quinta-feira, janeiro 05, 2006

O Princípio de Dominó

Sempre que escrevo sobre música, algumas pessoas (a Marta, por exemplo) manifestam-se surpreendidas com a quantidade de bandas mais ou menos obscuras que ouço e tento dar a conhecer. A verdade é que a minha obsessão pela música tem raízes profundas e familiares. Esta entrada procura dar a conhecer essas raízes. Mais do que isso, demonstra como os meus conhecimentos musicais derivam do conhecido "princípio de dominó".

Cresci ao som dos compositores clássicos do período romântico. Em casa dos meus pais, Mozart, Beethoven, Chopin, Schubert, Tchaikovsky e Wagner eram obrigatórios no prato do velho gira-discos. Aprendi a gostar de música clássica assim. Nunca me considerei um erudito por isso. Alguns temas de Tchaikovsky ou de Mozart são tão comerciais e melódicos como músicas dos Beatles ou dos Rolling Stones.

Durante os anos da licenciatura comecei a adquirir cds de outros compositores que se ouviam menos lá por casa. Rachmaninov, Paganini, Grieg, Sibelius, Boccherini, Rimsky-Korsakov, Mahler e Debussy faziam agora parte da minha colecção de cds, que começava a distanciar-se dos gostos dos meus pais.

A minha paixão pelos Current 93 já é bastante antiga. Quando ouvi pela primeira vez o cd "Soft Black Stars" (1998) achei-o prodigioso e de uma beleza tremenda. A crítica dizia que o disco tinha alguns pontos de contacto com "After Virtue" (1988) de Wim Mewtens. Ambos eram discos de piano a solo e com forte tendência para a melancolia. Foi assim que fui iniciado na música clássica contemporânea. Para além deste episódio, assistir aos filmes de Peter Greenway ("Um Z e Dois Zeros", "Maridos à Água" e "O Cozinheiro, O Ladrão, A Mulher Dele e o Amante Dela") colocou-me em contacto com a música minimal repetitiva de Michael Nyman.

Durante algum tempo, Mertens e Nyman eram os únicos compositores contemporâneos que escutava, mas cedo percebi que havia uma imensidão musical que ignorava por completo. Por empréstimo do Pedro, conheci alguns dos trabalhos dos anos 80 de Philip Glass, incluindo "Solo Piano" e "Glassworks" e fiquei apaixonado pela música do compositor. Comecei pela faceta mais acessível de Glass, nomeadamente "Itaipu/The Canyon", "North Star", as sinfonias "Low" e "Heroes" (escritas em parceria com David Bowie e Brian Eno), para além dos já mencionados "Glassworks" e "Solo Piano". Depois arrisquei os trabalhos mais "difíceis": Concerto para Violino e as Sinfonias nº2 e nº3.

De Philip Glass a John Cage e a Steve Reich o salto era óbvio. Tinha descoberto o minimalismo americano. Comecei a ouvir as obras para "Prepared Piano" e "Litany for the Whale" e de John Cage, bem como "Different Trains", "Music for 18 Musicians" e "Four Organs & Phase Patterns" de Steve Reich. A discografia de Cage é tão vasta e diversificada que só agora estou a iniciar este período de descoberta.

Em Setembro visitei a Polónia. Curioso por natureza e profissão, procurei saber quem eram os compositores polacos mais famosos, para além do óbvio Chopin. A resposta veio rápida: Henryk Gorécki e Krysztof Penderecki. Para conhecê-los, comprei em saldo (5 euro) a Sinfonia nº3 ("Symphony of Sorrowful Songs") de Gorécki e juro que foram os cinco euro mais bem gastos em música dos últimos dois anos. A música é pungente e algo depressiva, até pela inspiração no Holocausto destes dois músicos polacos, mas simultaneamente de uma beleza infinita. Ao ouvir esta sinfonia, não pude deixar de encontrar algumas semelhanças com "Sleep Has Is House" (2000) dos Current 93. Suponho que este trabalho, escrito por David Tibet em homenagem à memória do seu pai, foi inspirado pela Sinfonia nº3 de Gorécki. Depois de tanta música conhecida segundo princípio de dominó, tinha voltado à peça inicial.

Sabendo da minha admiração pelo realizador, os meus pais ofereceram-me no Natal a colecção de filmes de Stanley Kubrik. Um dos DVDs relata a vida e obra do realizador e, em particular, as influências musicais dos filmes de Kubrick. "The Shining" tem, imagine-se, a presença musical de Krysztof Penderecki. No dia de Ano Novo terminei a noite a ver "2001-Odisseia no Espaço". Uma óptima e optimista maneira de começar o ano. Na inesquecível sequência visual final, a música é de György Ligetti e, segundo já li, este é significativamente marcado pela obra de Olivier Messiaen. Ainda não tenho nenhum cd destes dois compositores, mas a curiosidade adensa-se.

