segunda-feira, agosto 11, 2008

Destino: Férias

Roubado aqui

Ao contrário do que possa parecer ultimamente, este blogue também é dedicado a viagens. Com a chegada das férias foi necessário escolher o destino. Desta vez, inspirado em Vitorino Nemésio, o Piano adoptou o lema Vá para fora cá dentro, infinitamente superior ao Allgarve:

"Como homens, estamos soldados historicamente ao povo de onde viemos e enraizados pelo habitat a uns montes de lava que soltam da própria entranha uma substância que nos penetra. (...) A geografia, para nós, vale outro tanto como a história."

"Meio milénio de existência sobre tufos vulcânico, por baixo de nuvens que são asas e de bicharocos que são nuvens, é já uma carga respeitável de Tempo."

Vitorino Nemésio

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sábado, agosto 09, 2008

1976. Sinfonia Nº 3, Op. 36 - Henryk Górecki

Por esta altura, o leitor de blogues, mais rápido no gatilho do que a sua própria sombra, já fechou este blog. Ainda assim, para aqueles que ficaram, é devida uma explicação. São duzentas entradas sobre música ao longo de duzentos anos, pelo que em algum momento teríamos de começar a falar de "música clássica" ou, mais apropriadamente designada, música erudita.

Como explicar o que se sente ao ouvir a Sinfonia nº3, composta em 1976 pelo polaco Henryk Górecki? Uma tristeza infinita. Em linguagem popular, é uma obra capaz de fazer chorar as pedras da calçada e, talvez por isso, não seja adequada a todos os momentos. É preciso uma disposição especial, uma alma triste, para apreciar na plenitude esta peça.

O minimalismo harmónico que caracteriza toda a obra cria uma sensação de angústia sufocante, ampliada pela densidade na utilização de cordas e uma soprano única. No terceiro andamento, em particular entre os 9 e os 14 minutos, a repetição do mesmo tema, minuto após minuto, é uma experiência hipnótica inolvidável, colocando o ouvinte perante uma melodia semelhante a um loop interminável. (Nota: Para os conhecedores da obra de Current 93, Sleep Has His House, igualmente elegíaca e dedicada ao falecido pai de David Tibet tem uma estrutura semelhante.)

A sonoridade é fúnebre do início ao fim, ajustada aos poemas que constituem a secção lírica da obra. O primeiro andamento demora uns longos 28 minutos e inicia-se com um cânone para cordas em crescendo de intensidade. Por volta dos 13 minutos entra uma canção de lamento inspirada num poema polaco do século XV em que Maria, mãe de Jesus, expressa a sua angústia perante o filho às portas da morte e implora-lhe que partilhe com ela a sua dor. Após o final do poema lírico, o cânone para cordas regressa, desta vez decrescendo em intensidade até terminar numa única linha melódica igual à inicial.

O segundo andamento tem um registo Lento e Largo, soando ligeiramente menos fúnebre, embora o poema seja igualmente trágico. Trata-se de uma oração inscrita na parede de uma cela no quartel general da Gestapo na cidade de Zakopane (Polónia) por uma prisioneira polaca de 18 anos que solicita a protecção da Mãe do Céu. O poema do terceiro andamento retrata uma mãe que aguarda o regresso do seu filho da guerra. A mãe pressente que o filho morreu, mas a ausência do corpo agrava a sua angústia, temendo que o filho não descanse em paz.

Talvez seja surpreendente para os leitores, mas esta sinfonia é um best-seller, tendo vendido mais de um milhão de cópias e tornando-se uma das obras mais populares de um compositor do século XX. Apesar da tendência para interpretar o seu significado como ligado ao cristianismo ou para utilizar a sinfonia como homenagem às vítimas do Holocausto, o próprio Gorécki rejeitou estas interpretações mais restritas da obra, insistindo que se trata simplesmente de uma "sinfonia de canções tristes ou de lamentos" (subtítulo da obra: Symphony of Sorrowful Songs).



