdo largamente obscuro e ininterpretável, mas que, tanto quanto consigo compreender, é uma profecia sobre o apocalipse. O tom sinistro prossegue com Rosy Stars Tears From Heaven e a voz de Tibet, sinistra na faixa anterior, torna-se aqui simplesmente diabólica, ainda que sussuradamente diabólica.

Como a surpresa é, por vezes, a mãe da genialidade, When the May Rain Comes, uma versão de um original dos Sand, é lindíssima. Os instrumentos usados (baixo, flauta e guitarra) produzem uma sonoridade melódica e a interpretação pelo dueto David Tibet e Rose McDowall faz estragos na mais empedernida insensibilidade. Segue-se o tema título, Thunder Perfect Mind, um crescendo musical ameaçador acompanhado pela leitura de textos do livro homónimo.

Depois de 55 minutos de música deslumbrante, faltava um tema épico para atirar tudo o que é convencional pela janela. Hitler as Kalki dura 16 minutos e 28 segundos e é dedicado ao pai de David Tibet, já falecido, que combateu na II Guerra Mundial. O início é influenciado por música tradicional hindu, mas a peça musical transfigura-se lentamente numa espiral eléctrica, levemente tocada pelo minimalismo, com David Tibet a dissertar sobre Hitler e o apocalipse. No texto que acompanha o cd, Tibet explica-nos que algumas pessoas consideram que Hitler foi Kalki, a décima e última incarnação do Deus Hindu Vishnu, que vem num cavalo branco para destruir o cosmos no final de cada ciclo universal. Tibet incita à reflexão e à oração para que a destruição termine e um novo paraíso e uma nova Terra possam surgir.

Para além de ser um disco místico e experimental, Thunder Perfect Mind é também uma obra complexa sob o ponto de vista lírico. Já tentei interpretar muita da poesia contida nesta obra, mas as conclusões são pouco satisfatórias. Os conteúdos genéricos são o apocalipse, o arrependimento, a piedade e a salvação, mas qualquer interpretação imediata dos textos aqui contidos será, muito provavelmente, errada. Uma crítica aprofundada da reedição do disco aparece aqui.

sexta-feira, abril 06, 2007

6. Achtung Baby (1991) - U2

Berlim tem sido palco da criação de várias obras memoráveis da música popular. Os pontos de ligação entre Low de David Bowie e Achtung Baby dos U2 são mais do que muitos: ambos são considerados discos chave nas respectivas carreiras, produzidos por Brian Eno, resultaram de um conturbado processo criativo levado a cabo em Berlim e constituem um corte significativo com o passado. Os U2 aparecem na minha selecção porque Achtung Baby está ligado, de forma profunda, aos meus vinte e poucos anos e a um conjunto de mudanças marcantes na minha vida pessoal.

Os fãs dos U2 costumam apontar The Joshua Tree como o auge da carreira da banda. Discordo. Ainda que esse disco represente uma mudança significativa de sonoridade e seja caracterizado por uma diversidade musical assinalável, resultante das influências Made in America, não atinge a beleza lírica e melódica de Achtung Baby.

Bem acolhido pela crítica e pelos fãs, Achtung Baby reúne dois "gigantes" da música na produção, Daniel Lanois e Brian Eno, e foi misturado por outro produtor de sucesso (Flood). É um disco que, ainda hoje, ouço da primeira à última faixa sem ser "obrigado" a evitar certos temas. Os pontos altos são difíceis de identificar, já que a coesão é um dos pontos fortes, mas o ritmo alucinante de Even Better Than the Real Thing, as baladas One e Trying to Throw Your Arms Around the World e o pessimismo sinistro de Love is Blindness são os temas pessoalmente mais marcantes.

Há ainda um conjunto de curiosidades associadas a este trabalho. Durante a digressão Zoo TV, que tive oportunidade de ver ao vivo no defunto Estádio de Alvalade, os U2 iniciavam os concertos com Zoo Station, o poderoso tema de abertura do álbum, que dava o mote para noites inesquecíveis em que o carisma de Bono, o fabuloso videowall presente no palco e as excentricidades da banda deixavam milhares em êxtase. Estou a lembrar-me das famosas chamadas telefónicas, em directo e ao vivo, para a Casa Branca ou do sampler da voz de George Bush Sr., 'rapper' de circunstância, no tema We Will Rock You... Memoráveis são ainda as investidas de Bono na poesia surrealista, com as famosas tiradas presentes em Trying to Throw Your Arms Around the World:

"He took an open top beetle
Through the eye of a needle"

"And a woman needs a man
Like a fish needs a bicycle"

5. Low (1977) - David Bowie

David Bowie é conhecido pelo "camaleão" da música pop-rock, devido à sua capacidade para se reinventar tanto a nível musical como em termos de imagem. Uma dessas reinvenções, aquela que foi, na minha opinião, a mais marcante, ocorreu com Low gravado e editado em 1977. No ano anterior, Bowie havia lançado Station To Station, um álbum que indiciava uma crise de inspiração e fazia temer pela qualidade do seu sucessor.

Depois de muitas obras de música popular marcantes na década de 60 e no início da década de 70, em meados da década, a imagem começava a sobrepor-se à música. Com o disco e com o punk em extremos opostos, era mais importante a maneira como os músicos vestiam do que a música que faziam. Bowie fez precisamente o percurso inverso. Com uma imagem muito mais sóbria, a música toma aqui a "boca de cena".
Low é igualmente marcante pelas influências que vai gerar. Os Joy Division serão a face mais visível dessa influência, mas muitas outras bandas de finais de 70 e início de 80 utilizam os sintetizadores de uma forma semelhante. O disco alterna instrumentais com temas minimalmente cantados, o que representa uma novidade radical do próprio Bowie. Os temas mais relevantes são Sound and Vision (por ser o 'hit' do álbum), Always Crashing In The Same Car, A New Career In A New Town e Warszawa.

