
Se é verdade que o início do disco é rock'n'roll em estado puro (Black Dog e Rock and Roll), os temas seguintes são de uma versatilidade invulgar para o início dos anos 70. À semelhança de outros, também eu considero que os anos 70 são, grosso modo, a pior década da música popular, até porque os momentos de criatividade genial da segunda parte da década de 60 teriam, inevitavelmente, de descambar numa longa ressaca. Por isso mesmo, o trinado do bandolim da terceira faixa, The Battle of Evermore, mostra uns Led Zeppelin completamente transfigurados, falando do Príncipe da Paz, da Rainha da Luz e dos anjos de Avalon. Lírico. Místico. A participação da sacerdotisa Sandy Denny completa o quadro onírico.
Mas é evidentemente Stairway to Heaven que marca o álbum. Oito minutos para a história. O tema justifica a razão pela qual os Led Zeppelin são uma banda que desafia categorização. A guitarra dedilhada e a flauta que abrem Stairway to Heaven são lentamente substituídas por um crescendo musical que culmina num debitar de energia típico da banda, mas que exige ouvidos menos conformistas e mais audazes. Se é verdade que qualquer estudante de guitarra clássica aprende aqueles acordes iniciais como uma forma de culto à banda, também não é menos verdade que muitos deles nunca chegam apreciar toda a intensidade de Stairway to Heaven devido a uma insuficiente versatilidade no domínio do tema.
A influência do blues rock em Led Zeppelin IV é notável e estende-se à maioria dos seus temas. Tal como acontece com os Doors, para quem o blues era o core da música, devidamente enquadrado na poesia de Jim Morrison, as orquestrações mais cuidadas dos Led Zeppelin não diluem a influência dos blues, assumidos do primeiro ao último momento em IV. A originalidade reside na mescla única da voz que desafia classificação de Robert Plant, a guitarra do virtuoso Jimmy Page e o ritmo poderoso imposto pela bateria de John Bonham e pelo baixo marcado de John Paul Jones. When the Levee Breaks é, sob esse aspecto, Zeppelin em estado puro: directo, confiante e arrebatador.
The Battle of Evermore (mp3)
When the Levee Breaks (mp3)
Projecto 200 anos de música. A ideia é simples. Ao longo de duzentas entradas, o Piano na Floresta vai listar duzentas obras musicais, uma por cada ano, iniciando a contagem decrescente a partir do ano 2000. Se tudo correr conforme planeado, será possível identificar um disco ou uma obra composta em cada um dos anos no intervalo entre o ano 1800 e o ano 2000. Não há limitações de género musical. A qualidade e a reputação da obra não constituem critério de escolha, embora se entenda que ela é, de algum modo, representativa do ano em questão.
4 comentários:
Que curioso. Há uns dias atrás, o meu cunhado, uns anos mais velho que eu, mostrava-me este cd, e esta música em particular. Que eu já não ouvia há uns anos. Foi curioso porque ele comprou uma agulha nova para o seu gira-discos, e anda todo entusiasmado, novamente, com os seus vinis...incluindo este, e os dos Génesis. Bj
Concordo plenamente com a escolha, deste album, um épico!
O som quente do vinil com um bom sistema de amplificação, uma exelente agulha, e um vinil sem riscos é melhor que qualquer formato digital! Além disso, todo a envolvente, de colocar o disco no gira-discos, a agulha, torna o vinil um objecto sagrado e o culto da música um prazer raro. Só é pena que os preços dos vinis sejam cada vez mais caros, quando se fazem re-edições..
Excelente!
Abraço.
Depois dos vossos comentários sobre o vinil, tenho de assumir uma fraqueza: só ouço vinis quando vou a casa dos meus pais e pego nos meus velhos discos.
Como sugere o Pedro, há todo um ritual associado à audição do vinil que desapareceu com o digital, sobretudo com os mp3, ipods e similares.
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