Referências:
Symphony Nº3, Op. 36 (Symphony of Sorrowful Songs)
Zofia Kilanowicz (Soprano); Polish National Radio Symphony Orchestra (Katowice); Antoni Wit (Director de Orquestra) Ed. Naxos 8.550822


http://en.wikipedia.org/wiki/Symphony_No._3_(G%C3%B3recki)

Projecto 200 anos de música. A ideia é simples. Ao longo de duzentas entradas, o Piano na Floresta vai listar duzentas obras musicais, uma por cada ano, iniciando a contagem decrescente a partir do ano 2000. Se tudo correr conforme planeado, será possível identificar um disco ou uma obra composta em cada um dos anos no intervalo entre o ano 1800 e o ano 2000. Não há limitações de género musical. A qualidade e a reputação da obra não constituem critério de escolha, embora se entenda que ela é, de algum modo, representativa do ano em questão.

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quarta-feira, agosto 06, 2008

1977. Low - David Bowie

David Bowie é conhecido pelo "camaleão" da música pop-rock, devido à sua capacidade para se reinventar tanto a nível musical como em termos de imagem. Uma dessas reinvenções, aquela que foi, na minha opinião, a mais marcante, ocorreu com Low gravado e editado em 1977. No ano anterior, Bowie havia lançado Station To Station, um álbum que indiciava uma crise de inspiração e fazia temer pela qualidade do seu sucessor.

Depois de muitas obras de música popular marcantes na década de 60 e no início da década de 70, em meados da década, a imagem começava a sobrepor-se à música. Com o disco e com o punk em extremos opostos, era mais importante a maneira como os músicos vestiam do que a música que faziam. Bowie fez precisamente o percurso inverso. Com uma imagem muito mais sóbria, a música toma aqui a "boca de cena".

Low é igualmente marcante pelas influências que vai gerar. Os Joy Division serão a face mais visível dessa influência, mas muitas outras bandas de finais de 70 e início de 80 utilizam os sintetizadores de uma forma semelhante. O disco alterna instrumentais com temas minimalmente cantados, o que representa uma novidade radical do próprio Bowie. Os temas mais relevantes são Sound and Vision (por ser o 'hit' do álbum), Always Crashing In The Same Car, A New Career In A New Town e Warszawa.

Bowie deslocou-se a Berlim para gravar este disco, tal como viria acontecer com os dois seguintes (Heroes e Lodger). O optimismo e os exageros musicais do início dos anos 70 dão aqui lugar a um disco revolucionariamente sóbrio. A electrónica exagerada do rock progressivo, que Bowie sempre rejeitou, é substituída por uma utilização sóbria, mas eficaz, dos sintetizadores, que valorizam a criação de ambientes e paisagens sonoras de uma beleza sem precedentes.

Sound and Vision ao vivo aqui: http://www.youtube.com/watch?v=GYEOlxcirX0

Esta crónica foi publicada originalmente na Rede 2020.

Projecto 200 anos de música. A ideia é simples. Ao longo de duzentas entradas, o Piano na Floresta vai listar duzentas obras musicais, uma por cada ano, iniciando a contagem decrescente a partir do ano 2000. Se tudo correr conforme planeado, será possível identificar um disco ou uma obra composta em cada um dos anos no intervalo entre o ano 1800 e o ano 2000. Não há limitações de género musical. A qualidade e a reputação da obra não constituem critério de escolha, embora se entenda que ela é, de algum modo, representativa do ano em questão.

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segunda-feira, agosto 04, 2008

1978. Real Life - Magazine

O disco estava no auge. É o ano em que os Boney M. lançam alguns dos seus vómitos mais famosos (Rivers of Babylon e Rasputin), Rod Stewart tem delírios em Do Ya Think I'm Sexy e os Village People editam o medonho YMCA. Nesta conjuntura altamente adversa à música, é difícil encontrar alguma coisa de jeito. Aliás, 1978 arrisca-se a ficar para a história como o pior ano de sempre em termos musicais. As poucas excepções são a estreia de Siouxsie and the Banshees com o álbum The Scream, o segundo álbum dos Japan de David Sylvian (Obscure Alternatives), The Man Machine dos Kraftwerk, e o absolutamente contra-corrente Sultans of Swing dos Dire Straits. Tirando estes momentos de brilhantismo, cada um no seu género, o resto é tudo muito, muito mau.