Bowie deslocou-se a Berlim para gravar este disco, tal como viria acontecer com os dois seguintes (Heroes e Lodger). O optimismo e os exageros musicais do início dos anos 70 dão aqui lugar a um disco revolucionariamente sóbrio. A electrónica exagerada do rock progressivo, que Bowie sempre rejeitou, é substituída por uma utilização sóbria, mas eficaz, dos sintetizadores, que valorizam a criação de ambientes e paisagens sonoras de uma beleza sem precedentes.
Podem visualizar Bowie a interpretar um dos meus temas favoritos, Warszawa, ao vivo em Tóquio, aqui: http://www.youtube.com/watch?v=mvMctqXivB0
O melodioso Sound and Vision ao vivo aqui: http://www.youtube.com/watch?v=GYEOlxcirX0

quinta-feira, abril 05, 2007

4. Pink Moon (1972) - Nick Drake

Pink Moon é, a todos os tí­tulos, um disco único. A voz de Nick Drake e a sua guitarra acústica uniram-se para criar uma obra prima com apenas 28 minutos. Solidão, isolamento e alienação social são temas preponderantes em todos os trabalhos de Drake, mas atingem aqui a sua mais profunda e sentida expressão. Até o surrealismo da capa, da autoria do próprio Nick, fortemente influenciada por Dali, contribui para o ambiente de alienação pessoal, depressão e abandono social.

Nick Drake morreu em 1974, com 26 anos, de uma overdose (acidental?) de anti-depressivos, e quis o destino que este fosse o seu último album de originais. O disco exala uma tristeza e melancolia que resultam, em larga medida, da utilização exclusiva de guitarra acústica e voz na maioria dos temas, acompanhados ocasionalmente pelo piano. Paradoxalmente, as melodias são simples, belas e plenas de sentimento. Reza a lenda que Drake gravou Pink Moon de uma só vez, sem recurso a takes alternativos. Neste particular, Pink Moon representa um contraste significativo com o disco anterior, Bryter Layter (1970), no qual Drake emprega orquestrações mais elaboradas, em particular em Hazey Jane II, que os Belle and Sebastian certamente não desdenhariam.

Num dos meus temas preferidos de Pink Moon, Know, Drake canta:
"Know that I love you
Know I don't care
Know that I see you
Know I'm not there."
Nunca o suicí­dio foi tratado na música de forma tão enigmática como em Pink Moon, o tema de abertura:
"I saw it written and I saw it say
Pink moon is on its way
And none of you stand so tall
Pink moon gonna get you all
It's a pink moon It's a pink, pink, pink, pink, pink moon."
As referências ao suicídio regressam em Harvest Breed, um minuto de música com uma letra impressionante:
"Falling fast and falling free you look to find a friend
Falling fast and falling free this could just be the end
Falling fast you stop to touch and kiss the flowers that bend
And you're ready now For the harvest breed."
Em Pink Moon, a duração é inversamente proporcional à qualidade da música. Se não conhecem Nick Drake, da próxima vez que entrarem numa loja de cds já sabem o que pedir. Depois não se esqueçam de mandar um email a contar como foi a experiência de ouvir Drake pela primeira vez. Um dos raros momentos em que a música me fez sentir frágil...

segunda-feira, abril 02, 2007

3. White Light From the Mouth of Infinity (1991) - The Swans


Na selecção dos 20 discos da minha vida há bandas e discos sobejamente conhecidos. White Light From the Mouth of Infinity dos Swans não é um deles. É, muito possivelmente, a escolha mais estranha. Os Swans são uma banda que resulta do génio criativo de um homem – Michael Gira – que durante 15 anos se empenhou em desenvolver um estilo único e inconfundível de fazer música. Valorizando radicalmente a independência criativa, musical e editorial, criou a sua própria editora – a Young God Records – que se dedica à descoberta de novos talentos. Fazem parte da Young God nomes como Lisa Germano, Devendra Banhart, Akron/Family, entre outros.

Musicalmente, os Swans começaram por praticar o seu conceito muito próprio de música industrial, com vagas semelhanças com os Einstürzende Neubauten e Throbbing Gristle. A primeira fase da sua carreira (1983-1987) é caracterizada pela violência, de palavras e sons, o que torna os discos praticamente inaudíveis e peças de colecção para os fãs mais empenhados.

Em 1988 inicia-se a fase mais criativa em termos líricos e melódicos, a que não será alheio o contributo da voz bela e maldita de Jarboe. São desta fase os discos The Burning World (1989), White Light From the Mouth of Infinity (1991), Love of Life (1992) e o fabuloso álbum ao vivo Omniscience (1992). The Great Anihilator (1994) é o disco de transição para uma fase de exploração da música ambiental (e transcendental) no período 1995-1997. Este último período tem como expoente máximo um dos discos mais estranhos (e estranhamente belo) que compõe a minha colecção – Soundtracks For the Blind (1995). A carreira dos Swans termina em grande com Swans Are Dead (1997), um duplo cd ao vivo que resume os concertos dados ao longo da última digressão da banda.

A escolha de White Light From the Mouth of Infinity para esta selecção de discos que marcam a minha vida explica-se facilmente. Um amigo meu, completamente vidrado na sonoridade da banda, mostrou-me este disco. Comecei a ouvir e... nunca mais parei. A voz de Gira é grave, profunda, e assemelha-se a um trovão. As letras manifestam revolta, arrogância, egoísmo, desolação, isolamento e morte. A música alterna a melodia suave e recortada com momentos de descarga sonora, com bateria muito marcada, mas paradoxalmente melódicos. Salvaguardadas as devidas distâncias, dir-se-ia que os Swans desenvolvem neste disco o conceito musical que os Pink Floyd exploraram em Shine On You Crazy Diamond, com a vantagem adicional de Gira escrever letras muito superiores às da banda de rock sinfónico.

Não é fácil destacar um tema deste disco. O álbum vale fundamentalmente pelo seu conjunto, pela forma como os temas estão encadeados e pela utilização de um vasto leque de instrumentos que contribui para uma textura musicalmente densa. Os temas mais marcantes serão, porventura, Love Will Save You, Miracle of Love, e Song For the Sun. O poema de Failure é o mais notável do disco e um dos mais impressionantes da longa carreira de Michael Gira.

Godspeed You Black Emperor, Mogwai e outras bandas do género pós-rock não descobriram a pólvora. São, em larga medida, influenciados pelos Swans na sua fase experimental, particularmente no que diz respeito ao uso de sons pré-gravados/pré-programados, samplers e drones. Quanto a Michael Gira, continua no activo com o seu projecto Angels of Light. Como muitos músicos que atingem a maturidade (cf. Nick Cave), Gira é hoje um homem muito mais calmo. A música é mais melódica do que nunca e, uma vez por outra, vislumbram-se canções de amor genuínas, como é o caso de Untitled Love Song incluída no seu How I Loved You (2002).