Infelizmente, os preços de cds de música clássica contemporânea são proibitivos e os saldos são raros, pois as edições são em pequena quantidade e muitas só podem ser obtidas via importação. Contudo, devido à minha assumida obsessão com música de quase todo o género, é inevitável que a minha próxima visita à Fnac envolva a aquisição de algum cd destes últimos compositores.

E é assim que o meu conhecimento musical se alarga e aumenta. Da mesma forma que as cerejas: puxa-se por uma e logo outras vêm atrás. Lá em casa luta-se com falta de espaço para arrumar tanto cd, mas acreditem que só tratamento médico sério poderá acabar com esta compulsão...

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6 Comments:

Blogger katraponga said...

:)

Depois de ler este texto até fiquei com vontade de fazer festinhas nos meus DVD's e CD's (cada vez mais replaced pelos MP3's, I confess...)!

8:09 da tarde  
Anonymous Pecola said...

Olha, sou.te franca.. Acho que a minha surpresa, como - espero - a de outros, só revela o meu fraco domínio nessa área. E depois tenho pena, sabes? É raro o dia em que não pense "queria viver para sempre para saber tudo" ou "vou passar a ler mais, ouvir mais, opinar mais". Mas a nossa vida gira em catadupa como uma bola de neve e, pimba!, já nem tempo para comentários - por vezes - despropositados há. :P Tenho pena, também se todos conhecessemos tudo isto seria tudo um grande tédio.

Cresci com pouco som. Só me lembro do Julio Iglesias da mãe da minha madrinha, do disco da cigarra do antónio vidal, e do velhinho Croquete e Batatinha - enquanto o meu pai guardava os Pink Floyd, os Beatles e o Freddy Mercury para mais tarde.

Não sou esquisita - tudo cá cabe, desde que faça sentido na altura. É óbvio que o facto de não ser eclética não desculpabiliza a minha falta de cultura musical mas.. pelo menos intolerante não sou. (Excluindo um Moranguito ou Outro) ;)

Bom 2006!!

11:18 da tarde  
Blogger ∫nês said...

Compulsão é uma palavra feia para algo tão lindo como ser vidrado em música. Não te "cures", continua assim que eu continuarei por aqui, em busca de cerejas :)

7:32 da tarde  
Blogger notamusical said...

olá, segui o som da música e encontrei teu blog.Concordo pelnamente contigo.Nasci e cresci com a música. Acho que me ajudou imenso a superar alguns obstáculos que eu acreditava que não tinha condições de superar. Ela rasgatou a cultura e ajudou-me directamente na construção de meu conhecimento. A música também é um excelente instrumento de cidadania. Projetos que envolvem música e integração social (especialmente com crianças e adolescentes carentes ou de rua) se espalham, aos poucos, pelo país e são ainda mais populares e com resultados satisfatórios.Infelizmente é assim que alargamos o nosso conhecimento musical investindo....investindo e investindo...claro para quem tem posses para isso.Mas não fica por aqui...investimos também em instrumentos musicais....acessórios...enfim..vida de Músico.

1:07 da tarde  
Blogger AEnima said...

Acho que no fundo o comum a todos nós que gostamos de música é mesmo o amor e o tempo que lhe dedicamos. Tenho amigos que não compreendem como perco tempo a ouvir coisas esquisitas... a minha própria irmã é guitarrista nata e só ouve trabalhos de guitarra mas tudo fora disso diz que a adormece... para ela... o que eu fazia aos 13 e 14 anos e por aí fora que acordava cedo aos sabados de manhã para apanhar o autocarro para ir "parar" para a Tubitek e a Bimotor ouvir tudo o que tinha na loja, discutir com os outros cabeludos bandas que conheciamos e passarmos uma semana sem almoçar para comprar um CDzito e ir a um concerto era totalmente "insane". Eu não tinha ninguém com quem ir ver os Morphine então paguei-lhe o bilhete, o consumo no hard club e ainda os jeans que ela queria só para ter companhia para ver uma das melhores bandas que ainda poucos conheciam na altura... e ainda bem que o fiz, porque embora tivessem voltado a portugal mais tarde, eu não estava lá, não pude ir, e ele morreu... depois comecei a aprender a ver concertos sozinha, tindersticks, bauhaus, etc.. quando eram no coliseu, no problem... por isto de comprar a minha irmã estava a ficar-me caro. Beijinhos a todos e bons sons! :)

5:30 da manhã  
Blogger folhasdemim said...

As minhas estantes são mais povoadas de livros que de cd's. Mas o meu marido vai tentando equilibrar a coisa eheheh
Ainda assim, tenho a sorte de ter amigos que me dão a conhecer música que eu nem sabia existir.
Beijokas :) Betty

3:59 da tarde  

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