A minha escolha para ilustrar o ano de 1978 não é, pelas razões apontadas, do conhecimento geral. Os Magazine são a banda de Howard DeVoto (ex-Buzzcocks) e Barry Adamson (que viria a trabalhar com Nick Cave nos Bad Seeds) e praticavam uma mistura de punk-rock-new wave, se é que tal coisa alguma vez existiu. A electrónica está presente em doses saudáveis, mas não desfoca o que é central numa banda de rock. A estrutura dominante continua a ser a ligação baixo-bateria-guitarra eléctrica e as canções são directas e sem gordura. Os Magazine ainda são uma banda punk na atitude, mas já são new wave na expressão melódica.

Não alheios ao contexto da época, os Magazine editaram Shot By Both Sides como single, um tema muito marcadamente "punk", mas o legado de Real Life encontra-se mais na semente de mudança que lança do que propriamente no seu destaque no contexto da época. O disco é composto por nove temas, dos quais se destacam Definitive Gaze, My Tulpa e The Light Pours Out of Me. Há ainda um piscar de olho a David Bowie em Burst, um teclado a imitar um cravo do século XVIII em Motorcade e uma valsinha diabólica, que bem podia ter sido escrita pelos Bauhaus, em The Great Beautician in the Sky.

Em resumo, Real Life não é um grande álbum, mas é um disco que ouço regularmente, o que, numa colecção de dois milhares, já não significa pouco! O You Tube é a porta para o passado e aí encontrei duas preciosidades:
1. The Great Beautician in the Sky
:

2. Definitive Gaze (numa versão adulteradíssima em relação ao original):


Projecto 200 anos de música. A ideia é simples. Ao longo de duzentas entradas, o Piano na Floresta vai listar duzentas obras musicais, uma por cada ano, iniciando a contagem decrescente a partir do ano 2000. Se tudo correr conforme planeado, será possível identificar um disco ou uma obra composta em cada um dos anos no intervalo entre o ano 1800 e o ano 2000. Não há limitações de género musical. A qualidade e a reputação da obra não constituem critério de escolha, embora se entenda que ela é, de algum modo, representativa do ano em questão.

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sexta-feira, agosto 01, 2008

1979. London Calling - The Clash

Certo dia, no meu 8º ano, entra na minha sala um colega com um triplo álbum em vinil. Um triplo álbum?! Mas que banda teria semelhante coragem? Era Sandinista!, dos sempre corajosos The Clash. Corajosos a cobrar o preço de um vinil simples pelos seus duplos e triplos álbuns. Corajosos a assumir que o punk tinha começado em 1976 e acabado em 1977 e que o melhor era evoluir.

Nas festas de garagem dos meus 18 anos, London Calling, Spanish Bombs, The Guns of Brixton e Train in Vain eram temas de passagem obrigatória, numa altura em que a adolescência procuram viver o dia-a-dia despreocupadamente e sem expectativas em relação ao futuro. Pop, rock, reggae e ska dominam toda a obra, mas a mistura de géneros que os The Clash eram capazes de colocar em disco só atingiria o seu zénite em Sandinista!

London Calling é considerado pela generalidade dos críticos um disco perfeito. Na reedição que celebra os 25 anos do disco, a sempre exigente Pitchfork Media dá-lhe a pontuação perfeita (10.0). Na minha opinião, é o melhor disco feito por uma banda punk-rock (supostamente). Apresenta temas musicalmente fortes, sustentados numa fusão dos géneros pop, rock e reggae, e aborda os assuntos mais delicados no momento conturbado em que Margaret Thatcher assume o poder: desemprego, drogas, violência interracial e terrorismo independentista. É um excelente manifesto político, no qual a violência das letras se sobrepõe à suposta violência do punk. Em London Calling, os Clash transformam-se numa banda para quem a mensagem é mais importante do que o nihilismo do punk, e esse é, certamente, um sinal de inteligência.

The Clash - London Calling


The Clash - Rudie Can't Fail


The Clash - Train in a vain


Projecto 200 anos de música. A ideia é simples. Ao longo de duzentas entradas, o Piano na Floresta vai listar duzentas obras musicais, uma por cada ano, iniciando a contagem decrescente a partir do ano 2000. Se tudo correr conforme planeado, será possível identificar um disco ou uma obra composta em cada um dos anos no intervalo entre o ano 1800 e o ano 2000. Não há limitações de género musical. A qualidade e a reputação da obra não constituem critério de escolha, embora se entenda que ela é, de algum modo, representativa do ano em questão.

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