Will We Survive (Michael Gira):

I'll drink the moonlight from your hands
I'll swim an ocean filled with sorrow
No lover please don't go
We can crucify tomorrow
Let the sunlight feed the air
Let it fill our lungs with lies
We'll be memorized by shadows
But our loneliness will survive

Now the sugar in your soft voice
Makes the sweetness in your weeping
And the black rose that you swallowed
Feeds the solitude you're dreaming
No I'll never taste your tears again
In the darkness that we're breathing in
Now the sun will kill the garden
In a universe that is bleeding.

sábado, março 31, 2007

2. The Velvet Underground & Nico (1967)


Os anos 60 marcam um dos períodos mais marcantes e experimentais da história da música rock. É nesta altura que aparecem as obras-primas dos Beatles (Sgt. Pepper's e White Album), Rolling Stones (Aftermath e Their Satanic Majesties Request) e Beach Boys (Pet Sounds), que influenciaram milhares de músicos e bandas que surgiram posteriormente. Contudo, quando nos referimos à “produtividade” (influência por número de discos vendidos), é para os Velvet Underground de Lou Reed, John Cale, Sterling Morrison e Maureen Tucker que temos de olhar. Rezam os mitos que o primeiro disco da banda, The Velvet Underground & Nico, vendeu apenas 1000 exemplares, mas cada pessoa que o comprou formou uma banda. De entre os nomes que reclamam a herança dos Velvet contam-se David Bowie, Joy Division, Laurie Anderson, Talking Heads, Bauhaus e, mais recentemente, Yo La Tengo, Antony & The Johnsons e Interpol, entre muitos outros.

A Nova York dos anos 60 era aberta à experimentação. Um grupo alargado de jovens músicos, artistas plásticos, realizadores e diletantes reuniam-se nas instalações da Factory debaixo a direcção de Andy Warhol para testar os limites da produção artística. Deste movimento desordenado e de base experimental nasceram os Velvet Undergound. O seu primeiro disco é revolucionário. Uma sugestão para gozo pleno da experiência auditiva: Ouçam-no do início ao final dos seus 48 minutos e 24 segundos tendo em mente que é contemporâneo de coisas como “All you need is love” ou “San Francisco”. Está tão para lá das velhas fórmulas da música popular que é demasiado rico para se apreender todo o seu conteúdo e valor numa única audição.

Nico, uma vocalista alemã apresentada pomposamente como “chanteuse”, canta o doce I’ll be your mirror, o inebriante All tomorrow’s parties e o conhecidíssimo Femme Fatale. Uma voz profunda, grave, quase intemporal, interpreta os temas mais calmos do disco, mas nem por isso menos imprevisíveis. Lou Reed é o responsável pelos restantes temas cantados. No domínio dos estupefacientes destacam-se I’m waiting for the man, sobre a ansiedade de um drogado à espera do passador, e Heroin, um relato musicalmente hipnótico sobre a utilização da droga. A infame Venus in furs é sobre cabedal e sado-masoquismo e Black angel’s death song sobre ocultismo. A obra termina com o estranhíssimo European Son, uma hino psicadélico com um registo próximo dos 8 minutos.

A banda quebra todas as barreiras temáticas (drogas, homossexualidade, travestismo, sado-masoquismo) e faz com os instrumentos coisas que nunca ninguém se tinha atrevido a fazer. A viola-d’arco de John Cale é tocada de forma distorcida, hipnótica e, por vezes, a aproximar-se da cacofonia. Aparece aqui a primeira utilização sistemática de drones no domínio da música rock. A capa é da autoria de Andy Warhol, que acumula a responsabilidade da produção do disco.

sexta-feira, março 30, 2007

1. Disintegration (1989) - The Cure

Este é o primeiro de vinte posts sobre os discos da minha vida. Iniciei a publicação de alguns destes textos no Angústias de um Professor, mas nunca cheguei a termina-la por falta de tempo e vontade. Renovo agora a intenção de escrever sobre os 20 discos de música pop/rock/alternativa que mais me marcaram e que melhor representam a minha extensa colecção. A ordem de publicação dos posts é arbitrária, mas os posts encontram-se numerados para facilitar a organização. Sempre que possível incluirei música a acompanhar o post.
Desde a longa entrada instrumental de Plain Song que se percebia que Disintegration (1989) dos The Cure não ia ser um disco igual aos outros. Inebriante, hipnótica e orquestral, a música em Disintegration é única e o culminar apoteótico de uma década cheia de equívocos e contrastes na música pop-rock - a década de oitenta.
Um belo dia, tinha eu 18 anos, ouvi este disco pela primeira vez. Robert Smith canta o Amor na sua vertente mais triste: a saudade, o arrependimento, a depressão, o amor não correspondido, o ciúme e o sentimento de posse. Muito pouco é optimismo em Disintegration e, no entanto... tem tanto para oferecer. Nunca mais fui o mesmo. A minha inocência sofreu um rude golpe, perante o realismo da separação, do sofrimento, do abandono e da solidão revelados pela poesia de Robert Smith.
Musicalmente, a utilização dos teclados é subtil, de modo a criar uma atmosfera melancólica, um textura densa, quase irrespirável. A música vale como um todo, sem espaço para demonstrações de virtuosismo individual dos elementos da banda, o que constitui um ponto forte deste álbum, e faz com que as letras extremamente pessoais e, paradoxalmente, universais, sejam realçadas na voz melancólica, agastada, revoltada, de Robert Smith.
São mais de 70 minutos de música, incluindo dois verdadeiros épicos (The Same Deep Water As You Are e Disintegration, tema-título). Embora o álbum tenha ficado conhecido pelos seus temas mais comerciais (Pictures of You, Lullaby e Love Song), as verdadeiras pérolas são Plain Song, Closedown, Prayers For Rain e o já referido Disintegration.
Não há muitos discos que ainda coloco no leitor de cds com o mesmo prazer que colocava nas primeiras audições. Disintegration é um deles. Há momentos importantes da minha vida vividos ao som destas músicas e que são delas inseparáveis. Tal só foi possível devido a uma coincidência espantosa de música, letra e vida. Disintegration é vida! A separação cantada de uma maneira dolorosa, como quase todas as separações o são.
Closedown
"I'm running out of time
I'm out of step and
Closing down and
Never sleep for wanting hours
The empty hours of greed
And uselessly
Always the need
To feel again the real belief
Of something more than mockery
If only I could
Fill my heart with love"
Publiquei este texto originalmente aqui.

quinta-feira, março 29, 2007

Paternidade: a doce ironia do destino

O nome deste blog é Um Piano na Floresta. Não deixa de ser irónico que, a partir de hoje, a única actividade que falta para a minha realização como homem seja plantar uma árvore.

sábado, março 24, 2007

Repulsa (1965) by Roman Polanski

Este foi o filme do fim-de-semana. Um clássico de terror.

