domingo, janeiro 15, 2006

Mirbeau: Prazer ou Tortura?

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O Jardim dos Suplícios é um livro maldito. Divide-se em duas partes, com conteúdos substantivos e literários extremamente distintos. Na primeira parte, Octave Mirbeau descreve a política francesa do século XIX, já no tempo da República, abundante em corrupção, favoritismo e incompetência. A segunda parte decorre algures na China, num contexto de selvajaria e barbárie.

O personagem principal, anónimo, relata o lema da educação que lhe deu seu pai: “Tirar qualquer coisa a alguém e guardá-la para si, é roubo… Tirar qualquer coisa a alguém e passá-la a outrem, em troca de tanto dinheiro quanto se puder, é comércio… O roubo é estúpido porque se contenta com um só lucro, muitas vezes perigoso, ao passo que o comércio comporta dois, garantidos…”

O seu protector político, Eugène Mortain, tem uma atitude semelhante no seu ramo de negócio - a política. Um diálogo entre ambos é qualquer coisa de caricato e esclarecedor:
"- Há na circunscrição que te escolhi uma questão que domina todas as outras: a beterraba… O resto não conta e é com o prefeito… Tu és um candidato puramente agrícola… mais ainda, exclusivamente beterrabista… Não o esqueças… Seja o que for que possa acontecer durante a luta, mantém-te inabalável nesta plataforma excelente…Sabes alguma coisa de beterraba?
- Palavra que não – respondi – sei apenas, como toda a gente, que dela se tira açúcar… o álcool.
- Bravo! Isso basta – aplaudiu o ministro com uma tranquilizadora e cordial autoridade… Explora até ao fundo esse conhecimento… Promete rendimentos fabulosos… adubos químicos extraordinários e gratuitos… caminhos-de-ferro, canais, estradas para a circulação desse interessante e patriótico legume… Anuncia desagravamentos de impostos, prémios aos cultivadores, direitos ferozes sobre as matérias concorrentes… tudo o que quiseres!... Nesta ordem de ideias tens carta branca e eu te ajudarei… Mas não te deixes arrastar para polémicas pessoais ou gerais que poderiam tornar-se perigosas para ti e, com a tua eleição, comprometer o prestígio da República… É que, aqui entre nós, meu velho – não te censuro nada, apenas verifico –, tens um passado incómodo."

Depois de perder a eleição, o personagem central é enviado em missão “científica” para o Ceilão, mas apaixona-se durante a viagem por Clara, uma aristocrata inglesa que o convence a ir viver com ela para a China. Daí que a segunda parte do livro decorra num ambiente mais exótico e fascinante. Porém, cedo se percebe que aquilo que inicialmente aparenta ser um paraíso terrestre, é, na verdade, o inferno.

O elemento central desta segunda parte é o Jardim dos Suplícios, parte integrante de uma prisão próxima do local em que ambos vivem. A descrição das torturas, dos instrumentos empregues e das expressões sádicas dos torturadores e carrascos é nauseante e revoltante. Curiosamente, todo este ambiente contrasta com a beleza das flores e árvores que crescem no jardim, e que Mirbeau descreve com uma precisão quase obsessiva. O jardim dos suplícios é um local belo e horrendo, as torturas mais infames são obras de arte, esculpidas com devoção por carcereiros dedicados e dementes. Se a escrita é extremamente cuidada e de fino recorte, o que ela retrata é absurdo, repugnante e abominável.

Por tudo isto, tenho um sentimento de ambivalência relativamente a esta obra. Embora a escrita tenha inegável qualidade, há certos conteúdos que são demasiado chocantes para merecer dispêndio de tempo. Além disso, falta um toque de genialidade à obra (presente, por exemplo, em Os Cantos de Maldoror de Lautreamont), pelo que não compensa enfrentar as dificuldades criadas pelo tema central exposto para obter daí o prazer associado à leitura. No final, o mais certo é um misto de náusea e surpresa. Não compensa o esforço.

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5 Comments:

Anonymous Pecola said...

No fim de contas, parece.me que o melhor é aproveitar a tua análise, e ficar por aqui. O tempo é cada vez mais dispendioso.

Confesso que fiquei interessada na visão do comércio como "um roubo com dois lucros".

Beijinhos

12:10 da tarde  
Blogger Ana Prado said...

Creio que conseguiste o efeito contrário: criar no outro a vontade de ler. Conseguiste-o com esta análise:)

5:46 da tarde  
Blogger merdinhas said...

O Jardim das Delícias a ilustrar o dos suplícios.
Nunca li, o link remete para uma colecção em vias extinção, aqueles livros de capa preta e folhas azuis onde, por acaso, nunca li um livro de que não gostasse.
Nessa ou noutra edição acho que vou ler.

11:00 da tarde  
Blogger Fernando said...

Sim, os livros da série B são fabulosos: A Casa dos Mil Andares, O Arranca-Corações, O Elefante, etc. etc. só para mencionar alguns...

11:49 da tarde  
Anonymous Rafael said...

Olá, muito bom o post! Gostaria de saber onde posso adquirir este livro; já venho o procurando a algum tempo sem sucesso. Qualquer coisa, pode responder no meu blog mesmo:
www.elclubsilencio.blogspot.com
Abraço!

3:33 da manhã  

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