Londres. Anos 60. Polanski filma Deneuve. Os pesadelos da puritana Carol (Deneuve) conduzem-na à loucura, numa espiral de comportamentos e reacções cada vez mais bizarras e destituídas de sentido. Em última análise, a realidade imita o pesadelo e Carol acaba por sofrer o abuso dos homens que procura evitar fechando-se no seu apartamento e em si mesma.

O filme começa com aquelas pequenas manias. A escova de dentes de alguém no nosso copo enoja-nos, o toque de um estranho afecta-nos, um olhar mais penetrante incomoda-nos. Mas até as atitudes mais simples do dia-a-dia representam uma dose de loucura latente. Repulsa é sinistro desde o início, mas converte-se numa obra de puro medo à medida que Polanski distorce situações do quotidiano tornando-as aterradoras.

O filme é subliminar em muitos aspectos. A componente freudiana é dominante. Uma racha num passeio aparenta um púbis, a navalha aberta sugere um falo em erecção e até o mais estreito corredor sugere uma vagina. A forma como Polanski dirige é brilhante e invulgar. A câmara filma por trás dos actores, como se estes estivessem constantemente a serem perseguidos, sob ameaça e alvo de voyeurismo, um tema dominante na obra do realizador.

terça-feira, março 13, 2007

Little Annie em Serralves: impressões


Na sua última incarnação, Little Annie apresentou-se ao vivo no Auditório do Museu de Serralves no Porto acompanhada por Paul Wallfisch ao piano. Se a presença em palco e a interacção com o público são pouco convencionais, já os sentimentos presentes nas canções do seu último disco – Songs from the Coal Mine Canary – são extremamente familiares. Nas letras das canções, Little Annie descreve relações turbulentas, pessoas inconstantes e ambientes voláteis, minados pelo álcool e outras dependências físicas e psicológicas. Se os textos são intensamente autobiográficos, e temos todas as razões para pensar que o são, então o espectáculo de palco é uma espécie de catarse que liberta e alivia. A cantora atira-se ao chão, rebola-se, levanta-se e corre, tira os sapatos, elogia a suavidade do chão de madeira, volta a calçar os sapatos e queixa-se dos tacões; é uma montanha russa de emoções. O público vibra e aplaude entusiasticamente entre os temas, mas respeita cada interpretação com um silêncio quase religioso. Trata-se de uma lutadora que utiliza o humor mordaz e o sarcasmo para lidar com os reveses da existência. “This song was written a few husbands ago”, diz ela no início de um tema antigo.


Nos seus longos monólogos em palco, Little Annie explica o contexto em que nasceu o tema seguinte e o estado de alma que presidiu à sua criação. Esses monólogos, que com um público mais atrevido seriam diálogos, constituem um aspecto pouco convencional do espectáculo, e aproximam a intérprete da assistência numa comunhão intensa de sentimentos.

Os momentos altos do concerto foram os temas Good Ship Nasty Queen, Absynthtee-ism e Sit On Down. Destacaram-se ainda Strangelove (que é conhecida entre nós por ser “aquela música do novo anúncio da Levis”) e as excelentes versões de “Private Dancer” (Tina Turner), “I Still Haven’t Found What I’m Looking For” (U2) e “If You Go Away” (Jacques Brel/Scott Walker). Noventa minutos após o início, o concerto termina, mas Little Annie já deixa saudades...

sexta-feira, março 02, 2007

Annie Anxiety em Serralves

Hoje à noite, a Diva apresenta ao vivo em Serralves o seu mais recente Songs from a Coal Mine Canary. Um concerto que se espera seja memorável.

quarta-feira, fevereiro 07, 2007

A Sul de Nenhum Norte

Uma palavra: Bukowski. A primeira vez que se lê é surpreendente, quase chocante. O estilo é fácil, directo e rude. Vou mais longe: é como ler Henri Miller sem aquele sexo todo ou uma versão literária de Feios, Porcos e Maus de Ettore Scola. Dir-se-ia que Charles Bukowski passou demasiado tempo da sua vida a limpar latrinas e a sua obra é parte dos escritos das portas de casa de banho. Mas tal seria injusto, dada a capacidade para descrever, de forma visceral, a vida decadente, a dependência alcoólica e a ausência de valores que atravessam toda a sua obra.

O meu primeiro contacto com Charles Bukowski foi com Correios (Post Office, 1971), no original). Nenhuma obra literária fez mais para arruinar a reputação dos carteiros na América como este pedaço de literatura da sarjeta. Bukowski sublinha todos os preconceitos que temos a respeito dos carteiros: o ódio mortal entre esta classe profissional e a raça canina, a tendência para saltarem para a cama de donas de casa carentes, o desrespeito pela autoridade dos superiores e o tratamento desprezível prestado aos utentes. Tudo isto aparece descrito de forma extremamente colorida nesta novela de ler e chorar por mais. Confesso que, inicialmente, ainda senti alguma piedade pela pobreza moral do carteiro Henri Chinaski, mas todos os pruridos e simpatia desaparecem ao fim de meia centena de páginas de acontecimentos delirantes e quase inenarráveis.

A segunda experiência foi com A Sul de Nenhum Norte (South of No North (1973), no original), mas foi mais recentemente, com Ham On Rye (desconheço se existe tradução portuguesa) que percebi que grande parte da obra de Bukowski gira em torno desse personagem com muito marginal e autobiográfico (Henri Chinaski). Contudo, nesta obra de 1982, o leitor sente alguma simpatia por Chinaski, quase sempre descrito como um pária, um adolescente desprezado socialmente que deseja viver como um eremita (cf. O episódio do gigantesco ataque de acne que dura quase um ano e o isola por completo dos colegas de liceu). Existem vários personagens desprezíveis nesta obra, mas por Chinaski sentimos alguma simpatia, pelo menos enquanto adolescente. Diria que Chinaski é uma espécie de Adrian Mole para adultos, com borbulhas e tudo. Todavia, a adolescência amarga desemboca num adulto alcoólico, beligerante e completamente à deriva.

quinta-feira, fevereiro 01, 2007

Death Valley National Park

Já aqui relatei vários momentos da viagem do Verão passado. Deixo-vos agora um ponto alto da viagem: a incursão na California atravessando o Death Valley National Park.
Na minha mente o local era cheio de mistério. Desde que vi pela primeira vez o filme Zabriskie Point de Michelangelo Antonioni que o Vale da Morte faz parte do meu imaginário. Um jovem revolucionário empenha-se até ao limite na contestação à guerra do Vietname, ignorando estrategicamente a incoerência de cometer um assassinato para levar a cabo os seus objectivos pacifistas. O filme tem uma fotografia muito bem conseguida e a música dos Pink Floyd, na sua era mais psicadélica, ajudou a torná-lo inesquecível.
Com alguma persuasão, lá consegui convencer a Ana a alinhar num desvio à nossa rota para uma experiência absolutamente original. Dizer que o Vale da Morte é um local inóspito é pouco, dada a temperatura sufocante (acima dos 45ºC) e a quase total ausência de humidade.
Badwater Basin (226 pés, ou 85,5 metros, abaixo do nível do mar) arrasa com o optimismo de qualquer turista mais entusiasta e constituiu um dos pontos altos, passe a ironia, desta viagem. Sol escaldante, luz natural ofuscante, inexistência de sombra, quase total ausência de água e uma proporção gigantesca de sal tornam o ponto mais baixo do Continente Americano um dos lugares mais desoladores à face da Terra. A abundância de sal gera igualmente inúmeras miragens, convencendo o nosso cérebro da presença de água onde nenhuma existe. O oásis da fotografia seguinte é que não é uma miragem. Trata-se de um hotel de cinco estrelas em Furnace Creek, a sede do Parque Nacional do Vale da Morte e provavelmente o único local do parque em que podemos encontrar algum conforto e alívio da fornalha no exterior.


No Vale da Morte encontramos ainda este local sui generis: o campo de Golfe do Diabo. O sal cristalizado depositado e talhado pelo vento e pela chuva fornece à paisagem este aspecto rugoso em constante alteração. Como nos alterta o aviso: Cuidado! Caminhar no Campo de Golfe do Diabo é muito difícil. Uma queda pode resultar em cortes dolorosos e até em ossos partidos.






sexta-feira, janeiro 12, 2007

Aparelho Voador a Baixa Altitude

Sou orgulhoso proprietário de uma dúzia de livros de James G. Ballard. Estranhamente, tudo começou com Crash, essa novela auto-erótica que David Cronenberg adaptou ao cinema há mais de uma década. Fiquei tão impressionado com o filme, que decidi ir ler o livro, de 1972. A palavra choque não é suficiente para descrever o conteúdo do romance, que articula sexo, tecnologia e parafilias diversas numa mistura explosiva e francamente vanguardista para a época. (Comparado com Crash, “O Último Tango em Paris”, o suposto filme-choque de 1972, é uma fantasia para crianças.) Mas os méritos de Ballard não se esgotam em Crash; na verdade, a capacidade do autor para despertar a imaginação e fazê-la voar é bem mais evidente em obras como O Mundo de Cristal, Olá América ou Running Wild (não editado em português). Os mais recentes e conhecidos em Portugal – Noites de Cocaína e Gente do Milénio – acabam por ser, em minha opinião, obras menores de um autor que também publicou curtos contos de ficção científica com algum impacto literário.

Nesta última categoria encontra-se o último livro de Ballard que li – Aparelho Voador a Baixa Altitude (1976) – centrado no tema da aeronáutica e no qual Ballard explora, uma vez mais, o seu talento inigualável para pintar paisagens futuristas, praticamente desprovidas de seres humanos, mas com a maioria das infra-estruturas e equipamentos que a civilização construiu ao longo do século XX a permanecerem intactos. Os poucos seres humanos deambulam nestes cenários surreais à procura de um sentido para a sua existência, e, invariavelmente, encontram-no em actividades relacionadas com um dos mais antigos sonhos da humanidade: voar.

terça-feira, janeiro 09, 2007

Um povo, duas mentalidades

Saído de Alcântara, um grupo de indivíduos ciente das suas capacidades, e com um espírito assente no esforço, organização e disciplina foi dar uma lição de vontade e ambição ao Estádio do Dragão. Não houve grande alarido antes do jogo. Ninguém falou do Atlético Clube de Portugal (actualmente 4º classificado da Série D da 2ªDivisão B), um clube com alguma tradição de Primeira Divisão e que havia eliminado o Futebol Clube do Porto na longínqua época de 1945/46, no tempo da “bola quadrada”. No final do jogo de ontem, a história repetiu-se, e as declarações serenas de jogadores, treinador e presidente do clube foram simplesmente admiráveis: conscientes do dever cumprido, mas sem assumirem qualquer estatuto heróico bacoco.

Da Bairrada, mais concretamente de Oliveira do Bairro (actual 4º classificado da Série C da 2ªDivisão B), saiu um grupo de anjinhos, confessos adeptos do Benfica, que levaram a máquina fotográfica digital ao Estádio da Luz e, segundo um dos seus membros confessou frente às câmaras de televisão, “encheu o cartão e conseguiu uma camisola do Petit”. Estes parolos representam o pior do povo português: provincianismo, falta de ambição e disciplina, deslumbramento, espírito “deixa andar” e uma total subserviência perante os adversários.

Conclusão:
1. O Atlético Clube de Portugal escreveu mais uma brilhante página na sua história e, daqui por mais 60 anos, quando o destino (e o sorteio da Taça de Portugal) ditar novo confronto com o Futebol Clube do Porto, o feito da equipa de 2007 há-de ser recordado e os seus atletas alvo de homenagem.
2. Os pategos de Oliveira do Bairro têm uma camisola do Petit lá em casa para mostrar aos amigos, mas a história do futebol não guardará nem uma nota de rodapé para a copiosa derrota por 5 a 0 frente ao Sport Lisboa e Benfica.

sexta-feira, dezembro 22, 2006

Os Melhores de 2006

Aqui fica a minha lista dos melhores do ano de 2006. Junto aos melhores temas de cada álbum, deixo links para o You Tube para quem desejar conhecer o género musical. Este post deu um trabalhão a fazer, por isso... aproveitem! Feliz Ano de 2007!

1. Black Ships Ate the Sky – Current 93


Nem sempre quantidade é sinónimo de qualidade, mas aqui estão os melhores 75 minutos do ano de 2006. David Tibet: poeta, compositor, pregador, génio visionário por trás dessa jangada de criatividade chamada Current 93 convidou um grupo numeroso de amigos para trabalhar consigo nesta obra, que resulta de um sonho intenso preconizando o apocalipse e a segunda vinda de Cristo à terra. Dito assim parece pretensioso, mas vejam os nomes que gravitam em torno de Tibet: Marc Almond, Antony, Bonnie ‘Prince’ Billy, Ben Chasny, Shirley Collins, Baby Dee, Michael Cashmore, Pantaleimon, Clodagh Simonds, entre muitos outros. Há vários momentos brilhantes ao longo deste disco, dominado pela guitarra acústica e pela poesia de Tibet, e que pode ser inserido na categoria fluida do folk alternativo. Destacam-se as oito (!) versões da mesma canção – Idumaea – cantadas por oito dos nomes mencionados, mas que são totalmente distintas entre si, convencendo-nos de que se tratam de temas efectivamente diferentes. As palavras que aqui escrevo não fazem justiça à dimensão da obra, quer às nuances musicais, quer à riqueza poética. Depois de uma carreira com mais de 30 discos originais, repleta de obras-primas, como Thunder Perfect Mind, All the Pretty Little Horses ou Sleep Has His House, os Current 93 lançam mais um disco genial, que desafia qualificação, e complica ainda mais a tarefa de determinar qual o melhor momento da carreira da banda.

Melhores frases: “Soon as from earth I go / What will become of me? / Eternal happiness or woe / Must then my fortune be / Waked by the trumpet’s sound / I from my grave shall rise / And see the Judge with glory crowned / And see the flaming skies

Melhores temas: Sunset (The Death of Thumbelina), Idumaea (versão acapella de Antony), Idumaea (versão Baby Dee) (http://www.youtube.com/watch?v=0XOz9CtFy0s) e Black Ships Were Sinking Into Idumaea.

Editora: Durtro Jnana 2112CD

2. Songs from the Coal Mine Canary – Little Annie

Conheci Little Annie Anxiety pelas suas colaborações com David Tibet e os seus Current 93, mas desde cedo percebi que a sua voz estava talhada para momentos memoráveis. Songs from the Coal Mine Canary é uma viagem autobiográfica pela decadência física, psíquica e moral das quais só o Amor pode libertar. A voz abagaçada de Little Annie é acompanhada pelo som do piano e de cordas com melodias suaves, passando pelos blues, pelo jazz e pelo cabaret. A colaboração de Antony ao nível da composição é extraordinária e transforma este disco numa magnífica surpresa de 2006.

Melhores frases: “You can’t sing the blues while drinking milk”; “I have cruised my way down sex street / With the gorgeous and the vain / And I freshened up my makeup / On the boulevard of pain”

Melhores temas: The Good Ship Nasty Queen, Absynthtee-ism e Sit On Down. Annie canta igualmente The Rapture (http://www.youtube.com/watch?v=lio239PqdRk), de Antony & The Johnsons.

Editora: Durtro Jnana 1967CD

3. In the Maybe World – Lisa Germano

Ao fim de meia dúzia de cds a solo, Lisa Germano tem aqui um momento alto na sua carreira. A mudança de editora parece ter resultado em pleno. Na independente 4AD Lisa era uma estrela menor, ao passo que na pequena Young God Records de Michael Gira (ex-Swans) é o maior nome da casa. O piano domina a sonoridade de todo o disco, ainda que, por vezes, as melodias afectuosas sejam acompanhadas pela guitarra de Johnny Marr (ex-Smiths) e pelo baixo de Sebastian Steinberg. Uma das facetas que mais aprecio em Lisa Germano é a sua capacidade para cantar músicas sobre temas perturbadores com a maior candura do mundo. O contraste entre a dureza das letras e a beleza da voz e da música encontra aqui a sua máxima expressão.

Melhores frases: “Narcissistic little fairy / Why do I feel dead / Who was that stupid ogre / Messing with my head”

Melhores temas: Too Much Space (http://www.youtube.com/watch?v=9PSR72--GI8), Into Oblivion e In the Land of Fairies.

Editora: Young God Records CD YG 32

4. Live at Town Hall – Eels (Live with Strings)

Este é o melhor cd ao vivo do ano de 2006. Depois de seis álbuns de originais, Mark Oliver Everett, génio criativo e líder da banda The Eels recria um conjunto de 22 temas com a ajuda de uma secção de cordas e uma capacidade de improviso assinalável. O que mais me toca na música da banda é a voz carregada de sentimento de Everett, que nos transmite todas as emoções associadas aos temas, maioritariamente autobiográficos, que compõem a carreira dos Eels. A versão de Flyswatter, um tema originalmente gravado para o trabalho Daisies of the Galaxy, é surpreendente, com influências da música concreta contemporânea. A forma como este tema desagua no hit Novocaine for the Soul é também notável, tornando este álbum um verdadeiro must!

Melhores frases: It’s a motherfucker / Being here without you; Have you ever made love to a beautiful girl / made you feel like it’s not such a bad world / hey man now you’re really living

Melhores temas: Flyswatter, Bus Stop Boxer (http://www.youtube.com/watch?v=xVTI1IozwtA) e I'm Going To Stop Pretending That I Didn't Break Your Heart.

Editora: Vagrant Records

5. Let’s Get Out of This Country – Camera Obscura

Em 1984, Lloyd Cole escreveu uma canção com o presunçoso título Are You Ready to Be Heartbroken?. Em 2006, Tracyanne Campbell responde com “Lloyd, I’m ready to be heartbroken / I can’t see further than my own nose at the moment”. Esta singela pérola de humor entre escoceses inicia o melhor cd de música pop de 2006. A frescura da música, a beleza arrebatadora da secção de cordas e a voz inocente de Tracyanne Campbell conjugam-se para produzir a obra mais “comercial” desta listagem. A popularidade dos Camera Obscura começa a atingir proporções interessantes, ameaçando destronar o estatuto de culto dos Belle and Sebastian.

Melhores frases: “Let’s get out of this country / I’ll admit I am bored with me / I drowned my sorrows and slept around / When not in body at least in mind”

Melhores temas: Lloyd, I´m Ready to Be Heartbroken (http://www.youtube.com/watch?v=XTa_RQC8ZxA), Come Back Margaret e Let’s Get Out of This Country (http://www.youtube.com/watch?v=3t4xldu9fXQ).

Editora: Elefant ER-1123 CD

6. The Drift – Scott Walker

Numa outra incarnação, Scott Walker foi estrela pop nos anos 60, liderando os Walker Brothers e enfrentando uma legião de fãs histéricas à la Beatles. Nos anos 70 prosseguiu uma carreira a solo preenchida por versões de temas de Jacques Brel cantadas em inglês e por excelente música da sua autoria enquanto cantor-compositor. Em meados dos anos 70, a qualidade da sua música degradou-se e Scott Walker desapareceu enquanto músico criativo. Depois disso, apenas dois álbuns se destacam: Tilt (1995) e The Drift (2006). The Drift é um disco estranhíssimo, assente na voz sinistra, quase apocalíptica, de Walker, na instrumentação errática e nos efeitos sonoros caricatos (homens a descer escadas, burros a zurrar, crianças a gritar, entre outros). É uma obra difícil de ouvir de princípio a fim, mas aqueles que o conseguem são recompensados pela sensação de ouvirem algo verdadeiramente original e criativo.

Melhores frases: “Has absence ever sounded so eloquent so sad I doubt it?” “Polish the fork and stick the fork in him”; “I’ll punch a donkey in the streets of Galway!” “A chilling exploration of erotic consumption”

Melhores temas: Jesse (http://www.youtube.com/watch?v=GYyOkQUyJZM), Cue e Buzzers.

Editora: 4AD, cad 2603 cd

7. He Poos Clouds – Final Fantasy

Este é o disco mais elitista do ano. A última vez que ouvi uma fusão quase perfeita entre a música de câmara e o rock foi no “velhinho” cd dos Rasputina “How We Quit the Forest” (1998), no qual um trio de violoncelistas demolia todos os preconceitos sobre a utilização deste instrumento na música rock. Essa sensação de choque e surpresa voltou com o primeiro disco dos Final Fantasy. Owen Pallett, membro dos conhecidíssimos Arcade Fire e líder dos Final Fantasy é um génio: cria as letras, compõe as músicas e faz os arranjos para o quarteto de cordas que o acompanha na maioria dos temas. No meio de inúmeras pérolas poéticas, destaca-se esta: “A taut wire, her father’s evil empire / Jenna dreams of being physically able / To behead herself at the dinning room table”. Owen Pallett é a juventude inquieta pela força da caneta.

Melhores frases: “Now his massive genitals refuse to co-operate / And no amount of therapy can hope to save his marriage”

Melhores temas: This Lamb Sells Condos (http://www.youtube.com/watch?v=U1kL568eg1w), I’m Afraid of Japan e The Pooka Sings

Editora: Tomlab 69 cd

8. Nisht Azoy – Black Ox Orkestar



Oriundos de Montreal, Canadá, os Black Ox Orkestar são um colectivo de músicos fortemente influenciado pelas tradições das canções folk judaicas. Todo o trabalho é dominado pelos instrumentais, entrecortados por algumas porções cantadas em hebraico, com as respectivas traduções em inglês e francês disponíveis num folheto que acompanha o cd. Em alguns temas, os ritmos endiabrados do trompete e da percussão transportam-nos para os cenários delirantes dos filmes de Kusturica. O mercado discográfico dominado pelas multinacionais dificulta a divulgação generalizada de música que mistura a tradição com a vanguarda, como é o caso dos Black Ox Orkestar. Os exemplares à venda em Portugal são escassos, pelo que o download ilegal será a solução da maioria dos leitores que se quiseram aventurar nestas sonoridades exóticas da Europa de Leste/Médio Oriente.

Melhores temas: Ratsekr Grec, Tsvey Taybelakh e Dobriden.

Editora: Constellation Records CST038

9. Evangelista – Carla Bozulich


Ok. Carla Bozulich não é exactamente uma Diamanda Galas, mas aproxima-se de uma P.J. Harvey muito zangada. Evangelista é uma estreia absolutamente surpreendente. Nunca tinha ouvido falar desta mulher até ter ouvido Evangelista I, o primeiro tema do disco. Posso garantir que fiquei arrepiado de medo. Sim, puro e não adulterado medo! A entrada deste cd é um tema com mais de 9 minutos em que Bozulich grita furiosamente as letras do tema por meio de samples, loops e uma secção de cordas composta por violino, viola, violoncelo e contrabaixo tocados de forma muito pouco ortodoxa. A acrescentar a toda esta cacofonia alucinante há ainda um discurso do Elder Otis Jones, pregando no distante ano de 1936. As coisas acalmam bastante depois deste início fulgurante, mas por esta altura já Carla Bozulich tinha ganho entrada directa para a tabela dos 10 melhores do ano. Steal Away é uma ode pungente e How to Survive Being Hit by Lightning um clássico instantâneo. Curiosamente, o cd termina com uma versão muito mais soft do primeiro tema.

Melhores temas: Evangelista I, Steal Away, How to Survive Being Hit By Lightning e Pissing (http://www.youtube.com/watch?v=TCuVmV5RWEU.

Editora: Constellation Records CST041

10. Fear is On Our Side – I Love You But I’ve Chosen Darkness

Pegue-se em duas ou três boas colheitas de pop-rock britânico dos anos 80 – The Chameleons, The Sound e Echo & The Bunnymen – junte-se uns pózinhos de Interpol e uma capa de cd enigmática, e temos os I Love You But I’ve Chosen Darkness. Os sons desta banda de nome enigmático fazem lembrar as velhas cidades inglesas debilitadas pela industrialização, mas a sua proveniência é a cidade de Austin, conhecida pela cultura musical alternativa alimentada pela Universidade do Texas.

Melhores temas: The Ghost, According to Plan (http://www.youtube.com/watch?v=tw1T9sQ5gBU) e Today
Editora: Secretly Canadian SC123


quinta-feira, dezembro 21, 2006

Os Piores e os Assim-Assim de 2006

Antes da lista final dos 10 melhores cds de 2006, deixo-vos com "os outros"; aqueles cds que comprei, mas que estão longe de satisfazer ouvidos mais exigentes. Esta lista inclui:

1. As desilusões: aqueles artistas que fizeram obras de grande qualidade no passado, mas que enveredaram pelo caminho do facilitismo e/ou sucesso fácil, produzindo trabalhos abaixo ou, nalguns casos, francamente abaixo do nível anterior.
Os Mojave 3 já fizeram música pop-rock quase perfeita, mas Puzzles Like You é um disco acomodado e desinspirado. É a primeira obra medíocre de Rachel Goswell, Neil Halstead e Ian McCutcheon, e não posso deixar de sentir saudades dos primeiros dois trabalhos dos Mojave 3 ou dos fabulosos Slowdive.
Os Lambchop são um caso mais preocupante. A banda tem um passado de excelência, mas uma certa obsolescência começou a instalar-se desde o anterior AwCmon/NoyouCmon. O título do último - Damaged - é uma estranha premonição do fim da carreira da banda de Kurt Wagner.
Quanto a Peter Murphy, depois de ter dividido crítica e fans com o anterior Dust (que pessoalmente considero fabuloso), apresenta agora uma obra menor e que, felizmente, quase passou despercebida. Depois de uma obra demasiado centrada num rock desinspirado, já não sei o que posso esperar da próxima...

a. Puzzles Like You - Mojave 3
















b. Damaged - Lambchop












c. Unshattered - Peter Murphy













2. Os assim-assim: cds que têm qualidade, mas não a suficiente para aceder ao top 10. Depois de assinar em 2005 um cd a rondar a perfeição, era difícil pedir algo melhor feito com extras e versões desse tempo passado em estúdio. The Avalanche é, apesar disso, um bom trabalho e que demonstra que, mesmo nos restos, Sufjan é brilhante.
Os Legendary Pink Dots têm mais de 20 anos de carreira e, quando assim é, a novidade começa a ser escassa. No entanto, os LPD são representantes de um estilo musical invulgar, que mistura sons electrónicos alternativos com letras que descrevem cenários fantásticos e "do outro mundo". É um disco difícil, mas os LPD nunca foram uma banda fácil...
Enquanto cantor-compositor, Josh Rouse segue a linha do melhor da velha guarda (de Joni Mitchell a Leonard Cohen) e Subtítulo demonstra que Rouse continua em forma. As suaves melodias, a instrumentação delicada e as letras que cantam o amor e as suas angústias permanecem no ouvido e garantem a audição continuada sem enfado.
Isobel Campbell (dos Belle and Sebastian) e Mark Lanegan (dos Screaming Trees) formaram uma invulgar parceria musical, a fazer lembrar os duetos dos anos 60 de Lee Hazlewood com Nancy Sinatra. Qualquer coisa entre o cowboy saloon e o bordel, entre a voz delicodoce de Isobel e a voz rouca e carregada de whiskey de Mark. Se houvesse um décimo primeiro classificado...
Em Montréal vive a mais inspirada geração de músicos do chamado pós-rock. Eric Chenaux faz parte desse colectivo alternativo e apresenta aqui um cd de estreia a prometer muito. Temas desconcertantes, adornados com violino e banjo (!), para além dos tradicionais, numa banda que estende as sonoridades da editora Constellation Records para novas paragens.
Por último, Jessica Bailiff editou Feels Like Home, que mantém a linha já demonstrada nos dois trabalhos anteriores. Muito centrado na voz e guitarra eléctrica, este disco tem o mérito de ser curto, directo e simples, evitando arranjos excessivos que prejudicariam a mensagem da autora. Uma carreira para continuar a acompanhar na editora Kranky Records de Chicago.

a. The Avalanche - Sufjan Stevens












b. Your Children Placate You From Premature Graves - Legendary Pink Dots













c. Subtítulo - Josh Rouse














d. Ballad of the Broken Seas - Isobel Campbell & Mark Lanegan












e. Dull Lights - Eric Chenaux















f. Feels Like Home - Jessica Bailiff




quinta-feira, dezembro 14, 2006

Qual o melhor cd de 2006?

2006 foi um ano de colheita musical excelente. A 15 dias do final do ano está aberta a caça ao melhor cd de 2006. Sugestões aguardam-se. A lista do Piano estará disponível até ao dia de Natal.

quarta-feira, dezembro 13, 2006

35 Anos às 12h40m

Completo hoje 35 anos de existência. Como é tradição cá no blog, deixo-vos com uma fotografia minha durante 24 horas. Espero que gostem desta "rica prenda"...

terça-feira, dezembro 12, 2006

Las Vegas

(Excalibur by night)

Não sendo um dos hotéis da moda, como o Bellagio, o Excalibur apresenta preços convidativos para a qualidade de serviço prestado. Quem vem a Las Vegas sem uma mentalização prévia apanha o choque da sua vida. A cidade é inebriante, louca, luminosa e alucinante. Os hotéis variam entre o imponente e o kitsch, o grandioso e o decadente, mas há uma magia no ar que torna a cidade, e as suas quase 200.000 camas para turistas, uma atracção irresistível para os viajantes mais cosmopolitas.
(Show de luz e som do Hotel Bellagio)

Longe vão os tempos em que o Flamingo, o Tropicana, o Riviera e o Frontier dominavam a paisagem de Las Vegas. Estes velhos hotéis, bonitos à sua maneira, aparecem agora diluídos na paisagem urbana, absorvidos pela megalomania do MGM Grand (um hotel com 5000 quartos!!!), Bellagio, New York, New York, Mandalay Bay ou Luxor.
(Las Vegas Boulevard)

Os vapores da cafeína do Starbucks em pleno Las Vegas Boulevard afectam-me, o Monte Carlo em frente causa-me inveja e a ostentação do Bellagio, com a boutique Armani no seu interior, recorda-me que não sou o José Mourinho e um sobretudo Armani, com 40 graus de temperatura lá fora, não vem nada a calhar.
(Um piano no Starbucks)